O último verso de Renatinho

Música

13.05.13

Renatinho Partideiro | Divulgação

Partideiros, o fil­me que entra em car­taz no IMS-RJ na pró­xi­ma quin­ta-fei­ra, foi rea­li­za­do em 2006. Renatinho Partideiro, um dos qua­tro pro­ta­go­nis­tas, espe­ra­va que o docu­men­tá­rio lhe des­se algu­ma pro­je­ção, mos­tras­se para mais pes­so­as o seu enor­me talen­to para o impro­vi­so nas rodas de sam­ba.

Pelas conhe­ci­das difi­cul­da­des que pro­du­ções bra­si­lei­ras de bai­xo cus­to têm de ser con­cluí­das e che­gar a uma algu­ma sala de exi­bi­ção, só ago­ra estreia o pro­je­to ide­a­li­za­do e via­bi­li­za­do pelo músi­co Tuninho Galante, com dire­ção de Luiz Guimarães de Castro. Se Partideiros for bem-suce­di­do, Renatinho não des­fru­ta­rá dos resul­ta­dos. Morreu no últi­mo sába­do, aos 50 anos, de insu­fi­ci­ên­cia renal.

Renato Cardoso Neves era mes­tre na arte que o com­po­si­tor e escri­tor Nei Lopes diz ser a ver­ten­te mais nobre do sam­ba. O par­ti­do-alto pos­sui linha dire­ta com as mais anti­gas tra­di­ções da cul­tu­ra afro-bra­si­lei­ra, ten­do como base can­tos repas­sa­dos oral­men­te e a par­tir dos quais se impro­vi­sam novos ver­sos.

Alguns par­ti­dei­ros se tor­na­ram gran­des com­po­si­to­res, cris­ta­li­zan­do seu talen­to em can­ções com iní­cio, meio e fim. São os casos de Candeia, Padeirinho, Zeca Pagodinho e o pró­prio Nei Lopes, para citar­mos ape­nas qua­tro. Outros fica­ram céle­bres pelos motes que cri­a­ram, até hoje repe­ti­dos nas rodas de impro­vi­so. Aniceto do Império e Xangô da Mangueira são os dois exem­plos mais notó­ri­os. Marquinhos China — tam­bém pro­ta­go­nis­ta de Partideiros — e Tantinho da Mangueira estão aí para man­ter a linha­gem em alta.

Este segun­do time era o de Renatinho. Mas, se Marquinhos e Tantinho con­se­gui­ram empre­gos que lhes per­mi­ti­ram ter o sam­ba como ofí­cio alter­na­ti­vo, Renatinho ten­tou viver de can­tar e impro­vi­sar. Liderou o Partideiros do Cacique — gru­po for­ma­do na qua­dra do blo­co Cacique de Ramos, onde Renatinho por mui­to tem­po coman­dou os pago­des de domin­go -, par­ti­ci­pou de shows com cole­gas de ofí­cio e aju­dou a pro­mo­ver fei­jo­a­das na Mangueira (sua esco­la de cora­ção, ain­da que tives­se for­te liga­ção com a Caprichosos de Pilares, que sua famí­lia aju­dou a fun­dar).

Nunca con­se­guiu esta­bi­li­da­de finan­cei­ra e ficou com fama de não ter esta­bi­li­da­de emo­ci­o­nal. Isto por­que era par­ti­dei­ro do tipo que não leva desa­fo­ro para casa. E ain­da tinha sem­pre uns no bol­so. Quando alguém o desa­fi­a­va numa roda, ele, mes­mo não per­den­do a cate­go­ria dos gran­des impro­vi­sa­do­res, arru­ma­va um jei­to de botar a mãe e a irmã do opo­nen­te nos seus ver­sos. Em Partideiros, Marquinhos China diz que, se o cli­ma pesa no sam­ba, cha­ma o Renatinho que ele resol­ve.

O docu­men­tá­rio ter­mi­na, aliás, com um lon­go enfren­ta­men­to de Renatinho com seu ami­go Serginho Procópio (filho de Osmar do Cavaco, acom­pa­nhan­te de Candeia em rodas como as do fil­me Partido alto, de Leon Hirzsman, que será exi­bi­do em dobra­di­nha com Partideiros nos dias 16 e 18). O que come­ça em peque­nas esto­ca­das de Mangueira x Portela vira um qui­proquó ver­bal envol­ven­do fami­li­a­res pró­xi­mos. Eles dei­xam até de can­tar o refrão para, sem per­da de tem­po, man­ter o bate-boca ace­so. Serginho ain­da ten­ta encer­rar três vezes, mas Renatinho não desis­te. Essa, diga­mos, per­se­ve­ran­ça fez dele uma figu­ra temi­da no meio — às vezes odi­a­do.

Assistir a Partideiros é tes­te­mu­nhar um pou­co da sua absur­da capa­ci­da­de de cri­ar ver­sos sem pen­sar mui­to. Convidado por Nei Lopes, ele tam­bém deu uma amos­tra dis­so numa série recen­te do Sesc. Transformou seu ofí­cio em sobre­no­me artís­ti­co, mas não em fon­te segu­ra de ren­da. Há pou­cos meses, um gran­de ami­go dele me dis­se:

— Renatinho está mal.

Terminou cedo, sem ter sua ver­ve devi­da­men­te admi­ra­da. Seguiu um cami­nho artís­ti­co com­pli­ca­do, pois se, hoje, os direi­tos auto­rais já ren­dem mui­to pou­co, ele nem os tinha, pra­ti­ca­men­te. Não sen­ta­va para com­por, gos­ta­va de cri­ar na hora, duran­te os emba­tes de pago­de. Seu nome está aqui e ali em títu­los de sam­bas gra­va­dos, mas nada que vá sig­ni­fi­car heran­ça para seu filho úni­co. Possivelmente, vai virar uma des­sas len­das que os cha­tos e os nem tão cha­tos assim sali­vam para falar: “Igual a Renatinho Partideiro eu nun­ca vi”.

(No docu­men­tá­rio há um momen­to bem indi­ca­ti­vo do seu humor, quan­do ele fala sobre seus paren­tes: “Há uns que ain­da estão vivos, outros nem tan­to”.)

Para ten­tar que não se eter­ni­ze a fama do por­ra-lou­ca bri­gão, é impor­tan­te res­sal­tar que Renatinho teve um papel pio­nei­ro e fun­da­men­tal na his­tó­ria do sam­ba cari­o­ca. Em 1995, quan­do a Lapa esta­va aban­do­na­da, ele e seus ami­gos Marquinhos de Oswaldo Cruz e Ivan Milanez come­ça­ram a fazer rodas na rua, per­to dos Arcos. Começaram a atrair gen­te. Depois, muda­ram-se para um lugar cober­to. Mais gen­te veio. Tantas que, a par­tir de 1998, com o bar Semente, a revi­ta­li­za­ção da Lapa tomou impul­so, sem­pre com o sam­ba como eixo. Sem a cora­gem de Renatinho, Marquinhos e Milanez — que pou­co ou nada ganha­ram com o renas­ci­men­to do bair­ro — esse pro­ces­so teria, no míni­mo, demo­ra­do mais.

No últi­mo domin­go, Dia das Mães, na pre­sen­ça de sua mãe, seu cor­po foi enter­ra­do no cemi­té­rio de Inhaúma, no subúr­bio do Rio. A des­pe­di­da foi com sam­ba e ver­sos de impro­vi­so.

* Luiz Fernando Vianna é coor­de­na­dor de inter­net do IMS.

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