O processo e o belo

Artes

21.05.14

Este tex­to de Heloisa Espada, coor­de­na­do­ra de artes visu­ais do IMS, é a apre­sen­ta­ção do livro Escritos e entre­vis­tas, 1967–2013, que será lan­ça­do em 29 de maio no IMS-RJ na aber­tu­ra, para con­vi­da­dos, da expo­si­ção Richard Serra: dese­nhos na casa da Gávea, com a pre­sen­ça do artis­ta.

A cer­ta altu­ra de uma das entre­vis­tas mais fas­ci­nan­tes des­ta cole­tâ­nea, o crí­ti­co inglês David Sylvester, após ouvir de Richard Serra deta­lhes sobre os desa­fi­os téc­ni­cos que enfren­tou para ela­bo­rar as Torqued Ellipses, decla­ra-se impres­si­o­na­do com a bele­za das peças. O escul­tor então res­pon­de que não está inte­res­sa­do nes­se tipo de qua­li­fi­ca­ção, e sim no grau de incli­na­ção das obras. Seu inter­lo­cu­tor per­sis­te no assun­to, dizen­do que todo artis­ta é como um gato con­cen­tra­do na caça, alheio a tudo que o des­vie de seu obje­ti­vo e, por­tan­to, des­pre­o­cu­pa­do com a apa­rên­cia de seus movi­men­tos. Segundo o crí­ti­co, são os outros que veem bele­za no que ele faz.

Do mani­fes­to “Lista de ver­bos, 1967–1968” (1971) ao tex­to “Desenhos para o Courtauld” (2013), Richard Serra se apre­sen­ta como alguém inte­res­sa­do mais no fazer do que nos resul­ta­dos. Ao lon­go de cin­co déca­das de pro­du­ção, seus depoi­men­tos enfa­ti­zam a bus­ca por resul­ta­dos impre­vi­sí­veis, capa­zes de apon­tar novos cami­nhos para a escul­tu­ra e para o dese­nho. Em outra pas­sa­gem notá­vel, ao com­pa­rar os tra­ba­lhos tar­di­os de Matisse e Picasso, Serra expli­ca sua pre­fe­rên­cia pelo pri­mei­ro. Matisse, quan­do aca­ma­do, teria rein­ven­ta­do a manei­ra de deli­mi­tar a for­ma com seus recor­tes de papel, enquan­to Picasso, sedu­zi­do pelo pró­prio talen­to, teria aban­do­na­do a expe­ri­men­ta­ção.

Richard Serra faz par­te de uma gera­ção que se for­mou no ambi­en­te esti­mu­lan­te das uni­ver­si­da­des nor­te-ame­ri­ca­nas do pós-guer­ra, e para a qual a escri­ta foi uma prá­ti­ca cons­tan­te, uma manei­ra de fomen­tar o deba­te crí­ti­co em tor­no das obras. Os tex­tos aqui reu­ni­dos foram sele­ci­o­na­dos a par­tir das cole­tâ­ne­as Richard Serra: Writings, Interviews&³1; e Richard Serra: escri­tos y entre­vis­tas (1972–2008)&³2; e de depoi­men­tos recen­tes publi­ca­dos em catá­lo­gos e peque­nas edi­ções. Eles abor­dam momen­tos-cha­ve da tra­je­tó­ria de um dos prin­ci­pais pro­ta­go­nis­tas da arte con­tem­po­râ­nea des­de o fim dos anos 1960. Uma das razões de Richard Serra ser influ­en­te há tan­to tem­po é sua capa­ci­da­de de peri­o­di­ca­men­te sur­pre­en­der o públi­co e a crí­ti­ca com novas pes­qui­sas deri­va­das de seu pró­prio fazer ? “o tra­ba­lho vem do tra­ba­lho”, ele cos­tu­ma dizer ? e de uma rela­ção dia­lé­ti­ca com a his­tó­ria da arte e a con­tem­po­ra­nei­da­de. É sobre­tu­do nas entre­vis­tas que ele expõe os des­do­bra­men­tos inter­nos de uma obra à outra, o pro­ces­so que o levou das Splashs e Castings às peças apoi­a­das (Props) e, des­tas, à cri­a­ção das escul­tu­ras site-spe­ci­fic. Em mais de um depoi­men­to, o artis­ta abor­da a rela­ção inde­pen­den­te, porém impli­ca­da, entre seus dese­nhos e suas escul­tu­ras ? o dese­nho é um meio pri­vi­le­gi­a­do para a rein­ven­ção de pro­ce­di­men­tos e, ao mes­mo tem­po, uma par­te inte­gran­te das escul­tu­ras, com os limi­tes defi­ni­dos pelo cor­te fun­ci­o­nan­do como linhas. As con­ver­sas com David Sylvester e Kynaston McShine abor­dam o pro­ces­so de ela­bo­ra­ção das escul­tu­ras de gran­de por­te rea­li­za­das a par­tir da déca­da de 1990. Elas não são mais site-spe­ci­fic; são espa­ços fecha­dos que têm o poder de deso­ri­en­tar o sen­ti­do de orto­go­na­li­da­de, lan­çan­do o espec­ta­dor numa espé­cie de ver­ti­gem, ou, em cer­tos casos, numa sen­sa­ção de impre­vi­si­bi­li­da­de seme­lhan­te à expe­ri­ên­cia a que o pró­prio artis­ta se pro­põe em sua prá­ti­ca. Os depoi­men­tos reve­lam tam­bém fra­cas­sos e momen­tos de cri­se, his­tó­ri­as de pro­je­tos rejei­ta­dos por arqui­te­tos e ins­ti­tui­ções e tam­bém pelos espec­ta­do­res, além de bri­gas públi­cas em defe­sa de obras e idei­as.

