O sofá em 1958 na praia do Leblon

Otto Stupakoff/Acervo ISR

O sofá em 1958 na praia do Leblon

Não é mole, não

Em cartaz

13.01.17

Corria o ano de 1957 e o fotó­gra­fo Otto Stupakoff, então ins­ta­la­do no Rio de Janeiro, enco­men­dou ao ami­go e arqui­te­to Sergio Rodrigues um sofá con­for­tá­vel, no qual pudes­se se “refes­te­lar” em seu estú­dio da Rua Sambaíba, no Leblon. A his­tó­ria é conhe­ci­da, mas mere­ce ser sem­pre lem­bra­da por­que tam­bém fez História: do “sofa­zão do Otto”, como Rodrigues cha­mou o pro­je­to, para a cri­a­ção da pol­tro­na Mole, um íco­ne do mobi­liá­rio bra­si­lei­ro e inter­na­ci­o­nal ain­da hoje, 60 anos depois de seu lan­ça­men­to, foi um peque­no pas­so. Ou tra­ço. A “par­ce­ria”, diga­mos assim, entre o fotó­gra­fo e o arqui­te­to está des­ta­ca­da na expo­si­ção Otto Stupakoff: bele­za e inqui­e­tu­de, em car­taz no Instituto Moreira Salles do Rio de Janeiro até dia 16 de abril. Além de uma répli­ca da famo­sa pol­tro­na, o Instituto Sergio Rodrigues cedeu tam­bém o pri­mei­ro estu­do do sofá, assim como ima­gens de publi­ci­da­de do móvel fei­tas em 1958 pelo pró­prio Otto.

Otto Stupakoff e Sergio Rodrigues no sofá cri­a­do pelo arqui­te­to

A ses­são de fotos, aliás, tam­bém ren­deu outra boa his­tó­ria. Para divul­gar o sofá e outros móveis, o arqui­te­to e o fotó­gra­fo leva­ram as peças para as arei­as da praia do Leblon que, deser­ta naque­la tar­de, fazia o papel de fun­do infi­ni­to.  Logo que os móveis foram dis­tri­buí­dos, porém, a maré subiu, enchar­can­do tudo. “Foi engra­ça­do, por­que na hora foi uma afli­ção. Mas no dia seguin­te, a expo­si­ção com a pol­tro­na Mole foi inau­gu­ra­da com comen­tá­ri­os da impren­sa dizen­do que joga­mos móveis ao mar, como se fos­se uma espé­cie de des­pa­cho”, con­tou Sergio em uma entre­vis­ta ao jor­nal Folha de S.Paulo, em feve­rei­ro de 2006, oito anos antes de sua mor­te.

As fotos ilus­tra­ram o catá­lo­go da Oca, revo­lu­ci­o­ná­ria loja de arqui­te­tu­ra e design de inte­ri­o­res cri­a­da por Sergio em 1955. E a remu­ne­ra­ção de Otto pelo tra­ba­lho foi um exem­plar da pol­tro­na, já que na épo­ca da enco­men­da ele não teve como pagar pela peça.

Sergio con­ta­va que quan­do a equi­pe que cri­ou o móvel fez o orça­men­to do cus­to, ficou um pou­co alto para o Otto. Aí Sergio dis­se ‘dei­xa eu ver, tal­vez eu tenha erra­do algu­ma coi­sa’. E quan­do recal­cu­la­ram o pre­ço, ficou mais caro ain­da”, lem­bra Fernando Mendes de Almeida, vice-pre­si­den­te do Instituto Sergio Rodrigues, que ouviu mui­tas vezes do pró­prio arqui­te­to os casos em tor­no do móvel. “Sempre que fala­va da pol­tro­na Mole ele con­ta­va a his­tó­ria toda. Isso valo­ri­za­va a cri­a­ção, e o Sergio sabia jogar luz sobre essas coi­sas, era diver­ti­do. Não enten­dia nada de assun­tos mais prag­má­ti­cos, orça­men­to, valo­res. Essa par­te sem­pre ficou com a Vera Beatriz (mulher, musa e gran­de amor da vida do arqui­te­to, que pre­si­diu o ins­ti­tu­to até sua mor­te, em 3 de janei­ro des­te ano). A pala­vra que cabe bem para ele é empre­en­de­dor. Ele sabia sedu­zir, fazer todo mun­do acre­di­tar em suas idei­as”.

Acervo Instituto Sergio Rodrigues

Primeira ver­são de Sergio Rodrigues para o “sofa­zão do Otto”

No pri­mei­ro esbo­ço fei­to por Rodrigues, que pode ser vis­to na expo­si­ção, o sofá não tinha o dese­nho mais arre­don­da­do que ganhou depois. Era ain­da uma estru­tu­ra reti­lí­nea, uma amar­ra­ção com cor­das, e um col­chão de cri­na por cima. “O Sergio dizia que Otto enco­men­dou um sofá no qual pudes­se se sen­tir ‘como um sul­tão’”, lem­bra Fernando. “Essa pri­mei­ra estru­tu­ra ficou na casa do Sergio. Depois ele fez o sofá mole, com dois luga­res”.

A enco­men­da de um sofá espe­ci­al não foi um mero capri­cho ou feti­che mobi­liá­rio de Otto. Para ele, um estú­dio esta­va lon­ge de ser ape­nas um local de tra­ba­lho, como escre­veu o fotó­gra­fo Bob Wolfenson, cura­dor da mos­tra ao lado de Sergio Burgi, coor­de­na­dor de foto­gra­fia do IMS. “Todos os imó­veis que dese­nhou, ergueu ou ocu­pou ao lon­go de sua vida foram sem­pre ten­ta­ti­vas de fazer do estú­dio um lugar de aco­lhi­men­to e con­for­to, mui­to mais pró­xi­mo a um ate­liê de artis­ta do que a um esta­be­le­ci­men­to pró­prio à fun­ção pro­fis­si­o­nal”, lem­brou Bob num dos tex­tos que acom­pa­nham a expo­si­ção. Na mes­ma sala em que está a pol­tro­na Mole, o públi­co pode ver foto­gra­fi­as de vári­os dos estú­di­os de Otto, a come­çar pelo pri­mei­ro, em 1955, em Porto Alegre, que ele mes­mo dese­nhou e ganhou elo­gi­os do arqui­te­to Oscar Niemeyer.

Laura Liuzzi

Exemplar da pol­tro­na Mole, cri­a­da por Sergio Rodrigues em 1957, em expo­si­ção no IMS-RJ

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