O diretor Guillermo del Toro

O diretor Guillermo del Toro

O diretor Guillermo del Toro

Monstros, moral e cívica

No cinema

02.02.18

O mons­tro da lagoa negraexi­bi­do em 3D, é um dos des­ta­ques dos cine­mas do IMS nes­te mês de feve­rei­ro. O fil­me tam­bém será exi­bi­do em ses­são dupla com A for­ma da água.

 

Os ine­vi­tá­veis “fil­mes do Oscar” come­çam a se acu­mu­lar. Fale­mos sobre dois deles, extre­ma­men­te dife­ren­tes entre si: o fan­ta­si­o­so A for­ma da água, de Guil­ler­mo del Toro, e o “rea­lis­ta” The Post, de Ste­ven Spi­el­berg.

 

 

O fil­me de del Toro, como já se dis­se, é uma home­na­gem ao clás­si­co do ter­ror B O mons­tro da lagoa negra (Jack Arnold, 1954)  e a sua con­ti­nu­a­ção, A vin­gan­ça do mons­tro (Arnold, 1955). Ambi­en­ta­do em Bal­ti­mo­re, EUA, em 1962 – auge da Guer­ra Fria –, mos­tra a cri­a­tu­ra sen­do alvo de pes­qui­sas e dis­pu­tas sinis­tras entre ame­ri­ca­nos e sovié­ti­cos até des­per­tar a com­pai­xão e o amor de uma faxi­nei­ra muda e soli­tá­ria, Eli­sa (Sally Haw­kins). Em suma, sem ris­co de come­ter spoi­ler, é a his­tó­ria de amor entre a bela e a fera, num con­tex­to his­tó­ri­co-soci­al hos­til e opres­si­vo.

Mons­tros ama­dos

Do mons­tren­go do dou­tor Fran­kens­tein a Edward Mãos de Tesou­ra, pas­san­do pelo King Kong e pelo E.T., sem con­tar a cita­da Fera e as aber­ra­ções huma­nas de Fre­aks (Tod Brow­ning, 1932), são incon­tá­veis as cri­a­tu­ras mons­tru­o­sas ou sim­ples­men­te bizar­ras que, rejei­ta­das pela soci­e­da­de esta­be­le­ci­da, des­per­tam a sim­pa­tia das almas mais sen­sí­veis – na tela e na pla­teia. Lidar com o mons­tro é lidar com nos­sos dese­jos mais pro­fun­dos e repri­mi­dos – e a psi­ca­ná­li­se se far­tou de abor­dar esse tema.

Nada de mui­to novo, por­tan­to, nes­te aspec­to. Em A for­ma da água esse bes­tiá­rio mais que secu­lar, com a ico­no­gra­fia que o acom­pa­nha, está como que pres­su­pos­to. Nem é pre­ci­so pas­sar da repul­sa à empa­tia: esta­mos do lado da cri­a­tu­ra logo de cara, e é difí­cil ima­gi­nar que o fil­me tenha que ven­cer algu­ma resis­tên­cia por par­te dos espec­ta­do­res.

Tudo flui então, lite­ral­men­te, como água. A ela­bo­ra­da ceno­gra­fia retrô carac­te­rís­ti­ca dos fil­mes do cine­as­ta tin­ge-se aqui de uma lumi­no­si­da­de de aquá­rio, com as cores bor­ran­do ligei­ra­men­te as for­mas. Some-se a isso uma evo­ca­ção nos­tál­gi­ca dos anos 60, uma home­na­gem a clás­si­cos do cine­ma musi­cal, um vilão sem nuan­ces em sua mal­va­de­za (o che­fe da segu­ran­ça Strickland/Michael Shan­non) e, não menos impor­tan­te, uma tur­ma “do bem” for­ma­da por per­so­na­gens dis­cri­mi­na­dos (a muda, a negra, o homos­se­xu­al) e está com­ple­ta a recei­ta para agra­dar em cheio o públi­co medi­a­na­men­te exi­gen­te e ganhar uma por­ção de Oscars.

Tal­vez seja impli­cân­cia minha, mas não me agra­da essa estra­té­gia esté­ti­co-nar­ra­ti­va de Del Toro, de dar ares adul­tos, pro­fun­dos, “artís­ti­cos”, a uma fabu­la­ção essen­ci­al­men­te sim­pló­ria e infan­til. Nada a ver, por exem­plo, com a fan­ta­sia de um Joe Dan­te ou de um Tim Bur­ton (outros apai­xo­na­dos pela tra­di­ção do cine­ma fan­tás­ti­co, pelos seres à mar­gem, pela tec­no­lo­gia vin­ta­ge), com sua autoi­ro­nia, seu humor sardô­ni­co, seus des­lo­ca­men­tos de sen­ti­do. Del Toro, em con­tras­te, se leva a sério demais.

The Post

Spi­el­berg é todo um outro depar­ta­men­to. Sua fil­mo­gra­fia alter­na duas linhas bem dis­tin­tas: as fan­ta­si­as infan­to-juve­nis e os dra­mas gra­ves, “adul­tos”. Nes­tes últi­mos pare­ce sem­pre ocor­rer, como escre­vi em outro lugar, um emba­te entre o talen­to (imen­so, ine­gá­vel) do dire­tor e suas limi­ta­ções, diga­mos, ide­o­ló­gi­cas. Há um sen­ti­men­ta­lis­mo patrió­ti­co, basi­ca­men­te con­ser­va­dor, que o impe­de de ir fun­do em suas abor­da­gens his­tó­ri­co-polí­ti­cas. Para­do­xal­men­te, o “rea­ci­o­ná­rio” Clint Eastwo­od às vezes con­se­gue resul­ta­dos melho­res nes­se ter­re­no.

