A cineasta Claire Denis

A cineasta Claire Denis

A cineasta Claire Denis

A mulher no labirinto

No cinema

29.03.18

Afi­nal, o que quer uma mul­her? A per­gun­ta, que tem descon­cer­ta­do tan­tos home­ns sabidos, de Sig­mund Freud a Cae­tano Veloso, às vezes recebe uma respos­ta enganosa­mente sim­ples: amor. Pois essa respos­ta leva a out­ra per­gun­ta, ain­da mais com­plexa: e o amor, o que é? Por esse labir­in­to de inter­ro­gações que ger­am out­ras inter­ro­gações trafe­ga o novo filme da france­sa Claire Denis, Deixe a luz do sol entrar.

Esse dra­ma cômi­co, ou comé­dia dramáti­ca, cen­tra­do nas dúvi­das e hes­i­tações de uma mul­her madu­ra, a artista visu­al Isabelle (Juli­ette Binoche), em sua tor­tu­osa bus­ca amorosa, parece se con­stru­ir, ele próprio, sob o sig­no da dúvi­da e da hes­i­tação.

 

Nudez e per­gun­tas

O filme começa com uma breve imagem, fil­ma­da com câmera alta, de Isabelle nua na cama. Mas logo se sobrepõe a esse cor­po nu o peso de um homem volu­moso e cheio de pelos, seu amante ban­queiro (Xavier Beau­vois). E começam as per­gun­tas: “Vai gozar?”, “Com seu ami­go de antes você goza­va depres­sa?” A con­ver­sa pós-coito ter­mi­na com um tapa.

Daí em diante a nar­ra­ti­va se orga­ni­za basi­ca­mente em torno de diál­o­gos, mas sem que as palavras “expliquem” o dra­ma, esgotem o sen­ti­do ou sufo­quem a potên­cia da imagem. Logo na segun­da cena, por exem­p­lo, em que Isabelle e o ban­queiro con­ver­sam jun­to a um bal­cão de bar, o diál­o­go des­en­con­tra­do dos dois tem como con­trapon­to as exigên­cias metic­u­losas que o homem faz ao bar­man que os atende. Nes­sa relação lat­er­al, lev­e­mente cômi­ca e ilu­so­ri­a­mente secundária, expõe-se o caráter obses­si­vo, arro­gante e autoritário do amante. A ence­nação, recu­san­do o habit­u­al campo/contracampo, faz com que a câmera pas­seie de um a out­ro per­son­agem de um modo que é aleatório só na aparên­cia, pois ressalta a dis­tân­cia entre eles e explo­ra as sutilezas de suas reações.

Com a segu­rança dos vet­er­a­nos que não pre­cisam mais provar nada a ninguém, a dire­to­ra dá a impressão de cri­ar suas regras para poder sub­vertê-las sem cer­imô­nia em favor de seus propósi­tos dramáti­cos e expres­sivos. Por exem­p­lo, até mais ou menos um terço do filme parece impor-se rig­orosa­mente a nor­ma de que a pro­tag­o­nista está sem­pre em cena e tudo se mostra a par­tir de seu pon­to de vista (não no sen­ti­do lit­er­al, em “câmera sub­je­ti­va”, e sim psi­cológ­i­ca e con­ceitual­mente). Mas de repente vemos um homem (Nico­las Duvauchelle) soz­in­ho e em silên­cio num camarim de teatro e só depois, num bar, é que aparece Isabelle con­ver­san­do com ele e ficamos saben­do quem é o sujeito e, mais ou menos, qual pode vir a ser a relação entre os dois.

Essa breve e brus­ca entra­da em cena do per­son­agem do ator, mais do que mostrar de ime­di­a­to qual é o seu con­tex­to e méti­er, soa como uma rev­e­lação ao espec­ta­dor de algo igno­ra­do pela pro­tag­o­nista: numa imagem (o homem diante de um espel­ho cer­ca­do de luzes), o nar­ci­sis­mo do sujeito.

Um pro­ced­i­men­to anál­o­go, e ain­da mais sur­preen­dente, será a intro­dução do per­son­agem do vidente Denis (Gérard Depar­dieu). Primeiro o vemos quase de costas, de meio per­fil, den­tro de um car­ro esta­ciona­do. O enquadra­men­to o tor­na ain­da mais cor­pu­len­to e de traços rudes, quase um mon­stro de desen­ho ani­ma­do, impressão enfa­ti­za­da por seus gestos e expressões tur­bu­len­tas. Ele dis­cute com alguém, e ini­cial­mente pen­samos que se tra­ta de Isabelle, mas não; é out­ra mul­her. O que faz essa cena ali? Pare­cem fotogra­mas de out­ro filme inseri­dos por engano.

Só depois o espec­ta­dor saberá quem é aque­le homem. E sua con­ver­sa com Isabelle será de algum modo per­me­a­da (con­ta­gia­da? enve­ne­na­da?) por essas ima­gens ante­ri­ores e aparente­mente desconexas, mati­zan­do e ironizan­do o sen­ti­do do que é dito.

 

Inse­gu­rança instan­tânea

A sutileza com que se expõem as oscilações de humor da pro­tag­o­nista é algo que talvez só uma dire­to­ra mul­her (com sua co-roteirista tam­bém mul­her, Chris­tine Angot) pos­sa atin­gir – e que só uma atriz com a inteligên­cia e a den­si­dade de Juli­ette Binoche seja capaz de con­cretizar fisi­ca­mente.

Há uma cena espe­cial­mente sig­ni­fica­ti­va dessa sin­er­gia fem­i­ni­na. Isabelle está na cama com o ex-mari­do, pai de sua fil­ha. É o momen­to de relax­am­en­to cúm­plice pós-gozo e tudo parece em paz. Mas de repente ele umedece dois dedos na lín­gua e faz menção de colocá-los entre as per­nas dela. Ela se retrai ime­di­ata­mente, acu­san­do-o de estar sendo fal­so, de imi­tar um gesto de out­ro, de estar assistin­do a si mes­mo. Essa inse­gu­rança instan­tânea como que repõe, de modo inver­tido, a per­gun­ta lá do iní­cio do tex­to: afi­nal, o que quer um homem?

O per­cur­so vac­ilante de Isabelle, ao lon­go do qual o próprio amor parece adquirir sen­ti­dos cam­biantes e não raro con­tra­ditórios (segu­rança, afe­to, aut­en­ti­ci­dade, praz­er, liber­dade), é não ape­nas respeita­do pelo filme como mime­ti­za­do em sua con­strução nar­ra­ti­va e em sua ence­nação. Tudo aqui é o opos­to das certezas dos livros de autoa­ju­da. Há uma mul­her soz­in­ha expos­ta às intem­péries do mun­do – e essa cir­cun­stân­cia assus­ta­do­ra está impres­sa nos olhos eter­na­mente úmi­dos e bril­hantes de Juli­ette Binoche.

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