O cinema visceral de John Cassavetes

No cinema

02.04.15

John Cassavetes (1929–89) é cita­do fre­quen­te­men­te como “pai do cine­ma inde­pen­den­te ame­ri­ca­no”, mas essa defi­ni­ção é enga­no­sa. Não ape­nas por­que hou­ve outros inde­pen­den­tes antes dele, mas sobre­tu­do por­que o que se cha­ma hoje de “cine­ma inde­pen­den­te” virou um lucra­ti­vo nicho de mer­ca­do que tem pou­co ou nada a ver com a obra vis­ce­ral­men­te pes­so­al do dire­tor.

Cena de Amantes (1984)

Quatro fil­mes de Cassavetes que che­gam ago­ra ao DVD, todos pela Versátil, aju­dam a conhe­cer melhor esse cine­ma fun­da­do na liber­da­de e no ris­co. Na cai­xa “A arte de Cassavetes” estão A can­ção da espe­ran­ça (1961), Assim falou o amor (1971) e Amantes (1984). Além deles, está sain­do Gloria (1980). Os qua­tro vêm se jun­tar à meia dúzia de títu­los do cine­as­ta lan­ça­dos ante­ri­or­men­te pela Cinemax, como os fun­da­men­tais SombrasFaces Uma mulher sob influên­cia.

Liberdade des­pu­do­ra­da

São todos “épi­cos da alma huma­na”, como os defi­niu Martin Scorsese, cen­tra­dos em per­so­na­gens sin­gu­la­res e em seus rela­ci­o­na­men­tos impre­vi­sí­veis. Quando se toma como parâ­me­tro o cine­ma de fic­ção que hoje pre­do­mi­na (incluin­do o “inde­pen­den­te”), todo enges­sa­do por con­ven­ções nar­ra­ti­vas, cli­chês soci­ais e psi­co­ló­gi­cos, “cur­vas dra­má­ti­cas” pre­es­ta­be­le­ci­das e rit­mo stan­dard, os fil­mes de Cassavetes cho­cam por sua des­pu­do­ra­da liber­da­de: liber­da­de temá­ti­ca, de cons­tru­ção, de mise-en-scè­ne, de atu­a­ção.

Tendo isso em men­te, tal­vez seja indi­ca­do come­çar a explo­ra­ção do uni­ver­so cas­sa­ve­ti­a­no por A can­ção da espe­ran­ça (títu­lo bra­si­lei­ro infe­liz para Too late blu­es), o mais anti­go e apa­ren­te­men­te menos radi­cal dos fil­mes da atu­al safra de lan­ça­men­tos. Rodado em pre­to e bran­co, ele acom­pa­nha o dra­ma de um músi­co de jazz de segun­da linha (Bobby Darin) e uma aspi­ran­te a can­to­ra (Stella Stevens) que tem pou­co mais que um belo cor­po a ofe­re­cer.

A tra­je­tó­ria errá­ti­ca dos per­so­na­gens segue um anda­men­to aná­lo­go ao do jazz moder­no, mar­ca­do pelo impro­vi­so, pela poli­fo­nia, pelas vari­a­ções em tor­no de um tema. Há aí valo­res caros ao dire­tor: a ênfa­se no indi­ví­duo, a ambi­va­lên­cia de seus sen­ti­men­tos, o cará­ter move­di­ço das rela­ções huma­nas.

Com o tem­po e o apro­fun­da­men­to da auto­con­fi­an­ça, Cassavetes, em vez de se aco­mo­dar, foi radi­ca­li­zan­do seus mei­os, pri­vi­le­gi­an­do os clo­ses extre­mos em per­so­na­gens sem­pre em movi­men­to (o que oca­si­o­na fre­quen­tes saí­das de qua­dro ou de foco); as toma­das lon­gas, sem cor­tes, em que os ato­res pare­cem encon­trar seus ges­tos e falas em tem­po real; uma câme­ra sol­ta e inqui­e­ta, empe­nha­da em apre­en­der o que se pas­sa, mas sem­pre dei­xan­do esca­par algu­ma coi­sa. Criam-se com isso qua­se que docu­men­tá­ri­os ínti­mos, em que o espec­ta­dor tem a sen­sa­ção de estar dian­te de uma rea­li­da­de que se cons­trói no ato, sem rotei­ro pré­vio.

O ápi­ce des­se cine­ma que se desen­vol­ve sobre a cor­da bam­ba encon­tra-se em Amantes, obra-pri­ma que ganhou o Urso de Ouro em Berlim. Nele, o pró­prio Cassavetes encar­na um escri­tor mulhe­ren­go e alcoó­la­tra que hos­pe­da a irmã recém divor­ci­a­da e igual­men­te desa­jus­ta­da (Gena Rowlands) – e do entre­cho­que de carên­ci­as e erros des­ses dois out­si­ders emer­gem novas e ines­pe­ra­das for­mas de afe­to.

Metafísica do amor

Claro que o tom de impro­vi­so é uma impres­são cons­truí­da: havia mui­to esfor­ço de escri­ta, mui­to ensaio e expe­ri­men­ta­ção antes de come­ça­rem as fil­ma­gens. Roteirista, dire­tor e ator (indi­ca­do ao Oscar em cada uma des­sas cate­go­ri­as, por três fil­mes dife­ren­tes), Cassavetes domi­na­va de pon­ta a pon­ta o seu arte­sa­na­to. Mas o que lhe inte­res­sa­va era fazer do cine­ma aqui­lo que ele essen­ci­al­men­te é: uma pelí­cu­la sen­sí­vel em que a vida entra por todos os lados.

Eu pre­ci­so que os per­so­na­gens real­men­te ana­li­sem o amor, dis­cu­tam o amor, matem-no, des­tru­am-no, firam-se uns aos outros, façam tudo aqui­lo, naque­la guer­ra, naque­le dis­cur­so polê­mi­co e naque­le retra­to polê­mi­co do que é a vida”, decla­rou Cassavetes numa entre­vis­ta.

Nesse cine­ma em que a úni­ca coi­sa que impor­ta é o amor sob todas as suas for­mas (Love stre­ams – cor­ren­te­zas de amor – é o títu­lo ori­gi­nal de Amantes), a atriz Gena Rowlands, sua mulher por qua­se qua­tro déca­das, ocu­pa um lugar cen­tral. Filmes como Assim falou o amorNoite de estreiaUma mulher sob influên­ciaGloria e o pró­prio Amantes só exis­tem nela e por ela. Mais do que uma atriz excep­ci­o­nal, ela foi pra­ti­ca­men­te coau­to­ra des­sas explo­ra­ções da alma huma­na, ofe­re­cen­do cora­jo­sa­men­te sua inte­li­gên­cia, sua sen­si­bi­li­da­de e seu cor­po como agen­tes e obje­tos de expe­ri­ên­cia. Se o amor não é isso, o que será então?

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