 

 

Nos últi­mos tem­pos, Spi­el­berg, como que toma­do pelo espí­ri­to de Frank Capra, pare­ce empe­nha­do em fazer des­sa ver­ten­te da sua obra um cine­ma cívi­co, de res­ga­te e exal­ta­ção de valo­res essen­ci­ais da demo­cra­cia nor­te-ame­ri­ca­na e do Ame­ri­can way of life. Lin­coln The Post são pon­tos des­ta­ca­dos des­se esfor­ço.

Na que­da de bra­ço entre o jor­nal The Washing­ton Post e o gover­no Nixon no iní­cio dos anos 1970, em tor­no das notí­ci­as sobre a Guer­ra do Viet­nã, está em jogo, evi­den­te­men­te, a liber­da­de de impren­sa, um dos pila­res da soci­e­da­de demo­crá­ti­ca, mas tam­bém a ques­tão mais ampla dos direi­tos do cida­dão con­tra o poder do esta­do, tema caro ao libe­ra­lis­mo ame­ri­ca­no.

Qua­se sem­pre em seu cine­ma Spi­el­berg faz o dra­ma girar em tor­no de um herói indi­vi­du­al. Em The Post esse pro­ta­go­nis­mo se divi­de em dois: o edi­tor Ben Bra­dlee (Tom Hanks) e a pro­pri­e­tá­ria do jor­nal, Kay Graham (Meryl Stre­ep). Se ele não hesi­ta des­de o iní­cio em sua deter­mi­na­ção de enfren­tar a tira­nia do gover­no, ela tem dúvi­das, osci­la, pon­de­ra, sofre: é a per­so­na­gem dra­má­ti­ca mais inte­res­san­te. Mas são ambos ínte­gros, cor­re­tos, sem mácu­la, como con­vém a heróis spi­el­ber­gui­a­nos ins­pi­ra­dos em figu­ras reais.

Rela­ções pro­mís­cu­as

O que há de mais inte­res­san­te no fil­me é a abor­da­gem das rela­ções fre­quen­te­men­te pro­mís­cu­as entre a impren­sa e o poder polí­ti­co e econô­mi­co. Kay Graham hesi­ta em publi­car o que seu jor­nal sabe por­que não quer ferir seu ami­go pes­so­al Robert McNa­ma­ra (Bru­ce Gre­enwo­od), ex-secre­tá­rio de defe­sa. O com­ba­ti­vo Ben Bra­dlee foi, ele pró­prio, ami­go pes­so­al de John e Jac­kie Ken­nedy. Além dis­so, os mag­na­tas dos quais depen­de a saú­de finan­cei­ra do jor­nal tam­bém exer­cem uma enor­me pres­são, que não con­diz neces­sa­ri­a­men­te com os inte­res­ses dos lei­to­res e cida­dãos.

É supos­ta­men­te em defe­sa de tais inte­res­ses – de lei­to­res e cida­dãos – que o Post empre­en­de a cru­za­da con­tra as men­ti­ras gover­na­men­tais – e em últi­ma aná­li­se con­tra Nixon, o tira­no de quem no fil­me só ouvi­mos a voz e vemos a silhu­e­ta, numa das boas saca­das da dire­ção. No mais, há a efi­ci­ên­cia habi­tu­al do cine­as­ta na sus­ten­ta­ção do rit­mo e da ten­são e na des­cri­ção dos ambi­en­tes, sobre­tu­do na vívi­da recons­ti­tui­ção de uma reda­ção e de uma grá­fi­ca da épo­ca, com sua vibra­ção carac­te­rís­ti­ca.

Depois de um pró­lo­go no cam­po de bata­lha do Viet­nã, em que o ana­lis­ta mili­tar Dani­el Ells­berg (Matthew Rhys) tem aces­so às infor­ma­ções explo­si­vas que desen­ca­de­a­rão toda a tra­ma, a nar­ra­ti­va se alter­na entre reu­niões a por­tas fecha­das, even­tos soci­ais, o cor­re-cor­re da reda­ção e cenas da vida domés­ti­ca dos pro­ta­go­nis­tas.

É nes­te últi­mo ter­re­no que Spi­el­berg às vezes res­va­la para o sen­ti­men­ta­lis­mo e para a retó­ri­ca edi­fi­can­te. Numa con­ver­sa um tan­to incon­gru­en­te no quar­to da filha, de madru­ga­da, a dona do jor­nal faz todo um dis­cur­so de desa­gra­vo à con­di­ção femi­ni­na numa soci­e­da­de em que ain­da se via como natu­ral a sub­mis­são da mulher ao man­do do homem. É como se o dire­tor não con­fi­as­se que as ações da per­so­na­gem bas­ta­ri­am para sus­ten­tar essa ideia.

Ana­lo­ga­men­te, a jor­na­lis­ta que aten­de o tele­fo­ne e trans­mi­te aos cole­gas de reda­ção o resul­ta­do de uma deci­são cru­ci­al da Supre­ma Cor­te vê-se na obri­ga­ção de repe­tir o tex­to do voto de um dos minis­tros, citan­do os “foun­ding fathers”, fazen­do a apo­lo­gia da liber­da­de de impren­sa, etc. Assim, uma cena que se desen­vol­via de modo mag­ní­fi­co é meio diluí­da pela lição de moral e cívi­ca. Spi­el­berg sen­do Spi­el­berg, ou melhor, Spi­el­berg sabo­tan­do Spi­el­berg.

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