O escritor Roberto Calasso

O escritor Roberto Calasso

O inominável atual

Literatura

05.02.18

Todo lei­tor dedi­ca­do tem seus auto­res de esti­ma­ção, aque­les que acom­pa­nha, que bus­ca ler na ínte­gra. No caso de escri­to­res ain­da vivos e pro­du­ti­vos, isso envol­ve a expec­ta­ti­va pelo sur­gi­men­to de novos títu­los. No meu caso, o ita­li­a­no Rober­to Calas­so é, sem dúvi­da, um autor de esti­ma­ção. Calas­so, nas­ci­do em 1941 e des­de 1962 tra­ba­lhan­do como edi­tor na Adelphi, escre­veu ao lon­go das últi­mas déca­das ensai­os sobre os mais vari­a­dos assun­tos: A ruí­na de Kas­ch, de 1983, sobre Tal­ley­rand e a Fran­ça de sua épo­ca; As núp­ci­as de Cad­mo e Har­mo­nia, de 1988, sobre mito­lo­gia gre­ga; K., de 2002, sobre Franz Kaf­ka; O rosa Tie­po­lo, de 2006, sobre o pin­tor vene­zi­a­no do sécu­lo XVIII, e mui­tos outros.

Mais do que o con­teú­do, o que impres­si­o­na nos livros de Calas­so é o esti­lo e a for­ma uti­li­za­da para apre­sen­tar as idei­as. Ele divi­de seu últi­mo livro, L’innominabile attu­a­le, lan­ça­do na Itá­lia em julho de 2017 (e ain­da iné­di­to no Bra­sil), em três par­tes: “Turis­tas e ter­ro­ris­tas”, “A Soci­e­da­de Vie­nen­se de Gás” e “Avis­ta­men­to das Tor­res”. As duas pri­mei­ras par­tes regu­lam de exten­são (70, 80 pági­nas), mas a ter­cei­ra é bre­vís­si­ma, con­ten­do ape­nas o res­ga­te de uma ano­ta­ção de Char­les Bau­de­lai­re, um sonho ou visão, em um papel que Calas­so decla­ra como “inda­tá­vel”. Nes­sa ano­ta­ção, Bau­de­lai­re diz ter vis­to a que­da de uma tor­re, um enor­me edi­fí­cio, que­da essa igno­ra­da pelas “nações”. Calas­so faz o para­le­lo com as Tor­res Gême­as e o 11 de setem­bro e encer­ra o livro.

Na pri­mei­ra par­te de L’innominabile attu­a­le, Calas­so dis­se­ca a cate­go­ria do Homo sae­cu­la­ris, ou ain­da, a pre­sen­ça do secu­la­ris­mo na soci­e­da­de moder­na, as rela­ções pos­sí­veis entre as cate­go­ri­as soci­ais e as cate­go­ri­as reli­gi­o­sas e como essa ten­são per­ma­ne­ce e se inten­si­fi­ca hoje (espe­ci­al­men­te nes­se con­fron­to do títu­lo, “turis­tas e ter­ro­ris­tas”, aque­les que cul­ti­vam a mobi­li­da­de e aque­les que abo­mi­nam a mobi­li­da­de – seja dos cor­pos, seja dos cos­tu­mes). “Homo sae­cu­la­ris é ine­vi­ta­vel­men­te turis­ta”, escre­ve Calas­so, e con­ti­nua: “Zap­pinglink for­mam vas­ta par­te de sua vida men­tal. São ope­ra­ções pre­e­xis­ten­tes, que um dia alcan­ça­ram a con­fi­gu­ra­ção indi­ca­da nos dois ter­mos. Bou­vard e Pécu­chet já as pra­ti­ca­vam, sem neces­si­da­de de recor­rer a qual­quer supor­te téc­ni­co”.

A segun­da par­te do livro apre­sen­ta uma cole­ção de cita­ções, comen­ta­das e edi­ta­das por Calas­so. “Não são lem­bran­ças”, ele escre­ve como intro­du­ção, “mas pala­vras escri­tas, publi­ca­das, ditas, refe­ri­das, regis­tra­das nos dias entre o iní­cio de janei­ro de 1933 e maio de 1945”. Das vári­as fon­tes dis­po­ní­veis, Calas­so sele­ci­o­na, por exem­plo, os diá­ri­os de Ernst Jün­ger (o momen­to em que fica saben­do dos cam­pos de exter­mí­nio) e de André Gide (sua insis­ten­te defe­sa de Hitler e Stá­lin), as car­tas de Wal­ter Ben­ja­min e de Louis-Fer­di­nand Céli­ne (suas aman­tes, sua fuga), as car­tas de Bec­kett escri­tas duran­te sua via­gem de meses atra­vés da Ale­ma­nha em 1936. Calas­so com­ple­ta: “Todas as ima­gens daque­les anos, de qual­quer pro­ve­ni­ên­cia, exa­lam algo de hip­nó­ti­co. Foi o auge do pre­to e bran­co, no cine­ma e na vida. Quan­do apa­re­ce o tech­ni­co­lor, pare­ce uma alu­ci­na­ção. Era como se o tem­po tives­se for­ma­do uma espi­ral cada vez mais estrei­ta, que ter­mi­na­va em um estrei­ta­men­to”.

