A mãe universal de Nanni Moretti

No cinema

18.12.15

Há artis­tas que cri­am uma obra con­fes­si­o­nal, plas­man­do dire­ta­men­te em lite­ra­tu­ra, cine­ma, pin­tu­ra ou músi­ca sua expe­ri­ên­cia pes­so­al. E há artis­tas que par­tem des­sa expe­ri­ên­cia, mas a des­lo­cam e trans­fi­gu­ram de modo a trans­cen­der o nar­ci­sis­mo e cri­ar uma fabu­la­ção de mai­or alcan­ce, gene­ro­sa, crí­ti­ca, uni­ver­sal. O Fel­li­ni de Os boas vidas, Roma Amar­cord é o melhor exem­plo que me ocor­re. E alguns fil­mes de Nan­ni Moret­ti vão mais ou menos nes­sa linha: Caro diá­rioApri­le e ago­ra este esplên­di­do Mia madre.

Tra­ta-se, resu­mi­da­men­te, do dra­ma de uma dire­to­ra de cine­ma (Marghe­ri­ta Buy) às vol­tas com a com­pli­ca­da rea­li­za­ção de um fil­me ao mes­mo tem­po em que sua mãe (Giu­lia Laz­za­ri­ni) ago­ni­za num hos­pi­tal. Sabe­mos que o pró­prio Nan­ni Moret­ti viveu situ­a­ção seme­lhan­te: sua mãe mor­reu quan­do ele fil­ma­va Habe­mus Papam (2011).

Aqui come­ça o des­lo­ca­men­to: o pró­prio Moret­ti encar­na o irmão da pro­ta­go­nis­ta, um enge­nhei­ro. Acres­cen­tan­do um dado ao jogo entre bio­gra­fia e fic­ção, a per­so­na­gem da cine­as­ta tem o mes­mo nome da atriz que a repre­sen­ta, Marghe­ri­ta, e seu irmão se cha­ma Gio­van­ni, como Moret­ti.

Jogo de refra­ções

Men­ci­o­nei Fel­li­ni lá no alto, mas não há nada mais dis­tan­te da exu­be­rân­cia plás­ti­ca e musi­cal fel­li­ni­a­na que o esti­lo dis­cre­to, con­ti­do, de Nan­ni Moret­ti. Em Mia madre, o prin­ci­pal do dra­ma che­ga a nós como que amor­te­ci­do, em sur­di­na. Um exem­plo elo­quen­te é o da cena em que se anun­cia uma mor­te: vemos uma pes­soa que ouve alguém rece­ber por tele­fo­ne, fora do qua­dro, a infor­ma­ção, que ape­nas dedu­zi­mos por um jogo de refra­ções (visu­ais, audi­ti­vas, lógi­cas). Ou seja, o espec­ta­dor par­ti­ci­pa ati­va­men­te da cons­tru­ção do dra­ma, o que de manei­ra algu­ma dimi­nui a pun­gên­cia des­te.

Nan­ni Moret­ti e Marghe­ri­ta Buy em cena do fil­me

O que há de mais estri­den­te são os per­cal­ços do fil­me den­tro do fil­me, em espe­ci­al os con­fli­tos entre a dire­to­ra Marghe­ri­ta e o impa­gá­vel ator nor­te-ame­ri­ca­no Bar­ry Hug­gins (John Tur­tur­ro), con­tra­ta­do para encar­nar um indus­tri­al que fecha sua fábri­ca, oca­si­o­nan­do demis­sões em mas­sa. Não dei­xa de ser inte­res­san­te, aliás, o modo oblí­quo e irô­ni­co como Moret­ti abor­da ques­tões cru­ci­ais da Euro­pa hoje: o desem­pre­go, a “aus­te­ri­da­de”, os con­fli­tos soci­ais.

No mais, o que acom­pa­nha­mos é uma admi­rá­vel orques­tra­ção de tran­si­ções. Há a tran­si­ção óbvia, espa­ci­al, entre ambi­en­tes: o hos­pi­tal, o set de fil­ma­gem. Mas há tam­bém a pas­sa­gem do real à fan­ta­sia (os sonhos e deva­nei­os cul­pa­dos de Marghe­ri­ta, ence­na­dos como sequên­ci­as cine­ma­to­grá­fi­cas), a tra­ves­sia sutil do dra­ma ao humor.

Humor e dra­ma

A cine­as­ta Marghe­ri­ta insis­te com seus ato­res que eles não devem imer­gir total­men­te em seus per­so­na­gens, mas man­ter-se “ao lado” deles. Nin­guém, nem sequer ela pró­pria, enten­de mui­to bem o que isso sig­ni­fi­ca, mas essa tal­vez seja a cha­ve de tudo o que vemos na tela: a for­ça de Moret­ti vem des­se estar ao mes­mo tem­po den­tro e fora do dra­ma, viven­do-o e simul­ta­ne­a­men­te enxer­gan­do-o cri­ti­ca­men­te.

A pre­sen­ça do cômi­co no dra­má­ti­co, e do dra­má­ti­co no cômi­co, é um dos encan­tos do cine­ma de auto­res tão dís­pa­res como Cha­plin e Renoir, Ozu e Almo­dó­var, Moni­cel­li e Cou­ti­nho, além, cla­ro, do cita­do Fel­li­ni. Nan­ni Moret­ti faz par­te da hete­ro­gê­nea con­fra­ria. Em Mia madre encon­trou a atriz que con­den­sa per­fei­ta­men­te essa alqui­mia. Como uma Giu­li­et­ta Masi­na redi­vi­va, Marghe­ri­ta Buy sor­ri como quem está pres­tes a cho­rar, e vice-ver­sa. Na pai­sa­gem cam­bi­an­te des­se ros­to há toda uma decla­ra­ção sobre a vida e sobre a arte de repre­sen­tá-la.

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