Cynthia Brito/CPDoc JB

Cynthia Brito/CPDoc JB

Tupinilândia

Em processo

28.03.18

Ten­do nasci­do nos anos oiten­ta, min­ha for­mação como leitor se deu em ban­cas de revis­tas, com­pran­do Pato Don­ald e Super­in­ter­es­santeTupinilân­dia é um pouco sobre isso, sobre uma infân­cia que parece col­ori­da e diver­ti­da quan­do vista em ret­ro­spec­to, exce­to que o país era uma ditadu­ra, a vio­lên­cia urbana era tão ou mais forte que a atu­al, AIDS era uma palavra proibi­da e a econo­mia ia tão mal quan­to o casa­men­to dos meus pais. Me pare­ceu nat­ur­al que a ação de Tupinilân­dia dev­e­ria se dar no ano em que nasci, com a explosão de uma ban­ca de revis­tas.

 

 

Dona Lyda era con­sid­er­a­da por seus cole­gas de tra­bal­ho uma pes­soa sen­sív­el, bem-humora­da e sen­ho­ra de uma capaci­dade prodi­giosa para detal­h­es — moti­vo que a fazia ser tida como a memória viva do escritório. Aos dezes­seis anos, sua mãe lhe dera alguns tro­ca­dos para o almoço e qua­tro­cen­tos réis para a pas­sagem na bar­ca de Niterói, prestes a começar num emprego novo que seria o mes­mo lugar onde, quarenta anos depois, con­tin­u­a­va tra­bal­han­do: a sede car­i­o­ca da Ordem dos Advo­ga­dos do Brasil. Naque­le iní­cio de tarde de agos­to, esta­va a três meses de com­ple­tar sessen­ta anos, e por muito tem­po adi­ara a ideia de se aposen­tar. Não podia con­ce­ber sua roti­na sem o movi­men­to do escritório ou a com­pan­hia dos cole­gas, mas ago­ra a idade começa­va a cobrar seu cus­to, com as inevitáveis dores que trazia. Con­sul­tou o reló­gio: dez para as duas da tarde. Abriu uma gave­ta em sua mesa e nela guardou o livro que vin­ha lendo — tin­ha o hábito de sele­cionar pas­sagens inter­es­santes de tex­tos e poe­mas lidos, redi­gi-los e entregá-los aos cole­gas. Ela era dessas pes­soas que gosta­va de ser gen­til com os demais. Con­sul­tou o reló­gio: quase duas da tarde. Dali a pouco o pes­soal retornar­ia do almoço. Ocor­reu-lhe ver­i­ficar se havia café pas­sa­do na cafeteira.

Quan­do ela própria volta­va para sua mesa com uma xícara em mãos, entrou um rapaz na sala. Tin­ha cer­ca de trin­ta anos, ves­tia calça e camisa social do mes­mo modo que tan­tos out­ros nos escritórios ao redor. Entre­gou um enve­lope de papel par­do, endereça­do ao doutor Seabra Fagun­des, chefe de dona Lyda. Ela per­gun­tou se pre­cisa­va assi­nar algum pro­to­co­lo de rece­bi­men­to, o rapaz disse que não e foi emb­o­ra. Ela soprou o café e bebeu um gole. Ain­da esta­va muito quente. Seu chefe era um dos prin­ci­pais defen­sores da anis­tia aos exi­la­dos políti­cos da ditadu­ra, mas esta­va fora da cidade. Ela con­cluiu que seria mel­hor abrir logo o enve­lope e ver­i­ficar sua urgên­cia, antes de deixá-lo na sala do doutor Seabra. Cor­reu os olhos pela mesa, em bus­ca de uma cane­ta. Escol­heu uma de met­al, mais resistente. Abriu o lacre do enve­lope.