Um dos prin­ci­pais atra­ti­vos da escri­ta de Calas­so é a capa­ci­da­de que tem de fazer do lei­tor uma sor­te de par­ti­ci­pan­te. Isso ocor­re mui­to mais por con­ta daqui­lo que não é dito do que por con­ta do que é apre­sen­ta­do pelo crí­ti­co. Ou seja, tra­ba­lhan­do a par­tir de lacu­nas e elip­ses, Calas­so faz o lei­tor pre­en­cher os espa­ços vagos a par­tir de seu pró­prio reper­tó­rio (como a anti­ga máxi­ma que diz que a músi­ca se dá nos silên­ci­os entre uma nota e outra).

Com isso em men­te, sou sur­pre­en­di­do por outro livro, logo depois de ter­mi­na­da a lei­tu­ra de  L’innominabile attu­a­le, uma obra não men­ci­o­na­da por Calas­so mas que ser­ve per­fei­ta­men­te em seu argu­men­to. O livro em ques­tão é Nas som­bras do ama­nhã, de Johan Hui­zin­ga, tra­du­zi­do e publi­ca­do em por­tu­guês pela edi­to­ra Cami­nhos no fim de 2017. A data ori­gi­nal de publi­ca­ção – 1935 – posi­ci­o­na Hui­zin­ga no cen­tro do perío­do con­si­de­ra­do por Calas­so, e o sub­tí­tu­lo – “um diag­nós­ti­co da enfer­mi­da­de espi­ri­tu­al de nos­so tem­po” – dá con­ta tam­bém da pro­xi­mi­da­de de tom e inte­res­ses. Ape­sar dos mais de 80 anos sepa­ran­do os dois tex­tos, o con­ta­to for­tui­to entre Calas­so e Hui­zin­ga na minha “pro­gra­ma­ção de lei­tu­ras” fez sal­tar um pon­to em comum: ambos bus­cam o “atu­al”, o “pre­sen­te”, sem­pre em con­fron­to com o pas­sa­do e com suas expec­ta­ti­vas, cali­bran­do aqui­lo que foi outro­ra dese­ja­do com aqui­lo de fato alcan­ça­do.

Hui­zin­ga, que já havia publi­ca­do O outo­no da Ida­de Média em 1919 e ain­da publi­ca­ria Homo Ludens em 1938, orga­ni­za Nas som­bras do ama­nhã a par­tir do enca­de­a­men­to de 21 bre­ves capí­tu­los. Seu obje­ti­vo é ana­li­sar a rea­li­da­de euro­peia até o momen­to, atra­ves­san­do ques­tões como o deca­den­tis­mo, o mar­xis­mo e o tota­li­ta­ris­mo. Como o mate­ri­al é ori­gi­ná­rio de uma con­fe­rên­cia, ain­da man­tém o fres­cor da apre­sen­ta­ção oral e a dinâ­mi­ca de seu regis­tro ensaís­ti­co. Assim como o Freud de 1930 (O mal-estar na civi­li­za­ção), Hui­zin­ga tran­si­ta con­ti­nu­a­men­te entre os polos “civi­li­za­ção” e “cul­tu­ra”, “vida do espí­ri­to” e “vida mate­ri­al”. Hui­zin­ga ante­ci­pa cer­tas idei­as de Wal­ter Ben­ja­min sobre a “repro­du­ti­bi­li­da­de téc­ni­ca” (ensaio que sai­ria em 1936), espe­ci­al­men­te quan­do comen­ta o uso polí­ti­co da publi­ci­da­de e cer­to “enfra­que­ci­men­to da facul­da­de do juí­zo”, visí­vel tam­bém no cam­po da arte: “vemos a pro­du­ção artís­ti­ca em geral encer­ra­da num cír­cu­lo vici­o­so em que o artis­ta fica pre­so à publi­ci­da­de e, por meio dela, tam­bém à moda, ao pas­so que estas duas se pren­dem ao inte­res­se comer­ci­al”, escre­ve Hui­zin­ga.

