O cinema, o futebol e as tetas

No cinema

15.04.16

Os irmãos Ethan e Joel Coen sem­pre fize­ram fil­mes auto­cons­ci­en­tes, de “segun­do grau”, ou seja, ins­pi­ra­dos mais no acer­vo cine­ma­to­grá­fi­co mun­di­al (sobre­tu­do ame­ri­ca­no) do que pro­pri­a­men­te no “real”, seja lá o que isto sig­ni­fi­que.

Nesse sen­ti­do, Ave, César é tal­vez sua obra mais trans­pa­ren­te e pro­gra­má­ti­ca, por­que lhes per­mi­te retra­tar iro­ni­ca­men­te as entra­nhas da indús­tria cine­ma­to­grá­fi­ca e ao mes­mo tem­po brin­car com vári­os gêne­ros con­sa­gra­dos por ela (épi­co, musi­cal, melo­dra­ma, faro­es­te, poli­ci­al).

O con­tex­to é o do stu­dio sys­tem na segun­da meta­de dos anos 1940, isto é, nos pri­mór­di­os da Guerra Fria. O pro­ta­go­nis­ta, Eddie Mannix (Josh Brolin), exe­cu­ti­vo do estú­dio Capitol, está às vol­tas com vári­os pro­ble­mas ao mes­mo tem­po: o sumi­ço do astro prin­ci­pal do épi­co bíbli­co Ave, César (George Clooney), a gra­vi­dez inde­se­ja­da de uma atriz sol­tei­ra (Scarlett Johansson), a esca­la­ção de um cau­bói canas­trão (Alden Ehrenreich) para um papel sério num melo­dra­ma etc. Mannix, aliás, é ins­pi­ra­do no per­so­na­gem homô­ni­mo, que foi dire­tor-geral da MGM em seu perío­do áureo.

Religião e comu­nis­mo

Um pon­to alto é a reu­nião de Mannix com líde­res reli­gi­o­sos (bis­po cató­li­co, rabi­no, pas­tor pro­tes­tan­te, patri­ar­ca orto­do­xo) para dis­cu­tir a natu­re­za de Jesus Cristo no épi­co em fil­ma­gem. Seria diver­ti­do pas­sar a sequên­cia como trai­ler antes das ses­sões do suces­so de bilhe­te­ria naci­o­nal Os dez man­da­men­tos.

O rotei­ro dos Coen entre­la­ça habil­men­te os vári­os epi­só­di­os, incluin­do sequên­ci­as iso­la­das dos diver­sos fil­mes que estão sen­do roda­dos, ten­do como eixo o desa­pa­re­ci­men­to do gran­de astro, seques­tra­do por um gru­po de escri­to­res e inte­lec­tu­ais comu­nis­tas.

Se o recen­te Trumbo retra­ta como dra­ma som­brio o perío­do macarthis­ta, mos­tran­do sobre­tu­do seu efei­to sobre as víti­mas per­se­gui­das, aqui o tom é de far­sa, com os “ver­me­lhos” vis­tos como cons­pi­ra­do­res falas­trões. A sequên­cia em que um ator comu­nis­ta é leva­do de bote pelos cama­ra­das até o local onde será reco­lhi­do por um sub­ma­ri­no sovié­ti­co é um pri­mor de recons­ti­tui­ção satí­ri­ca da esté­ti­ca do rea­lis­mo soci­a­lis­ta, com o herói comu­nis­ta fil­ma­do em con­tre-plon­gée sobre o fun­do de céu e mar cor de chum­bo.

Referências irô­ni­cas

As refe­rên­ci­as irô­ni­cas a per­so­na­gens da his­tó­ria hollywo­o­di­a­na são incon­tá­veis: de Carmen Miranda, matriz evi­den­te de Carlotta Valdez (Veronica Osorio), às colu­nis­tas de fofo­cas Louella Parsons e Hedda Hopper, retra­ta­das no fil­me como gême­as rivais (Tilda Swinton). Mas é na recons­ti­tui­ção de épo­ca e na paró­dia dos gêne­ros que os Coen nadam de bra­ça­da. Num cro­ma­tis­mo fake que mime­ti­za o tec­ni­co­lor, eles pas­sei­am pra­ze­ro­sa­men­te pelos cli­chês do musi­cal, do wes­tern, do melo­dra­ma “ele­gan­te” e do épi­co bíbli­co com um mis­to de afe­to e dis­tan­ci­a­men­to, como se fizes­sem uma cola­gem em car­to­li­na das ima­gens ori­gi­nais.

