O cineasta Jean-Luc Godard em 1960

Jean-Luc Godard em 1960

O cineasta Jean-Luc Godard em 1960

O mundo em duas horas

No cinema

09.02.18

Três anún­ci­os para um cri­me, de Mar­tin McDo­nagh, é uma impro­vá­vel mis­tu­ra de comé­dia cru­el de erros com pará­bo­la cris­tã de cul­pa e reden­ção.

A esta altu­ra o enre­do, ou ao menos seu pon­to de par­ti­da, já é ampla­men­te conhe­ci­do: numa cida­de­zi­nha do Mis­sou­ri, no sul pro­fun­do dos EUA, uma mulher de meia-ida­de, Mil­dred Hayes (Fran­ces McDor­mand), resol­ve estam­par em três oudo­ors men­sa­gens que cobram da polí­cia a iden­ti­fi­ca­ção e puni­ção dos res­pon­sá­veis pelo estu­pro e assas­si­na­to de sua filha ado­les­cen­te.

Hori­zon­tes pos­sí­veis

Dian­te des­se iní­cio pro­mis­sor abri­am-se inú­me­ros cami­nhos pos­sí­veis, e o rotei­ris­ta e dire­tor McDo­nagh pare­ce ter dese­ja­do seguir todos eles, de modo alter­na­do ou con­co­mi­tan­te.

Pri­mei­ro, deli­neia-se um con­fron­to cen­tral, entre Mil­dred e o che­fe de polí­cia local, Wil­loughby (Woody Har­rel­son). Mas a que­da de bra­ço dura pou­co: logo sabe­mos que o poli­ci­al está com um cân­cer ter­mi­nal e os dois se tor­nam pra­ti­ca­men­te ami­gos irma­na­dos na apu­ra­ção do cri­me.

A par­tir daí, os temas, as revi­ra­vol­tas nar­ra­ti­vas, as con­ver­sões psi­co­ló­gi­cas e morais, tudo se acu­mu­la, nada fica de fora. Quer denún­cia da dis­cri­mi­na­ção raci­al? Tem. Quer sáti­ra da estu­pi­dez do ame­ri­ca­no rural, à manei­ra dos irmãos Coen? Tem. Quer pedo­fi­lia na Igre­ja cató­li­ca? Tem. Quer mari­do que espan­ca mulher? Tem. Quer rela­ção con­fli­tu­o­sa entre pais e filhos ado­les­cen­tes? Tem. Quer mis­são secre­ta mili­tar ame­ri­ca­na no exte­ri­or? Tem. Quer melo­dra­ma de famí­lia des­truí­da por sui­cí­dio do pai? Tem. E tem tam­bém, cla­ro, estu­pro e assas­si­na­to de menor.

Mate­ri­al sufi­ci­en­te para uma série, como se vê. Um Twin Peaks sem a par­te fan­tás­ti­ca, tal­vez. Mas McDo­nagh, de algum modo, com­pac­tou tudo isso e mais um pou­co em menos de duas horas de fil­me. Tal­vez por isso tenha leva­do o prê­mio de melhor rotei­ro em Vene­za e no Glo­bo de Ouro. É uma das sete cate­go­ri­as em que con­cor­re ao Oscar. Mas tama­nha pro­e­za não se faz sem pagar um pre­ço.

Catar­se ins­tan­tâ­nea

Tal­vez o pre­ço pago aqui seja a ligei­re­za (tan­to no sen­ti­do de velo­ci­da­de como de fal­ta de espes­su­ra) com que as coi­sas são apre­sen­ta­das. Em duas fra­ses fica­mos saben­do que um deter­mi­na­do poli­ci­al gos­ta de tor­tu­rar negros. É um cre­ti­no fun­da­men­tal, cuja bru­ta­li­da­de só é com­pa­rá­vel com sua bur­ri­ce. Mas bas­ta uma car­ta dizen­do que ele pre­ci­sa ter menos ódio no cora­ção e… voilà: o sujei­to se tor­na um após­to­lo do amor, capaz de sacri­fí­ci­os extre­mos por soli­da­ri­e­da­de e com­pai­xão pelos seme­lhan­tes.

Todos os per­so­na­gens impor­tan­tes pas­sam por esse pro­ces­so de con­ver­são, algo­zes se tor­nam sal­va­do­res, víti­mas com­pre­en­dem e per­do­am, de tal manei­ra que a iro­nia quan­to a uma fra­se de auto­a­ju­da lida num mar­ca­dor de livro – “o ódio sus­ci­ta o ódio” – pode ser apli­ca­da ao pró­prio fil­me. Há uma espé­cie de entre­ga ime­di­a­ta das emo­ções, uma catar­se a cada pou­cos minu­tos, bem ao gos­to de nos­sa épo­ca de comu­ni­ca­ção fugaz: o den­tis­ta sádi­co, o poli­ci­al racis­ta, o mari­do espan­ca­dor, os cole­gi­ais inti­mi­da­do­res, todos são puni­dos sem demo­ra.

