A cineasta Lucrecia Martel

A cineasta Lucrecia Martel

Nosso mundo movediço

No cinema

23.03.18

Entre os cineas­tas mais fortes e orig­i­nais da atu­al­i­dade está a argenti­na Lucre­cia Mar­tel, ain­da que sua obra se resuma por enquan­to a ape­nas qua­tro lon­gas-metra­gens. Todos os qua­tro serão exibidos na mostra ded­i­ca­da à dire­to­ra pelo Insti­tu­to Mor­eira Salles em São Paulo e no Rio.

Mais do que pro­pri­a­mente um esti­lo, o que unifi­ca ess­es qua­tro filmes tão difer­entes entre si em ter­mos de enre­do e ambi­en­tação é antes um méto­do: um modo oblíquo e frag­men­ta­do de encar­ar os seres e as ações, como quem os col­he em pleno anda­men­to e ain­da bus­ca os nex­os que lhes deem sen­ti­do. Pois esse sen­ti­do não está dado de antemão, e o filme não se limi­ta a ilus­trar uma real­i­dade já con­heci­da, ou uma história que pode­ria ser con­ta­da por out­ros meios. Ao con­trário: cria, ele próprio, uma real­i­dade pos­sív­el (ou várias), em que tudo é esqui­vo e ambíguo, solic­i­tan­do a inteligên­cia e a sen­si­bil­i­dade do espec­ta­dor a lig­ar pon­tos e faz­er seu próprio desen­ho.

Algo que escapa

Em O pân­tano (2001), seu sur­preen­dente lon­ga-metragem de estreia, cruzam-se numa local­i­dade do noroeste argenti­no per­son­agens de duas famílias de uma classe média que já viveu dias mel­hores. É verão e boa parte do tem­po é pas­sa­da à beira da pisci­na do sítio de uma delas. Rui­dosas cri­anças em férias, ado­les­centes inqui­etos e adul­tos ato­la­dos no tédio ou na embriaguez for­mam esse ambi­ente instáv­el, em que nada parece muito firme ou muito claro.

 

 

Tudo é fil­ma­do de maneira a deixar de fora do quadro uma parte do que acon­tece, seja porque a câmera está próx­i­ma demais, cap­tan­do frag­men­tos de cor­pos e de obje­tos, seja porque o espaço está obstruí­do por por­tas entre­aber­tas, janelas, espel­hos, móveis, pare­des, árvores, ou ain­da porque não ouvi­mos o que se fala ao longe. A par das brus­cas elipses tem­po­rais, esse pro­ced­i­men­to cria a sen­sação de que algo nos escapa, de que peg­amos a con­ver­sa pela metade e de que saí­mos antes da con­clusão do acon­tec­i­men­to.

Pro­duz-se assim um mun­do movediço, mar­ca­do pela ambigu­idade nas relações pes­soais, incluin­do uma ten­são eróti­ca difusa – e oca­sion­al­mente inces­tu­osa – que per­me­ia os con­tatos famil­iares e soci­ais. Há uma sen­sação ger­al de prisão invisív­el (como no Anjo exter­mi­nador de Buñuel), de gos­men­ta teia de aran­ha da qual não escapam nem mes­mo as cri­anças em sua inqui­etude.

Duas fig­uras pare­cem deses­ta­bi­lizar essa par­al­isia ger­al: José (Juan Cruz Bor­deu), o fil­ho adul­to da dona do sítio (Gra­ciela Borges), e a cri­a­da ado­les­cente Isabel (Andrea López), uma quase agre­ga­da da família. José mora em Buenos Aires com uma mul­her mais vel­ha, ex-cole­ga de esco­la de sua mãe, e sua chega­da ao sítio des­per­ta dese­jos e sen­ti­men­tos dúbios em pelo menos uma irmã (ou meia-irmã). Isabel, que tem uma origem mar­cada­mente indí­ge­na (como todos os empre­ga­dos à vista), agi­ta os hor­mônios de out­ra das fil­has, além de atiçar a avidez de macho de José.

Mas não é o sufi­ciente para sus­ci­tar uma trans­for­mação, como faz por exem­p­lo a chega­da do estran­ho à família bur­gue­sa de Teo­re­ma, de Pasoli­ni. Aqui tudo, até mes­mo a tragé­dia final, parece ser tra­ga­do pelo pân­tano, como a vaca que se ato­la per­to do iní­cio do filme e não con­segue mais sair, sob os lati­dos histéri­cos dos cães – numa das cenas mais fortes de toda a fil­mo­grafia da dire­to­ra.

Na Argenti­na e no exte­ri­or, a críti­ca não tar­dou em ver no filme um retra­to da deca­dente classe média argenti­na enreda­da em seu próprio maras­mo e fal­ta de per­spec­ti­vas. Pode ser, claro. Mas não há como apri­sion­ar o sig­nifi­ca­do de uma obra assim, reduzin­do-a à ilus­tração de uma tese.

 

San­ti­dade e per­ver­são

Depois dessa estreia esplên­di­da, Lucre­cia Mar­tel enfren­tou um desafio ain­da mais del­i­ca­do em seu segun­do lon­ga, A meni­na san­ta (2004), ao explo­rar a seu modo as frágeis fron­teiras entre a inocên­cia e a malí­cia, a san­ti­dade e a per­ver­são. A “ação” se con­cen­tra no espaço – quase tudo se pas­sa num hotel deca­dente da provín­cia de Salta, no noroeste argenti­no, ou em seu entorno – e no tem­po, durante os poucos dias de um con­gres­so de med­i­c­i­na.