A lei­tu­ra de Hui­zin­ga, con­tu­do, me colo­cou em um cír­cu­lo vir­tu­o­so de remi­nis­cên­ci­as: pois se Calas­so, ao falar da nos­sa con­tem­po­ra­nei­da­de dos “turis­tas e ter­ro­ris­tas”, retor­na à déca­da de 1930 em bus­ca de Simo­ne Weil, Bec­kett e tan­tos outros, a ausên­cia de Hui­zin­ga pare­ce qua­se deli­be­ra­da, ten­do em vis­ta o apa­re­ci­men­to de Nas som­bras do ama­nhã – que faz o cír­cu­lo girar ao bus­car em Eras­mo de Roter­dã (1466–1536) ou em Rous­se­au (1712–1778) a pers­pec­ti­va neces­sá­ria para pen­sar o con­tem­po­râ­neo em 1935.

Uma vez envol­vi­do nes­se cír­cu­lo vir­tu­o­so de lei­tu­ra – ini­ci­a­do pelo con­ta­to entre Calas­so e Hui­zin­ga e seus esfor­ços aná­lo­gos de cap­tu­ra do pre­sen­te –, come­cei a repas­sar, qua­se de for­ma para­noi­ca, cer­tas coin­ci­dên­ci­as em livros lidos ao lon­go de 2017. Um des­vio em dire­ção à lite­ra­tu­ra me pare­ce não só salu­tar, mas con­di­zen­te com a argu­men­ta­ção de Calas­so e Hui­zin­ga – que atra­ves­sam tota­li­ta­ris­mos e ter­ro­ris­mos com o obje­ti­vo últi­mo de alcan­çar a resis­tên­cia e per­sis­tên­cia da cul­tu­ra e da arte. Nes­sa bus­ca, me vem à men­te uma coin­ci­dên­cia per­ce­bi­da em 2017: o ani­ver­sá­rio de qua­tro roman­ces publi­ca­dos 155 anos antes, em 1862, Os mise­rá­veis, de Vic­tor Hugo, Salammbô, de Gus­ta­ve Flau­bert, Pais e filhos, de Ivan Tur­guê­ni­ev, e Memó­ri­as da casa dos mor­tos, de Dos­toiévs­ki.

Depois de pas­sar por Calas­so e Hui­zin­ga, daí reti­ran­do a lição que o pas­sa­do não ces­sa de pas­sar e de ser recon­fi­gu­ra­do e res­sig­ni­fi­ca­do, a coin­ci­dên­cia do ani­ver­sá­rio des­ses qua­tro roman­ces não me pare­cia gra­tui­ta. Relen­do-os aos pou­cos, per­ce­bi neles uma série de res­so­nân­ci­as, de temas sen­sí­veis ao nos­so “ino­mi­ná­vel atu­al”: de Tur­guê­ni­ev, o cho­que de gera­ções, o per­ma­nen­te atri­to entre pro­gres­so e manu­ten­ção; em Vic­tor Hugo, o con­fron­to entre o peque­no e o gran­de, entre a rique­za e a pobre­za na soci­e­da­de ao lon­go da his­tó­ria; em Dos­toiévs­ki, o hor­ror do indi­ví­duo dian­te das arbi­tra­ri­e­da­des do esta­do de exce­ção; em Flau­bert, uma ver­são deta­lhis­ta do fas­cí­nio pelo Ori­en­te, uma semen­te do “cho­que de civi­li­za­ções” típi­co dos sécu­los XXXXI.

Os qua­tro roman­ces apre­sen­tam aqui­lo que W. G. Sebald, em seus ensai­os sobre lite­ra­tu­ra aus­tría­ca, cha­ma de “pato­gra­fia dos tem­pos”, ou seja, o regis­tro escri­to do pathos que atra­ves­sa as épo­cas. As pri­sões na Sibé­ria no caso de Dos­toiévs­ki, a opres­são fami­li­ar e soci­al no inte­ri­or da Rús­sia em Tur­guê­ni­ev, o assé­dio a Car­ta­go nas Guer­ras Púni­cas em Flau­bert, as bar­ri­ca­das e os esgo­tos de Paris em Vic­tor Hugo: no caso des­ses escri­to­res, ima­gi­nar uma fic­ção que con­fron­ta os trau­mas de uma épo­ca é tam­bém ima­gi­nar uma for­ma de vida pos­sí­vel, para além do “real” e do “his­tó­ri­co”, e é pre­ci­sa­men­te essa vida pos­sí­vel que reper­cu­te ao lon­go do tem­po, 155, 156 anos depois. Pre­ci­sa­men­te o tem­po e sua espi­ral de que fala Calas­so em L’innominabile attu­a­le.

Por via de uma éti­ca supers­ti­ci­o­sa de lei­tor sou leva­do a crer que tenho mais a apren­der sobre o con­tem­po­râ­neo com Flau­bert e Dos­toiévs­ki do que com outros, mais pró­xi­mos, que escre­vem no calor da hora. O que não me impe­de de ler e reler Calas­so, invi­a­bi­li­zan­do o argu­men­to e me for­çan­do a tudo reco­me­çar, ago­ra que colo­co o pon­to final.

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