O vendedor de passados e teoria da Conspiração

No cinema

22.05.15

Já vou dizen­do que não li o roman­ce O ven­de­dor de pas­sa­dos, do ango­la­no José Eduardo Agualusa, em que se ins­pi­rou livre­men­te o fil­me homô­ni­mo de Lula Buarque de Holanda. Parece que o enre­do foi bas­tan­te modi­fi­ca­do no tras­la­do de Luanda para o Rio de Janeiro, mas isso não impor­ta. A his­tó­ria, de todo modo, é óti­ma. O fil­me, nem tan­to. 

Conta-se ali a exis­tên­cia de Vicente Garrido (Lázaro Ramos), um homem que vive de cri­ar pas­sa­dos fal­sos para as pes­so­as, com direi­to a álbuns de fotos, home movi­es, con­vi­tes de casa­men­to, víde­os de lua de mel etc. Cada fre­guês o con­tra­ta ten­do em vis­ta a cons­tru­ção de uma deter­mi­na­da bio­gra­fia, com os obje­ti­vos mais diver­sos.

Até que um dia Vicente é pro­cu­ra­do por uma mulher lin­da e mis­te­ri­o­sa (Alinne Moraes), que não lhe con­ta nada sobre seu pas­sa­do ver­da­dei­ro e lhe dá car­ta bran­ca para inven­tar para ela uma his­tó­ria pre­gres­sa. A úni­ca con­di­ção é que, nes­sa his­tó­ria, ela tenha come­ti­do um cri­me.

Para resu­mir o que se segue daí, bas­ta dizer que Vicente bati­za a moça de Clara e cria-lhe uma bio­gra­fia rocam­bo­les­ca que envol­ve os desa­pa­re­ci­dos da dita­du­ra mili­tar argen­ti­na. E que ele mes­mo entra em cri­se, bus­can­do des­co­brir quem são seus pais bio­ló­gi­cos e como foi parar com o amá­vel casal bran­co de clas­se média que o ado­tou.

Trajetórias cru­za­das

Essas duas tra­je­tó­ri­as cru­za­das – a de Vicente e a de Clara – for­mam um entre­cho bas­tan­te inte­res­san­te, que man­tém viva até o final a curi­o­si­da­de do espec­ta­dor, e que joga com a ideia sem­pre rica de que toda bio­gra­fia, no fun­do, é uma fic­ção. Mas, de algum modo, o fil­me pare­ce não deco­lar, não levar até o fim as pos­si­bi­li­da­des de suas linhas de fuga, parar no meio do cami­nho.

Lázaro Ramos contracena com Alinne Moraes em O vendedor de passados

O que fal­ta, a meu ver, é um empe­nho mais con­cen­tra­do de cons­tru­ção da ima­gem e do rit­mo, no rigor e no vigor da ence­na­ção. O fil­me cres­ce nos momen­tos em que o pro­ta­go­nis­ta se entre­ga à mani­pu­la­ção de seus mate­ri­ais (fotos, víde­os docu­men­tais, notí­ci­as tele­vi­si­vas), tal­vez por­que o dire­tor Lula Buarque de Hollanda tenha expe­ri­ên­cia como rea­li­za­dor de docu­men­tá­ri­os. Mas sua estreia no lon­ga de fic­ção pare­ce care­cer do pul­so neces­sá­rio para uma his­tó­ria de mis­té­rio, e de pai­xão para uma his­tó­ria de amor.

O resul­ta­do final é um fil­me mor­no, agra­dá­vel, com a com­pe­tên­cia e o bom gos­to que são o padrão das pro­du­ções da Conspiração Filmes, da qual faz par­te.

Entre a arte e o mer­ca­do

Aqui cabe um parên­te­se sobre a pro­du­to­ra. Formada por dire­to­res de talen­to, a Conspiração pare­ce ter um pé na arte e um olho no mer­ca­do – com per­dão do ser desa­jei­ta­do que a ima­gem suge­re. Às vezes, como em Casa de areia, de Andrucha Waddington, a ênfa­se recai no pri­mei­ro ter­mo; em outras, como em Dois filhos de Francisco, de Breno Silveira, acer­ta em cheio no segun­do. De modo geral, porém, pre­va­le­cem fil­mes “esti­lo­sos”, mas sem pro­pri­a­men­te um esti­lo, no sen­ti­do de mar­ca pes­so­al, auto­ral. Um exem­plo fla­gran­te dis­so seria Heleno, de José Henrique Fonseca.

Para o meu gos­to par­ti­cu­lar, as rea­li­za­ções mais inte­res­san­tes da pro­du­to­ra cari­o­ca são os lon­gas de Claudio Torres, na sua linha de comé­dia fan­tás­ti­ca (RedentorA mulher invi­sí­velO homem do futu­ro) – entre­te­ni­men­to inte­li­gen­te, ligei­ro, sem o ran­ço da pre­ten­são à “pro­fun­di­da­de”.

Eficácia e dis­per­são

Voltando a O ven­de­dor de pas­sa­dos: há lá pelas tan­tas uma cena que, por con­tras­te, ilu­mi­na a fal­ta de ins­pi­ra­ção do con­jun­to. O pro­ta­go­nis­ta e sua ama­da vão para a cama, meio na con­tra­luz da tele­vi­são. Justo quan­do ele dei­ta sobre ela, dei­xa de cobrir com seu cor­po o moni­tor. Vemos então a ima­gem con­ge­la­da de um repór­ter que pare­ce con­tem­plar espan­ta­do a cena de sexo. A pró­pria difi­cul­da­de de des­cre­ver a pas­sa­gem em pala­vras ates­ta sua efi­cá­cia cine­ma­to­grá­fi­ca, algo qua­se ausen­te das outras sequên­ci­as.

Outra coi­sa: há uma cer­ta dis­per­são nar­ra­ti­va que não con­tri­bui em nada para a con­tun­dên­cia do fil­me. A cer­ta altu­ra, por exem­plo, Vicente, que pra­ti­ca esca­la­das nas horas vagas, é vis­to subin­do um íngre­me roche­do à bei­ra-mar (pos­si­vel­men­te o Pão de Açúcar) e é difí­cil supor que haja outra moti­va­ção para a cena que não seja a de mos­trar a bele­za exu­be­ran­te do Rio quan­do vis­to do alto.

Talvez seja um tan­to sub­je­ti­vo dizer isso, mas o que fal­ta a O ven­de­dor de pas­sa­dos é, numa pala­vra, alma.

O sécu­lo de Welles

Alma, per­so­na­li­da­de, esti­lo são coi­sas que nun­ca fal­ta­ram a Orson Welles, cujo cen­te­ná­rio de nas­ci­men­to está sen­do come­mo­ra­do este mês. Em São Paulo, para mar­car a efe­mé­ri­de, o cine Caixa Belas Artes exi­be até o pró­xi­mo dia 27 uma retros­pec­ti­va robus­ta da fil­mo­gra­fia do dire­tor, que inclui não ape­nas os clás­si­cos incon­tor­ná­veis como Cidadão Kane A mar­ca da mal­da­de, mas tam­bém obras menos vis­tas – e igual­men­te geni­ais – como Falstaff O estra­nho.

De que­bra, uma con­ver­sa do crí­ti­co Inácio Araujo com a últi­ma com­pa­nhei­ra do cine­as­ta, a atriz e dire­to­ra Oja Kodar, ama­nhã (23 de maio) às 18h30. Aqui, a pro­gra­ma­ção com­ple­ta. 

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