Kelvin Falcão Klein

O inominável atual

Kelvin Falcão Klein

05.02.18

Todo leitor dedicado tem seus autores de estimação, aqueles que acompanha, que busca ler na íntegra. No meu caso, o italiano Roberto Calasso é, sem dúvida, um deles. Um dos principais atrativos de sua escrita é a capacidade que tem de fazer do leitor uma sorte de participante. Trabalhando a partir de lacunas e elipses, faz o leitor preencher os espaços vagos a partir do próprio repertório (como a antiga máxima que diz que a música se dá nos silêncios entre uma nota e outra).

Patrick Modiano: o esquecido e os esquecimentos

Kelvin Falcão Klein

09.10.14

Vencedor do Prêmio Nobel de Literatura de 2014, o francês Patrick Modiano ressurge agora após ser deixado um pouco de lado nos últimos tempos. A ironia da situação possivelmente o agradaria, já que a maioria de seus livros trata justamente de memória e de esquecimentos.

O leitor é um grande faisão no texto

Kelvin Falcão Klein

23.04.13

A escritura de Herta Müller é estranha, afirma Kelvin Falcão Klein. Não parece fazer referência direta aos fatos, mas à sensação dos fatos. "O cadáver do ditador passava pela cabeça de todos como a própria vida desperdiçada", escreve a narradora de Fera d'alma, "todos queriam sobreviver a ele". E o que fazer para sobreviver? A resposta jamais é clara, e inúmeros subterfúgios são utilizados pelos personagens.

A falsificação do inimigo

Kelvin Falcão Klein

07.03.13

Publicado originalmente em 1959, A morte do inimigo passou cinco décadas arquivado, até seu ressurgimento recente na Europa e em várias traduções ao redor do mundo. Os dois pontos fortes do livro de Hans Keilson são também os pontos que garantem a ambiguidade e a ambivalência da sua história - ingredientes fundamentais para a sobrevivência de uma obra literária.

O mundo de Murakami

Kelvin Falcão Klein

18.12.12

Como ler a primeira parte de 1Q84, o novo livro de Haruki Murakami lançado no Brasil? As primeiras páginas já dão o tom que se manterá até o fim: uma narrativa acelerada, cheia de diálogos e de cenas em constante mudança. O livro tem uma estrutura de folhetim, e o evidente objetivo é o de prender a atenção do leitor com as reviravoltas e mirabolâncias da história.

Quem é Joseph Anton?

Kelvin Falcão Klein

24.10.12

Existe uma espécie de autoridade particular em todo texto autobiográfico, como se estivesse acrescido de uma credibilidade extra somente por ser a visão daquilo que se chama "vida real". Especialmente se é a vida de um escritor mundialmente famoso como Salman Rushdie, que lançou recentemente o livro Joseph Anton: Memórias.

Entre o sonho e o real: cem anos de Strindberg

Kelvin Falcão Klein

12.06.12

August Strindberg nasceu em Estocolmo, em 1849, e morreu na mesma cidade exatamente cem anos atrás. Foi um daqueles escritores inquietos e prolíficos, que escreveram livros sobre os mais variados assuntos, bem como uma extensa obra ficcional. Um daqueles autores que mergulharam profundamente na loucura, realizando, a partir disso, obras perturbadoras, nas quais não se identifica precisamente o que é método e o que é aleatoriedade.

Música do acaso

Kelvin Falcão Klein

24.04.12

A aparente facilidade da escrita de Auster, sua fluidez, mascara e ao mesmo tempo convida ao mergulho nas camadas profundas, nos elementos que se repetem, para que a leitura seja sempre uma descoberta, como acontece com aquela criança que mostra seu trabalho para o pai.

A minha vida foi mais forte que eu

Kelvin Falcão Klein

26.03.12

A ficção de Tabucchi parece uma espécie de desdobramento teimoso da história que contava sobre seu descobrimento de Fernando Pessoa: na década de 1960, em Paris, compra uma edição francesa de "Tabacaria". É neste poema que Álvaro de Campos afirma: "Não sou nada/Nunca serei nada/Não posso querer ser nada/À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo". Tabucchi, que agora está morto, dedicou sua energia criativa de escritor ao ofício de receber em si as vozes e os sonhos dos escritores do passado - ser, enfim, um cruzamento de vozes do além, contendo em si, de forma portátil, uma história muito particular da literatura.