Com tudo isso, Três anún­ci­os entre­tém e diver­te até o (exce­len­te) final, mas sua ver­ten­te poli­ci­al (a apu­ra­ção do cri­me) fica frou­xa e sua dimen­são dra­má­ti­ca, a meu ver, pare­ce infla­da, esco­ra­da em cli­chês gas­tos e em músi­ca melo­sa. Não há tem­po e silên­cio sufi­ci­en­tes para que nos envol­va­mos de fato com o dra­ma dos per­so­na­gens.

 Algu­mas pos­si­bi­li­da­des dra­má­ti­cas inte­res­san­tes, como a vir­tu­al opo­si­ção de toda a comu­ni­da­de à cru­za­da de Mil­dred, são apre­sen­ta­das e logo aban­do­na­das, ou suba­pro­vei­ta­das. É pre­ci­so encai­xar outras coi­sas, não se pode per­der tem­po.

Do pon­to de vis­ta da cons­tru­ção visu­al, há uma efi­ci­ên­cia stan­dard no esta­be­le­ci­men­to dos ambi­en­tes e das rela­ções dos indi­ví­du­os com eles. As ima­gens mais for­tes, tal­vez não por aca­so, são de dois incên­di­os. O fogo, pre­sen­te des­de o fato inau­gu­ral da his­tó­ria (a garo­ta estu­pra­da foi car­bo­ni­za­da), com­pa­re­ce com sua dupla sig­ni­fi­ca­ção: fogo puri­fi­ca­dor, fogo do infer­no.

A opção mul­ti­te­má­ti­ca e mul­ti­fo­cal da nar­ra­ti­va con­tras­ta, por exem­plo, com a de um fil­me como Cor­ra!, de Jor­dan Pee­le, que desen­vol­ve sua pre­mis­sa até o fim de for­ma orgâ­ni­ca, sem se dis­per­sar no cami­nho, con­se­guin­do um impac­to mais dura­dou­ro. Pos­so estar enga­na­do, mas Três anún­ci­os ofe­re­ce uma satis­fa­ção tan­to mais ime­di­a­ta quan­to mais des­car­tá­vel.

Acos­sa­do

 Acos­sa­do (1960) é toda uma outra con­ver­sa. Qua­se seis déca­das depois de fei­to, o pri­mei­ro lon­ga-metra­gem de Jean-Luc Godard, relan­ça­do ago­ra nas telas bra­si­lei­ras em cópia res­tau­ra­da, man­tém intac­to seu encan­to e fres­cor.

É um dos três ou qua­tro fil­mes que qual­quer pes­soa civi­li­za­da pre­ci­sa ver pelo menos uma vez na vida. Quan­do sur­giu, na fase heroi­ca da Nou­vel­le Vague, tra­zia um sopro de novi­da­de e inven­ção que influ­en­ci­ou todos os cine­mas novos pelo mun­do afo­ra. Havia ali, na trô­pe­ga tra­je­tó­ria do peque­no mar­gi­nal Michel Poic­card (Jean-Paul Bel­mon­do), uma trans­gres­são sis­te­má­ti­ca de regras nar­ra­ti­vas e esté­ti­cas que enges­sa­vam então o cine­ma: dog­mas de con­ti­nui­da­de, veros­si­mi­lhan­ça, pro­gres­são dra­má­ti­ca, com­po­si­ção do qua­dro, psi­co­lo­gia dos per­so­na­gens, invi­si­bi­li­da­de da câme­ra (e con­se­quen­te ilu­são da “quar­ta pare­de”) etc.

Ao rom­per com essas inter­di­ções, pra­ti­can­do uma série de pro­ce­di­men­tos vis­tos como “erros” pela indús­tria e seus acó­li­tos, Godard abriu hori­zon­tes sem fim. Esse ímpe­to des­bra­va­dor, essa ale­gria do des­re­gra­men­to, insu­fla toda a pri­mei­ra fase da sua cine­ma­to­gra­fia, pelo menos até Week-end (1967). Depois ele par­ti­ria para outras bus­cas e expe­ri­men­tos, não menos inte­res­san­tes, mas tal­vez menos encan­ta­do­res.

Um dado curi­o­so, bas­tan­te conhe­ci­do, é que o rotei­ro ori­gi­nal de Acos­sa­do foi escri­to por Fran­çois Truf­faut. Na épo­ca, os dois prin­ci­pais expo­en­tes da Nou­vel­le Vague ain­da eram par­cei­ros e ami­gos. Depois, foram se dis­tan­ci­an­do – na vida e no cine­ma. Truf­faut, mais ape­ga­do à nar­ra­ti­va tra­di­ci­o­nal, che­ga­ria a dizer que, nos pri­mei­ros tem­pos, ele e seus com­pa­nhei­ros de movi­men­to infrin­gi­am a decu­pa­gem clás­si­ca por­que não a domi­na­vam, eram incom­pe­ten­tes.

Godard, por sua vez, mer­gu­lhou cada vez mais no ris­co, na “con­tri­bui­ção mili­o­ná­ria de todos os erros”, fazen­do um cine­ma difí­cil, exi­gen­te, even­tu­al­men­te ári­do, sem con­ces­sões. Ambos são gran­des, mas para a his­tó­ria do cine­ma Godard é mais impres­cin­dí­vel.

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