O Brasil acabou?

Colunistas

19.08.15

Um jor­na­lis­ta cor­do­bês me per­gun­ta qual é a dife­ren­ça entre a lite­ra­tu­ra bra­si­lei­ra e a argen­ti­na. E de repen­te, sob o efei­to e a urgên­cia da atu­a­li­da­de polí­ti­ca, me pego res­pon­den­do como se eu fos­se outra pes­soa e tives­se um dis­cur­so pron­to na cabe­ça há anos. Digo que a situ­a­ção bra­si­lei­ra é essen­ci­al­men­te diver­sa da argen­ti­na. Digo que um espec­tro assom­bra a lite­ra­tu­ra bra­si­lei­ra des­de sem­pre e que é o espec­tro de uma fal­ta e de uma cul­pa não resol­vi­da, sobre a qual o país se cons­ti­tuiu.

Na ori­gem des­sa fal­ta está a escra­vi­dão, cla­ro, mas em seus des­do­bra­men­tos mais pró­xi­mos e impor­tan­tes para a lite­ra­tu­ra está o anal­fa­be­tis­mo. Como é que se escre­ve num país ile­tra­do, que não lê e, pior, que não sabe ler?, per­gun­to ao jor­na­lis­ta.

Não que­ro redu­zir a lite­ra­tu­ra bra­si­lei­ra a uma lei­tu­ra soci­o­ló­gi­ca. Digo: Isso que vou dizer não põe em dúvi­da a exce­lên­cia e a auto­no­mia dos auto­res e das obras, mas sig­ni­fi­ca sim­ples­men­te que, no Brasil, não é pos­sí­vel esca­par a essa assom­bra­ção. Você pode ten­tar recal­cá-la de todas as manei­ras, mas ela sem­pre vol­ta, por­que é uma fal­ta que põe em ques­tão a pró­pria ideia de lite­ra­tu­ra e suas con­di­ções de pos­si­bi­li­da­de. A obses­são por cons­ti­tuir uma iden­ti­da­de naci­o­nal (de inven­tar uma nação) por meio da lite­ra­tu­ra é um sinal por demais evi­den­te des­sa falha e des­sa cul­pa.

Digo ao jor­na­lis­ta argen­ti­no que a lite­ra­tu­ra bra­si­lei­ra ten­tou con­ce­ber a nação pela pri­mei­ra vez, no roman­tis­mo, por meio de um mito indí­ge­na. A doçu­ra dis­tan­te do mito no lugar da misé­ria de uma rea­li­da­de de opres­são. A fra­gi­li­da­de des­sa ten­ta­ti­va é tão retum­ban­te que a seguir só res­ta a um gran­de escri­tor escan­ca­rar a far­sa. É o que faz Machado de Assis, cuja obra expõe, pelo sar­cas­mo e pela iro­nia, a qui­me­ra de uma epo­peia naci­o­nal, esfar­ra­pa­da e cor­rom­pi­da.

Machado é de lon­ge o mais moder­no dos escri­to­res bra­si­lei­ros, o que tor­na ao mes­mo tem­po com­pre­en­sí­vel e mui­to estra­nho que tenha sido rele­ga­do pelos moder­nis­tas. Sua moder­ni­da­de os esma­ga­ria. O moder­nis­mo que­ria refun­dar a ideia da nação sobre bases mais sóli­das e mais inte­li­gen­tes que as do roman­tis­mo. A ten­ta­ti­va român­ti­ca era uma pia­da pron­ta. Os moder­nis­tas se cons­ti­tu­em moder­nos por opo­si­ção ao roman­tis­mo, mas nem tan­to, por­que no fun­do dese­jam a mes­ma coi­sa.

Gravura em cobre de Theodor de Bry (século XVI)

Gozando dos român­ti­cos, Oswald de Andrade vai ten­tar recri­ar o mito naci­o­nal com um ver­niz chis­to­so e irô­ni­co. Ele vem da bur­gue­sia pro­pri­e­tá­ria de ter­ras de São Paulo (nes­te pon­to, faço ques­tão de res­sal­tar, para o enten­di­men­to do jor­na­lis­ta argen­ti­no, que não sou dos que acre­di­tam que a sim­ples ori­gem de clas­se de um autor pos­sa redu­zir a for­ça ou o valor da sua lite­ra­tu­ra), e vai pro­por, ain­da que pelo chis­te, uma defi­ni­ção vale-tudo de uni­da­de naci­o­nal, que enco­bre todas as con­tra­di­ções, a come­çar pelo fan­tas­ma da escra­vi­dão, pesa­de­lo de qual­quer escri­tor mini­ma­men­te inte­li­gen­te e cons­ci­en­te do lugar onde está, nem que seja pela pre­sen­ça incô­mo­da do anal­fa­be­tis­mo.

