Labirintos de Kafka e Amilcar de Castro

Literatura

30.06.15

Volto ao exem­plar de Carta ao pai, de Kafka, publi­ca­do pela Companhia das Letras no já lon­gín­quo ano de 1997, em fun­ção do cur­so Remetente/Destinatário orga­ni­za­do por Eucanaã Ferraz. A aula a ser minis­tra­da por Karl Erik Schøllhammer, pro­fes­sor e dire­tor do depar­ta­men­to de Letras da PUC-Rio, encer­ra o ciclo de oito encon­tros sobre gran­des escritores/correspondentes da his­tó­ria lite­rá­ria moder­na.

Ao reto­mar essa edi­ção, logo pen­so no famo­so dita­do “não se jul­ga o livro pela capa”. Com belís­si­ma tra­du­ção de Modesto Carone, o autor de O pro­ces­so come­ça o livro com o pé na por­ta:

Querido pai, você me per­gun­tou recen­te­men­te por que eu afir­mo ter medo de você. Como de cos­tu­me, não sou­be res­pon­der, em par­te jus­ta­men­te por cau­sa do medo que tenho de você, em par­te por­que na moti­va­ção des­se medo inter­vêm tan­tos por­me­no­res, que mal pode­ria reu­ni-los numa fala. E se aqui ten­to res­pon­der por escri­to, será sem dúvi­da de um modo mui­to incom­ple­to, por­que, tam­bém ao escre­ver, o medo e suas con­sequên­ci­as me ini­bem dian­te de você e por­que a mag­ni­tu­de do tema ultra­pas­sa de lon­ge minha memó­ria e meu enten­di­men­to.

Nas pági­nas seguin­tes, encon­tra-se um rela­to den­so, emo­ci­o­na­do, que expõe mais a con­fis­são genuí­na de Kafka enquan­to filho do que um pro­je­to lite­rá­rio do escri­tor – que à épo­ca já havia publi­ca­do A meta­mor­fo­se e Na colô­nia penal (ambos de 1914). Ele mes­mo diz: “Meus escri­tos tra­ta­vam de você, neles eu expu­nha as quei­xas que não podia fazer no seu pei­to”. Parece freu­di­a­no, e pode ser. Parece pie­gas, e de fato é.

Ainda que não sou­bes­se que Kafka é um dos mais impor­tan­tes auto­res no cená­rio da lite­ra­tu­ra moder­na, é bem pro­vá­vel que essa edi­ção – que a mim pare­ce tão sin­gu­lar – atraís­se aque­la espé­cie de lei­tor que ini­cia sua lei­tu­ra pelo que é ante­ri­or ao con­teú­do, e, nes­se caso, me refi­ro à pró­pria ilus­tra­ção da capa.

O qua­dra­do pre­to pos­sui uma peque­na aber­tu­ra do lado esquer­do que lem­bra a entra­da de um labi­rin­to onde o espa­ço bran­co fun­ci­o­na como con­vi­te-guia até a seguin­te situ­a­ção: uma fai­xa gros­sa, cuja base de pon­tas se asse­me­lha a uma arca­da den­tá­ria só de cani­nos, sur­ge de cima cor­pu­len­ta e opres­si­va. O opri­mi­do, logo abai­xo, é um tra­ço fino que se sal­va do esma­ga­men­to por um míni­mo espa­ço bran­co. Avançando no labi­rin­to, o cami­nho fica cada vez mais estrei­to até que, sem opção, somos impe­li­dos a subir por um blo­co bran­co ver­ti­cal divi­di­do pelo meio por um tra­ço pre­to – pesa­do – bem deli­ne­a­do. Não tem saí­da.

Como num rito de ini­ci­a­ção, o ilus­tra­dor Amilcar de Castro, de for­ma sutil e sagaz, ante­ci­pa ao lei­tor mais aten­to o con­teú­do do livro: tra­ma, dra­ma, labi­rin­to de uma (de todas?) rela­ção fami­li­ar.

O uso cons­ci­en­te e pre­ci­so das cores (ou da fal­ta delas), das for­mas e dos espa­ços faz mais que uma relei­tu­ra da car­ta. A ilus­tra­ção trans­mi­te numa só mira­da o acer­to de con­tas na famí­lia, os anos de silên­cio ou gaguei­ra e a ater­ra­do­ra figu­ra pater­na.

Ilustração de Amilcar de Castro que estampa a capa da edição nacional de Carta ao pai

Reconhecido pelo tra­ba­lho com cha­pas de fer­ro, Amilcar, explo­ra, prin­ci­pal­men­te, dois prin­cí­pi­os: a dobra e o des­lo­ca­men­to. O aço é tra­ba­lha­do como papel e o obje­to que sur­ge des­se movi­men­to-ori­ga­mi é ins­cri­to num espa­ço aber­to dia­lo­gan­do e sen­do inter­pe­la­do por ele. Concebida tri­di­men­si­o­nal­men­te, a obra expos­ta se frag­men­ta enquan­to maté­ria que é e rece­be pas­si­va­men­te a influên­cia do cli­ma, do solo, da natu­re­za. Essa dete­ri­o­ra­ção soa como avi­so: esta­mos, escul­tu­ras e homens, igual­men­te sub­me­ti­dos à for­ça do Tempo, um dos deu­ses mais lin­dos.

O artis­ta-ori­ga­mis­ta inter­fe­re o míni­mo pos­sí­vel na estru­tu­ra da peça de modo que é pos­sí­vel refa­zer sua uni­da­de inter­na por meio do olhar, des­do­bran­do e abrin­do as pon­tas, des­co­brin­do a cha­pa intei­ri­ça. Nenhuma sobra.

As figu­ras fei­tas a par­tir do cor­te-dobra se, ao mes­mo tem­po, pare­cem um tan­to raci­o­na­lis­tas e econô­mi­cas, podem ser con­si­de­ra­das, tam­bém, figu­ras do cam­po da poe­sia. Tal como se o aço cor­ten de Amilcar tives­se pas­sa­do pela “faca só lâmi­na” de João Cabral de Melo Neto (que é, por sua vez, mini­ma­lis­ta e per­fei­to em sua lira), res­tan­do da maté­ria ape­nas o sufi­ci­en­te.

*

O espan­to com a capa de Carta ao pai não vem tan­to pelo talen­to notá­vel do Amilcar-escul­tor, mas pela habi­li­da­de do Amilcar-ilus­tra­dor ao escre­ver, com pin­cel e nan­quim, uma espé­cie de pre­fá­cio com­ple­to, com­ple­xo e econô­mi­co.

Amilcar ain­da pro­põe a seguin­te dinâ­mi­ca: enquan­to no tra­ba­lho com o aço, o fer­ro toma a leve­za do papel; no tra­ba­lho com o papel, os obje­tos natu­ral­men­te leves garan­tem a den­si­da­de e robus­tez do aço.

Se não fui capaz de reco­nhe­cer de ime­di­a­to que o labi­rin­to, com seus cani­nos negros e fero­zes, era de Amilcar de Castro, o que me ligou aos três sujei­tos – Amilcar-escul­tor, Amilcar-pin­tor e ao pró­prio Kafka – foi a expe­ri­ên­cia da emo­ção esté­ti­ca. Aquele tal arre­ba­ta­men­to que vez ou outra na vida nos dá a gra­ça.

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