Se o pro­ta­go­nis­ta hesi­ta em cer­to momen­to entre seguir na “fábri­ca de sonhos” ou acei­tar uma pro­pos­ta para tra­ba­lhar numa “fábri­ca de ver­da­de” – de aviões e arma­men­tos –, o fil­me apos­ta ple­na­men­te na pri­mei­ra, a des­pei­to de sua visão crí­ti­ca. É como se os dire­to­res-rotei­ris­tas-pro­du­to­res incor­po­ras­sem à sua manei­ra os ver­sos de Paulo Leminski: “Podem ficar com a realidade/ esse bai­xo astral/ em que tudo entra pelo cano./ Eu que­ro viver de verdade/ eu fico com o cine­ma ame­ri­ca­no”.

O fute­bol e as tetas

Nas fres­tas inte­li­gen­tes do cir­cui­to exi­bi­dor é pos­sí­vel ver dois fil­mes radi­cal­men­te pes­so­ais, de bai­xo orça­men­to e alto valor expres­si­vo: o docu­men­tá­rio O fute­bol, em car­taz no Instituto Moreira Salles do Rio, e a fic­ção O sig­no das tetas, que estre­ou ontem (14 de abril) em cin­co capi­tais e entra na pró­xi­ma sema­na em outras três.

Não pode­ria haver dois fil­mes mais dife­ren­tes. Em O fute­bol, o pró­prio dire­tor, Sergio Oksman, regis­tra frag­men­ta­ri­a­men­te sua con­vi­vên­cia com o pai, Simão Oksman, em São Paulo, duran­te o mês da Copa do Mundo de 2014. Ele mora­va na Espanha e não via o pai havia mais de vin­te anos. Combinam então de acom­pa­nhar o tor­neio jun­tos, mas aca­bam não con­se­guin­do ver nenhum dos jogos den­tro do está­dio.

Esse pro­je­to pes­so­al do dire­tor, trans­for­ma­do em dis­po­si­ti­vo fíl­mi­co, reve­la-se dra­ma­ti­ca­men­te pode­ro­so. Tudo é vis­to indi­re­ta­men­te, por peque­nas pis­tas envi­e­sa­das: as par­ti­das, o tra­ba­lho de Simão em sua ofi­ci­na de apa­re­lhos ele­trô­ni­cos, o pas­sa­do fami­li­ar reve­la­do nas con­ver­sas lacô­ni­cas entre pai e filho, as mudan­ças ope­ra­das na cida­de e em seus mora­do­res nas últi­mas déca­das.

Sergio Oksman apos­ta tudo nes­sa cons­tru­ção lacu­nar, em que as coi­sas impor­tan­tes pare­cem estar sem­pre fora do qua­dro, em que as pala­vras deci­si­vas são as não ditas. O resul­ta­do é pun­gen­te, espe­ci­al­men­te quan­do o desas­tre naci­o­nal no cam­po (o fatí­di­co 7 a 1 para a Alemanha) coin­ci­de com um momen­to de luto no pla­no pes­so­al.

Se o Mundial de 2014 foi um cata­li­sa­dor de ten­sões soci­ais, polí­ti­cas e cul­tu­rais do país, isso apa­re­ce em O fute­bol ape­nas de manei­ra amor­te­ci­da e fil­tra­da por um dra­ma pes­so­al. Em vez do épi­co, a ele­gia. E mais não se pode dizer, para não estra­gar o impac­to des­se belo fil­me.

Viagem ao prin­cí­pio

Em O sig­no das tetas o cine­as­ta mara­nhen­se Frederico Machado, autor do intri­gan­te O exer­cí­cio do caos (2013), dá pros­se­gui­men­to a sua bus­ca de uma expres­são auto­ral com um fil­me ain­da mais ousa­do e desa­fi­a­dor. Aqui, o pro­ta­go­nis­ta não nome­a­do (Lauande Aires, autor tam­bém dos pou­cos diá­lo­gos) é um homem assom­bra­do por uma ima­gem pri­mor­di­al: a dos sei­os da mãe. Sua tra­je­tó­ria erran­te por ser­tões, estra­das, cida­des, rios, fes­tas popu­la­res, bor­déis e ritu­ais é uma bus­ca impos­sí­vel das ori­gens, de recon­ci­li­a­ção com essa ima­gem obse­dan­te.

A par­tir de ver­sos de seu pró­prio pai, Nauro Machado, que apa­re­ce no fil­me como pai do pro­ta­go­nis­ta e pro­fe­ta do ser­tão, o dire­tor cons­trói uma nar­ra­ti­va enig­má­ti­ca, ale­gó­ri­ca, mar­ca­da por uma ico­no­gra­fia reli­gi­o­sa sin­cré­ti­ca, em que se com­bi­nam a extre­ma mate­ri­a­li­da­de dos cor­pos e da natu­re­za (a car­ne, o san­gue, o lei­te) e uma fugi­dia espi­ri­tu­a­li­da­de. Do cur­to-cir­cui­to entre o cor­po­ral e o sagra­do o fil­me extrai uma estra­nha poe­sia. Vale con­fe­rir, com olhos livres e men­te aber­ta.

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