Moretti, Herzog: habemus cinema

No cinema

01.11.11

Habemus papam, um dos fil­mes mais empol­gan­tes da mos­tra de cine­ma de São Paulo e pos­si­vel­men­te a obra máxi­ma de Nanni Moretti, par­te de uma situ­a­ção para­do­xal.

Não exis­te na ter­ra um indi­ví­duo mais cheio de cer­te­zas e de auto­ri­da­de do que o papa, cer­to? Mas e se um deter­mi­na­do papa, recém-elei­to por seus cole­gas car­de­ais, sucum­bis­se à dúvi­da e à para­li­sia? Pois é pre­ci­sa­men­te isso o que ocor­re com o car­de­al Melville (Michel Piccoli), para­li­sa­do de pâni­co no momen­to mes­mo em que deve apa­re­cer na saca­da da basí­li­ca de São Pedro e anun­ci­ar-se ao mun­do como novo pon­tí­fi­ce.

Na ten­ta­ti­va de resol­ver o impas­se, a cúpu­la da Igreja con­vo­ca ao Vaticano um psi­ca­na­lis­ta (o pró­prio Moretti), repu­ta­do como o melhor de Roma. Dá-se então, num pri­mei­ro momen­to, um entre­cho­que de sabe­res (e pode­res): a reli­gião e a ciên­cia, a fé e a razão.

Troca de papéis

É diver­ti­do, mas não resi­de aí o que o fil­me tem de mais bri­lhan­te, de mais fecun­do, e sim na ideia da repre­sen­ta­ção, da tro­ca de papéis, do mun­do como um tea­tro. Não por aca­so, ao con­sul­tar sua segun­da psi­ca­na­lis­ta (Margherita Buy), que não sabe quem ele é, o novo papa se apre­sen­ta como ator.

A todo momen­to Moretti brin­ca com esse jogo de cena. Todos os per­so­na­gens são cha­ma­dos em algum momen­to a assu­mir um papel que não era ori­gi­nal­men­te o seu — como o mem­bro da guar­da suí­ça do Vaticano con­vo­ca­do a andar de um lado para outro por trás das cor­ti­nas dos apo­sen­tos papais para que nin­guém dê pela ausên­cia do san­to padre. (Por absur­do que pare­ça, o estra­ta­ge­ma me fez lem­brar de Kagemusha, de Kurosawa, um fil­me em tudo diver­so, mas que tem em comum com este a ques­tão da som­bra, do duplo, do anô­ni­mo que faz as vezes do líder ausen­te.)

As ima­gens de incon­gruên­cia (como essa do guar­da suí­ço ou as de car­de­ais jogan­do vôlei, cor­ren­do na estei­ra, toman­do ansi­o­lí­ti­cos ou dan­çan­do ao som de Mercedes Sosa) com­ple­tam-se com as ima­gens de ausên­cia: a mais boni­ta e per­fei­ta delas é a da saca­da vazia da basí­li­ca, com a bri­sa sacu­din­do as cor­ti­nas como num pal­co deser­to, dian­te da per­ple­xi­da­de e da angús­tia de milha­res de fiéis em vigí­lia.

Mundo sem Deus, sem pai, como se o “défi­cit de afe­ti­vi­da­de” de que fala obce­ca­da­men­te a psi­ca­na­lis­ta fos­se uma epi­de­mia que atin­ge a huma­ni­da­de como um todo — a come­çar por esse velho frá­gil e vul­ne­rá­vel que deve­ria man­dar em meio pla­ne­ta e que não con­se­gue man­dar sequer em si mes­mo. Um per­so­na­gem à medi­da do talen­to extra­or­di­ná­rio de Michel Piccoli.

Vale tor­cer para que esse gran­de fil­me fique para a “repes­ca­gem” da mos­tra de São Paulo e para que entre logo em car­taz em nos­sos cine­mas. Aqui vai o trai­ler, como ape­ri­ti­vo:

Caverna dos sonhos esque­ci­dos

Outro fil­me da mos­tra que não se deve per­der é o docu­men­tá­rio Caverna dos sonhos esque­ci­dos, de Werner Herzog. O dire­tor ale­mão con­se­guiu auto­ri­za­ção do gover­no fran­cês para explo­rar com sua câme­ra, em 3D, o des­lum­bran­te inte­ri­or da Caverna Chauvet, des­co­ber­ta no sul da França em 1994.

Nas pare­des da caver­na, refi­na­dos dese­nhos de 32 mil anos de ida­de (os mais anti­gos já des­co­ber­tos) con­fi­gu­ram uma espé­cie de pro­to­ci­ne­ma, suge­rin­do pro­fun­di­da­de, volu­me e movi­men­to para con­tar dra­mas da vida pré-his­tó­ri­ca. Uma ava­lan­che ou algo pare­ci­do, ocor­ri­da há uns 20 mil anos, tapou a entra­da da caver­na, trans­for­man­do-a numa “cáp­su­la de tem­po” que man­te­ve intac­tos seus fós­seis e sig­nos de valor ines­ti­má­vel para a com­pre­en­são da vida em épo­cas pas­sa­das.

A ultra-avan­ça­da tec­no­lo­gia à dis­po­si­ção do gru­po mul­ti­dis­ci­pli­nar que estu­da a caver­na não impli­ca uma posi­ção de supe­ri­o­ri­da­de em rela­ção à cul­tu­ra pre­ser­va­da ali den­tro, mas, pelo con­trá­rio, sus­ci­ta uma pos­tu­ra de humil­da­de e admi­ra­ção dian­te do enge­nho de nos­sos ante­pas­sa­dos e de sua rela­ção sutil com o meio em que vive­ram.

Passado, pre­sen­te e futu­ro se entre­la­çam nes­sa aven­tu­ra do espí­ri­to. Cinema como conhe­ci­men­to, via­gem, expe­ri­ên­cia — é isso, nada menos, que Herzog nos ofe­re­ce duran­te 90 minu­tos em que, como diz um cien­tis­ta a cer­ta altu­ra, tal­vez con­si­ga­mos ouvir as bati­das de nos­so pró­prio cora­ção.

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