A mesa de dona Lyda encon­tra-se hoje expos­ta no memo­r­i­al da sede da OAB de Brasília, recom­pos­ta e envol­ta numa faixa com as cores da ban­deira nacional. O impacto que a rachou ao meio tam­bém arreben­tou os vidros da janela, der­rubou pedaços de rebo­co do teto, que ficaram pen­dura­dos por fios elétri­cos em cur­to-cir­cuito, e deixou a sala destruí­da. A explosão da car­ta-bom­ba em suas mãos fez com que dona Lyda tivesse o braço arran­ca­do, além de uma série de out­ros fer­i­men­tos graves, vin­do a fale­cer pouco depois a cam­in­ho do hos­pi­tal.

 


 

Em abril de 1981, Tia­go Mon­teiro cam­in­ha­va pelas ruas do Rio de Janeiro sob o peso de uma desilusão amorosa, uma onda de crimes assus­ta­do­ra, e enfrentan­do uma inflação de 110% com um salário de jor­nal­ista ini­ciante. Tin­ha vinte e qua­tro anos e viera tra­bal­har naque­la cidade movi­do por um rela­ciona­men­to. Ago­ra que acabara, não havia sol ou pra­ia que o pren­desse ali, somente a inér­cia na vida pes­soal e a fal­ta de von­tade de regres­sar à cidade de onde viera, Por­to Ale­gre.

O país se encam­in­ha­va para a aber­tu­ra políti­ca. A econo­mia, para o abis­mo dos emprés­ti­mos do FMI. A saúde públi­ca, para a epi­demia da Aids. E ele, para a ban­ca de revis­tas onde cos­tu­ma­va com­prar reg­u­lar­mente o Pasquim e o Pato Don­ald.

Do out­ro lado da rua, havia um car­ro para­do em frente à ban­ca, e um sen­hor grisal­ho esta­va agacha­do ao chão, pare­cen­do procu­rar por algo. Pen­sou em ajudá-lo, mas o sinal fechou e o trân­si­to se colo­cou entre os dois. Fos­se lá o que procurasse, o homem não pare­ceu encon­trar, pois entrou de vol­ta no car­ro de mãos vazias e foi emb­o­ra. Tia­go obser­vou o Voy­age dobrar a esquina, mas esta­va mais aten­to ao semá­foro. O sinal abriu, Tia­go atrav­es­sou a rua e chegou em frente à ban­ca. Esta­va fecha­da, o que era inco­mum para o horário. Decid­iu que iria tomar um suco e voltaria mais tarde.

Mal pen­sou em dar meia-vol­ta, quan­do a ban­ca explodiu.

Tia­go se aga­chou com o sus­to, perdeu o equi­líbrio, caiu sen­ta­do. Pes­soas cor­reram. Fumaça, gri­tos, cheiro de papel queima­do, fol­has de jor­nais e revis­tas ati­ra­dos para o alto. Em meio a tudo isso, uma pági­na ziguezagueou man­hosa e chamus­ca­da pelo ar à sua frente, indo pousar aos seus pés. Era a capa de uma edição recente da revista Manchete. A chama­da, “Uma bom­ba con­tra a aber­tu­ra”, reper­cu­tia o aten­ta­do do Rio­cen­tro no começo do ano. Ao lado da chama­da, o ros­to louro e sor­ri­dente da nova namora­da de Pelé era anun­ci­a­do como sím­bo­lo sex­u­al da déca­da que se ini­ci­a­va.

Aten­ta­dos à bom­ba vin­ham sendo uma con­stante nos últi­mos anos, des­de que os mil­itares anun­cia­ram o proces­so de aber­tu­ra políti­ca. Tia­go não tin­ha como saber, mas a dona daque­la ban­ca de revis­tas vin­ha receben­do bil­hetes com ameaças, caso con­tin­u­asse a vender jor­nais e revis­tas de esquer­da — como o próprio Pasquim que Tia­go pre­tendia com­prar. Naque­le dia, ten­do rece­bido mais uma ameaça, a mul­her fechara a ban­ca e levara o bil­het­inho para o Deops. A respos­ta foi a explosão de sua ban­ca. De um modo super­sti­cioso que nun­ca soube explicar muito bem nem para si próprio, Tia­go guardou aque­la pági­na chamus­ca­da da revista Manchete como um amule­to. No dia seguinte, pediu demis­são da redação de O Globo e decid­iu voltar para Por­to Ale­gre.

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