A solu­ção de Oswald é um slo­gan impe­ra­ti­vo e publi­ci­tá­rio: “Somos todos antro­pó­fa­gos”. Somos? O que nos une é devo­rar a cul­tu­ra alheia e deglu­ti-la em for­mas reno­va­das e revi­go­ra­das, locais. Isso num país de anal­fa­be­tos. É bri­lhan­te, mas não faz sen­ti­do. É uma fra­se de efei­to que vin­gou a pon­to de con­ti­nu­ar sen­do repe­ti­da até hoje, como um corin­ga, sem­pre que é pre­ci­so atri­buir algu­ma gra­ça e inte­li­gên­cia ao arti­fí­cio da iden­ti­da­de naci­o­nal.

Ao mes­mo tem­po, Mario de Andrade tam­bém fler­tou com a ideia de um amál­ga­ma, e até com mais seri­e­da­de. Imbuindo-se do papel de pes­qui­sa­dor e etnó­lo­go, ele ten­tou recri­ar o mito da iden­ti­da­de naci­o­nal numa reci­cla­gem mais inte­li­gen­te e mais com­ple­xa, que a tor­nas­se menos frá­gil, e fra­cas­sou. Macunaíma é a expres­são des­se fra­cas­so. E é essa, para mim, a mai­or bele­za do moder­nis­mo bra­si­lei­ro: refa­zer pela con­tra­di­ção, na ten­ta­ti­va lou­ca e deses­pe­ra­da de dar uma cara a essa nação sem nenhum cará­ter, o que Machado já havia con­se­gui­do pela afir­ma­ção da insus­ten­ta­bi­li­da­de de um sonho canhes­tro.

O espec­tro des­sa fal­ta e des­sa con­tra­di­ção assom­bra a obra de outros gran­des escri­to­res que em prin­cí­pio não pare­cem ime­di­a­ta­men­te pre­o­cu­pa­dos com o papel soci­al da lite­ra­tu­ra. Guimarães Rosa vai inven­tar uma nova lín­gua para esse país, uma lín­gua que não exis­te, que é uma fan­ta­sia de lín­gua popu­lar. Miguilim, o meni­no que não sabe que não enxer­ga, é uma repre­sen­ta­ção como­ven­te des­sa assom­bra­ção. Afinal, ele só vê (e lê) o mun­do quan­do o dou­tor lhe dá os ócu­los. “O Mutum é boni­to.” Quer dizer: o mun­do é boni­to, ou o Brasil é boni­to, mas pelos ócu­los do dou­tor. Sem eles, Miguilim não enxer­ga, nem ao menos sabe que não enxer­ga.

A Hora da Estrela é o retra­to des­sa fal­ta por uma escri­to­ra às vés­pe­ras da mor­te. É um livro sobre uma mulher “que não faz fal­ta a nin­guém”, assim como o escri­tor que escre­ve a his­tó­ria, alter ego de Clarice Lispector, tam­pou­co faz a menor fal­ta, na sua pró­pria apre­sen­ta­ção. Macabéa é uma dati­ló­gra­fa que come­te erros demais, por­que só che­gou até a ter­cei­ra série. A falha está nes­sa fra­se incrí­vel, que a defi­ne por uma fal­ta sin­tá­ti­ca: “A moça não tinha”. Simplesmente. Ponto. Não tinha o quê?

Entre os tre­ze títu­los pos­sí­veis do livro, Clarice inclui: A Culpa é MinhaEla que se Arranje.

A assom­bra­ção pros­se­gue, ago­ra sob influên­cia do mul­ti­cul­tu­ra­lis­mo anglo-saxão, quan­do no Brasil se reto­mam cri­té­ri­os que sub­ju­gam as obras à expe­ri­ên­cia de clas­se e de raça dos auto­res, para refun­dar os parâ­me­tros de uma lite­ra­tu­ra da qual pas­sam a fazer par­te novas vozes, antes excluí­das, que saem mila­gro­sa­men­te de den­tro da pró­pria fal­ta (das fave­las, da peri­fe­ria) para supos­ta­men­te suplan­tá-la com o cum­pri­men­to da pro­mes­sa de uma iden­ti­da­de reden­to­ra da cul­pa. A des­pei­to do efei­to sau­dá­vel de reve­lar essas vozes, o esfor­ço pou­co muda na ques­tão estru­tu­ral. Por mais que essa fal­ta ponha em ques­tão a lite­ra­tu­ra, não cabe à lite­ra­tu­ra resol­ver sozi­nha o abis­mo soci­al que rece­be­mos de heran­ça, digo ao jor­na­lis­ta argen­ti­no, enquan­to assis­ti­mos boqui­a­ber­tos às mani­fes­ta­ções pelo impe­a­ch­ment e ele me per­gun­ta se, afi­nal, o Brasil aca­bou.

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