As nar­ra­ti­vas aca­bam por enfo­car não ape­nas a tra­je­tó­ria de Richard Serra, mas con­cei­tos e ques­tões fun­da­men­tais da arte recen­te. Textos como “Shift” (1973) e “Saint John’s Rotary Arc” (1980) tra­zem aná­li­ses acu­ra­das das con­di­ções para a ins­ta­la­ção de escul­tu­ras numa pai­sa­gem natu­ral e num espa­ço urba­no de gran­de cir­cu­la­ção, res­pec­ti­va­men­te, de modo que se com­pre­en­da, no caso de Serra, de que manei­ra a for­ma res­pon­de em cer­ta medi­da ao con­tex­to, para depois reve­lá-lo, incluí-lo e modi­fi­cá-lo. Shift e Saint John’s Rotary Arc são obras que repre­sen­tam o aves­so da ideia de cubo bran­co e foram rea­li­za­das num momen­to em que a bus­ca por uma inte­ra­ção mais con­cre­ta entre a arte e a vida era uma das prin­ci­pais pau­tas artís­ti­cas em deba­te.

Vista aérea do St. John’s Rotary Arc, em Nova York. Foto: Tom Bills

Em Yale e na cena cul­tu­ral nova-ior­qui­na dos anos 1970, Serra teve con­ta­to com alguns dos per­so­na­gens mais impor­tan­tes da segun­da meta­de do sécu­lo XX. Seus encon­tros com Josef Albers, Robert Rauschenberg, Philip Guston, Jasper Johns, Donald Judd, Robert Smithson, Philip Glass, John Cage e Merce Cunningham resul­tam em rela­tos sabo­ro­sos e reve­lam aspec­tos cen­trais de sua for­ma­ção. Mas as refe­rên­ci­as vão mui­to além da arte con­tem­po­râ­nea ou dos movi­men­tos com os quais sua obra tem uma cone­xão mais dire­ta. O artis­ta sur­pre­en­de ao citar seu inte­res­se, nos anos 1960 e 1970, pela ação da gra­vi­da­de nas obras de Claes Oldenburg, ou ao rela­tar seu apren­di­za­do sobre a inte­gra­ção da pin­tu­ra à arqui­te­tu­ra com os mura­lis­tas mexi­ca­nos. O mini­ma­lis­mo é apre­sen­ta­do como uma fon­te, mas tam­bém como um movi­men­to ao qual foi pre­ci­so se con­tra­por. Brancusi, Velázquez, Borromini, Cézanne, Pollock, Flavin, Picasso, Matisse, Le Corbusier e os jar­dins zen de Kyoto foram absor­vi­dos de uma manei­ra mui­to par­ti­cu­lar, fil­tra­dos pelos inte­res­ses que moti­vam o pró­prio tra­ba­lho de Serra.

Parece haver uma cor­res­pon­dên­cia entre a mate­ri­a­li­da­de explí­ci­ta das obras de Richard Serra e o esti­lo fran­co de suas pala­vras. Nas duas ins­tân­ci­as, o artis­ta se afas­ta de qual­quer meta­fí­si­ca. Suas refle­xões sobre o espa­ço como con­teú­do da obra, sobre a ação da gra­vi­da­de, sobre os limi­tes das for­mas e dos mate­ri­ais estão asso­ci­a­das a expe­ri­ên­ci­as físi­cas e ao enfren­ta­men­to de pro­ble­mas con­cre­tos. Seus escri­tos reve­lam-se uma par­te cons­ti­tu­ti­va de seu pro­ces­so de tra­ba­lho, veí­cu­los de idei­as que se mate­ri­a­li­zam em ações.

&³1; SERRA, Richard. Richard Serra: Writings, Interviews. Chicago/Londres: The University of Chicago Press, 1994.
&³2; Idem. Richard Serra: escri­tos y entre­vis­tas (1972–2008). Navarra: Universidad Pública de Navarra, 2010.

Heloisa Espada é coor­de­na­do­ra de artes visu­ais do IMS.

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