 

 

Definem-se logo três núcleos dramáti­cos: a família dona do hotel, os médi­cos que par­tic­i­pam do con­gres­so e um grupo de cate­quese de garo­tas ado­les­centes. Amalia (María Alche), a meni­na do títu­lo, real­iza o cur­to-cir­cuito entre ess­es três núcleos. Fil­ha da dona do hotel (Mer­cedes Morán), ela é fasci­na­da pelo tema da vocação reli­giosa e aca­ba se envol­ven­do de modo tor­to com um dos médi­cos (Car­los Bel­loso), um homem casa­do, a quem ela quer sal­var da luxúria. Os temas can­dentes do assé­dio sex­u­al e da ped­ofil­ia gan­ham aqui uma abor­dagem que foge da espetac­u­lar­iza­ção e do moral­is­mo fácil.

Mais uma vez, a dire­to­ra mais mostra – e esconde – do que pro­pri­a­mente “nar­ra”. Tudo é apre­sen­ta­do de modo frag­men­tário, indi­re­to, espar­so. A atenção ao cor­po e suas partes, tão fla­grante em O pân­tano (em que as pes­soas são vis­tas deitadas durante boa parte do tem­po), gan­ha um novo desen­volvi­men­to aqui, com espe­cial atenção à audição: os sus­sur­ros, o can­to, os ecos, os ruí­dos. O som, de modo ger­al, gan­ha pro­tag­o­nis­mo, até porque o médi­co em questão é um audi­ol­o­gista.

Há um lugar-comum muito difun­di­do segun­do o qual “o cin­e­ma argenti­no é mel­hor que o brasileiro porque tem bons roteiros, histórias bem con­tadas”. Descon­fio que quem pen­sa assim provavel­mente não gos­ta dos filmes de Lucre­cia Mar­tel, nos quais, do pon­to de vista de uma dra­matur­gia con­ven­cional, quase nada “acon­tece”, quase nen­hum enre­do se pode traduzir em palavras.

A dire­to­ra rad­i­cal­iza essa sua recusa de um entre­cho pré-exis­tente em seu ter­ceiro lon­ga-metragem, A mul­her sem cabeça (2008), em que tudo gira em torno de um não-acon­tec­i­men­to, um quase-acon­tec­i­men­to, ou um talvez-acon­tec­i­men­to. Uma mul­her bur­gue­sa e madu­ra (María Onet­to), soz­in­ha em seu car­ro numa estra­da modor­renta do inte­ri­or, atro­pela algu­ma coisa que ela não vê e que jul­ga ini­cial­mente ser um cachor­ro. A par­tir daí ela pas­sará a se com­por­tar quase como uma sonâm­bu­la ou um zumbi em todos os seus cír­cu­los: a família, o tra­bal­ho, os ami­gos. Dom­i­na-a a ideia obses­si­va, ora certeza, ora dúvi­da, de que atro­pelou e matou uma pes­soa.

 

 

Assim como ela, o espec­ta­dor tam­bém não sabe – e a real­izado­ra trans­mite a sen­sação de não saber, tam­pouco. O que inter­es­sa ali não é o fato em si, mas sua con­strução men­tal, suas recon­fig­u­rações, suas rever­ber­ações na vida da pro­tag­o­nista e de seus próx­i­mos.

 

Do pân­tano ao pan­tanal

Se a rad­i­cal­i­dade de A mul­her sem cabeça não obteve o mes­mo êxi­to críti­co que os dois primeiros filmes da dire­to­ra, o que talvez explique em parte o lon­go jejum que se seguiu (nove anos sem um lon­ga de ficção), o pas­so seguinte de Lucre­cia Mar­tel não foi bem um pas­so, foi um salto: levar às telas o romance históri­co-exis­ten­cial Zama (1956), do escritor argenti­no Anto­nio Di Benedet­to.

 

 

Ao con­trário de seus lon­gas ante­ri­ores, feitos a par­tir de roteiros orig­i­nais seus, aqui a dire­to­ra se defron­tou com um mate­r­i­al já exis­tente, con­sid­er­a­do um mar­co da lit­er­atu­ra mod­er­na his­pano-amer­i­cana. Ain­da que o livro este­ja longe de ser uma nar­ra­ti­va épi­ca con­ven­cional, o desafio de Lucre­cia era o de aban­donar seu tem­po e lugar e aven­tu­rar-se por um uni­ver­so descon­heci­do e traiçoeiro – um pouco como o pro­tag­o­nista Don Diego de Zama, fun­cionário da cora espan­ho­la que quer escapar da des­o­lação do pan­tanal paraguaio.

A dúvi­da era se ela con­seguiria aplicar o seu méto­do sutil, seu olhar oblíquo, sua estéti­ca da ambigu­idade, a um ter­reno aparente­mente nada famil­iar. A meu ver, como escrevi aqui no Blog do IMS na época da exibição de Zama na Mostra Inter­na­cional de Cin­e­ma de São Paulo, ela foi par­cial­mente bem-suce­di­da. Não é uma epopeia, é um estu­do poéti­co sobre a espera, sobre o medo do out­ro e a con­strução imag­inária desse out­ro. Queren­do extrap­o­lar, é tam­bém, claro, uma visão do con­ti­nente como um imen­so e insidioso pân­tano no qual cha­fur­damos sem con­seguir sair.

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