Um passeio na Hipsterlândia

serrote

30.05.11

A revelação se deu ao me ver refletido entre a vitrine de um café e uma galeria do Brooklyn: de camisa polo, fico uma besta completa. Tio Gay Talese me ensinou que Nova York é uma cidade em que as coisas passam despercebidas. Espero que do outro lado do rio continue valendo a máxima, pois naquela região gente inteligente SEMPRE usa xadrez e listras, cavanhaques e barbichas, chapéus,  topetes em diversas direções e óculos de aros grossos. É a Hipsterlândia, terra que dá cidadania em troca de pose: para obter o seu greencard não precisa ser, basta parecer.

Allen Ginsberg viveu para ver as melhores cabeças de sua geração destruídas pela loucura, hipsters com cara de anjo arrastando-se pelas ruas. Felizmente não sobreviveu ao desfile de neohipsters casuais, com cara de tédio, casuais, pelas ruas do Brooklyn e do Lower East Side de Manhattan. O JP Cuenca, que acaba de passar uma temporada em Williamsburg, epicentro da Hipsterlândia, me ensina que todos os seus vizinhos tinham um topete, um MacbookPro e uma atitude.

Para me educar melhor, comprei um exemplar de What was the hipster?, livrinho que é resultado de um seminário convocado para discutir o fenômeno pela n+1, revista que é uma evidente prima da serrote.  Só que, vá lá,  hipster, adjetivo que traz confesso desgosto de um de seus editores, Mark Grief, também organizador do tal livrinho, que tem como subtítulo “uma investigação sociológica”. Depois de sua leitura, cuidadosamente anotada, descobri por que a camisa polo é tão burra.

Originalmente, aprendo, o hipster é uma figura contestatória da cultura negra criada nos anos 40, ao ritmo do jazz. Virou marginal chique na década seguinte, quando adotada pelos enfant teribles da moda beatnik. Norman Mailer batizou-os de “branco negro”, ou seja, o branco que negava em tudo e por tudo o que representava o meio cultural no qual foi criado. Figura da margem, o hipster teve diversas vidas até reencarnar nas figuras nostálgicas que despontaram na década de 90 e continuam por aí, olhando com escárnio nós, a reles humanidade.

O hipster de hoje, em Nova York ou aqui mesmo – é só prestar atenção – não repete a história como farsa, mas como ironia, que é muito mais cool. Vivendo uma maturidade infantilizada, tem saudades de brinquedos e parques de diversões perdidos (se for Coney Island, melhor), lê David Forster Wallace com fervor religioso e é vagamente rebelde “contra tudo o que aí está” – desde que esteja fora, bem entendido, de seu universo de consumo autodefinido como alternativo. Nos termos mais duros de Mark Grief, “o antiautoritatismo hipster deixa claro o ardil no qual os jovens de classe média podem se perdoar por abandonar as reivindicações da contracultura – seja ela punk, anticapitalista, anarquista, nerd ou sessentista – ainda que ostentando a pose da contracultura”.

A base da cultura hispter, me ensina o livrinho, é a política da distinção, ou seja,  da produção de diferenciações mais ou menos legítimas dessa nossa vidinha besta, bastando para isso ter na cabeça um chapéu ou uma ideologia. Os hipsters americanos também são protagonistas de alguns dos mais notáveis processos de gentrificação, anglicismo precário para o termo que designa quando uma área urbana degradada é “enobrecida” pela ocupação de moradores de uma classe social mais abastada – com o devido afastamento de seus habitantes originais. A história de Nova York confunde-se com esse processo e não é à toa que o Brooklyn é conhecido hoje como o “novo Village”, repetindo o processo de substituição de uma população marginalizada pela inteligência de chapeuzinho e vagamente artística.

Assim como a gentrificação é um processo cultural totalmente integrado a um desenvolvimento imobiliário – hoje um cafofo no Brooklyn não fica por menos de um milhão de doletas -, a Hipsterlândia é um parque temático da margem perfeitamente integrado ao mainstream. É a pausa que refresca e apazigua as consciências, daí o horror de todo hipster em ser chamado de hipster.

Agora consciente de minha desprezível normalidade, talvez indício de reacionarismo, e tendo descartado definitivamente as possibilidades de cultivar um bigodinho ou comprar uns óculos da década de 50, me contento em ter saudades do Parque Shangai, minha Coney Island na Penha. Mas continuarei lendo Philip Roth e John Updike, desprezíveis homens brancos, até minha próxima  viagem, quando alugarei um flat no Dumbo e passarei uma semana fazendo pose na galeria de um subsolo enquanto no MoMA rola uma exposição careta e decadente. Cool, man.

Abaixo, a hilária Olimpíada Hipster, competição para decidir quem é in, ou melhor, out

P.S. : depois do fechamento desta edição, descobri  que camisa polo pode ser hipster também, desde que usada com uma camiseta por dentro, de preferência branca. Anotado.

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