Os muitos prodígios de O menino e o mundo

No cinema

12.02.16

Torcer para um fil­me, ator ou dire­tor ganhar o Oscar é algo um tan­to pue­ril. Torcer por razões naci­o­na­lis­tas ou patrió­ti­cas, então, bei­ra a estu­pi­dez. Quando um fil­me do clã Barreto foi indi­ca­do na cate­go­ria pro­du­ção estran­gei­ra, lem­bro-me de ter vis­to seu dire­tor na tele­vi­são dizen­do: “Vamos bus­car esse cane­co”, como se fos­se um fute­bo­lis­ta par­tin­do para a Copa do Mundo. Cinema não é isso – ou melhor, é tam­bém isso, mas esta é a par­te que menos me inte­res­sa nele.

Contudo, há um aspec­to do Oscar que pode ser posi­ti­vo: cha­mar a aten­ção para fil­mes bons que, sem esses holo­fo­tes, tal­vez pas­sas­sem des­per­ce­bi­dos. É o caso fla­gran­te e escan­da­lo­so de O meni­no e o mun­do, de Alê Abreu, indi­ca­do a melhor lon­ga de ani­ma­ção.

Sua tra­je­tó­ria é ins­tru­ti­va. Com pou­cos recur­sos e mui­to empe­nho, o fil­me come­çou a ser rea­li­za­do em 2010 e ficou pron­to em 2013. Lançado no aca­na­lha­do cir­cui­to exi­bi­dor bra­si­lei­ro em 2014, não che­gou então a 4 mil espec­ta­do­res. No exte­ri­or, porém, seguiu con­quis­tan­do cora­ções e men­tes – e prê­mi­os. Aclamado pela crí­ti­ca, ganhou os dois prê­mi­os prin­ci­pais (júri e públi­co) no mai­or fes­ti­val de ani­ma­ção do mun­do, o de Annecy, e des­de então foi vis­to por 100 mil espec­ta­do­res na França e ven­di­do para mais de oiten­ta paí­ses. Há pou­cos dias ven­ceu tam­bém nos EUA o Annie (o “Oscar da ani­ma­ção”) na cate­go­ria melhor lon­ga inde­pen­den­te.

Estudo de caso

Mas foi sem dúvi­da a indi­ca­ção ao Oscar que sus­ci­tou um renas­ci­men­to do fil­me no mer­ca­do bra­si­lei­ro e na mídia. Relançado timi­da­men­te nos cine­mas, já foi vis­to por 40 mil pes­so­as a aca­ba de che­gar ao canal pago HBO, onde cer­ta­men­te mul­ti­pli­ca­rá seu públi­co.

Merece um estu­do de caso que lan­ce luz não ape­nas ao estran­gu­la­men­to do cir­cui­to exi­bi­dor, mas tam­bém à pas­si­vi­da­de do públi­co e às dis­cu­tí­veis pri­o­ri­da­des de nos­so jor­na­lis­mo cul­tu­ral. Mea cul­pa tam­bém (já que toda crí­ti­ca deve con­ter algu­ma medi­da de auto­crí­ti­ca): não escre­vi sobre o fil­me aqui quan­do foi lan­ça­do. Não me lem­bro quais foram os assun­tos que ocu­pa­ram então este espa­ço, mas difi­cil­men­te seri­am mais impor­tan­tes, do pon­to de vis­ta da arte do cine­ma, que O meni­no e o mun­do.

Com um atra­so de sécu­los, vamos então ao fil­me.

O meni­no e o mun­do é um pro­dí­gio, em pri­mei­ro lugar, por ter con­quis­ta­do um lugar ao sol da ani­ma­ção pas­san­do ao lar­go da tec­no­lo­gia digi­tal de pon­ta que tem carac­te­ri­za­do a pro­du­ção mais visí­vel do gêne­ro.

Menos do que as injun­ções econô­mi­cas que pos­sam ter influí­do na opção por téc­ni­cas arte­sa­nais de cri­a­ção e expres­são, cabe des­ta­car que tais téc­ni­cas ser­vem per­fei­ta­men­te ao espí­ri­to do fil­me. Ao usar lápis de cor, giz de cera, cola­gem e aqua­re­la para con­tar a his­tó­ria de uma cri­an­ça que sai em bus­ca do pai e des­co­bre o pla­ne­ta, O meni­no e o mun­do de cer­to modo assu­me em sua pró­pria for­ma o uni­ver­so do per­so­na­gem, dei­xan­do-se fecun­dar por seu ima­gi­ná­rio cri­a­ti­vo. É como se o meni­no cri­as­se sua pró­pria nar­ra­ti­va, em pri­mei­ra pes­soa, com os mei­os à sua dis­po­si­ção.

Descoberta e inven­ção

Dá a impres­são de um fil­me que se des­co­bre e se inven­ta a cada pas­so, con­du­zi­do pelo olhar ora fas­ci­na­do, ora assus­ta­do do meni­no dian­te das con­tra­di­ções do mun­do. Estas estão todas pre­sen­tes: a des­trui­ção da natu­re­za, a explo­ra­ção dos tra­ba­lha­do­res, a auto­ma­ção das rela­ções huma­nas, a dete­ri­o­ra­ção das cida­des.

As for­mas, os tra­ços, as cores não estão ali mera­men­te para ilus­trar uma his­tó­ria que pode­ria ser con­ta­da de outra manei­ra: eles cri­am a his­tó­ria, são sua subs­tân­cia. Um exem­plo sin­ge­lo é o das notas musi­cais que saem flu­tu­an­do dos ins­tru­men­tos como flo­cos colo­ri­dos, cada um com uma cor cor­res­pon­den­te ao seu som – com exce­ção dos da ban­da mili­tar, que são todos pre­tos.

O uso das cola­gens para com­por máqui­nas e pai­sa­gens urba­nas, a alter­nân­cia entre as for­mas geo­mé­tri­cas do tra­ba­lho orga­ni­za­do e os ara­bes­cos mul­ti­co­lo­ri­dos da fes­ta e do afe­to, a orques­tra­ção minu­ci­o­sa dos ruí­dos, das vozes e da músi­ca, tudo se dá com um equi­lí­brio deli­ca­do entre rigor e liber­da­de, entre pre­ci­são e fres­cor.

Para além da his­tó­ria que se con­ta, há uma espé­cie de ale­gria intrín­se­ca da for­ma, uma decla­ra­ção de amor à pró­pria arte, uma cele­bra­ção do “dese­nho ani­ma­do” no sen­ti­do lite­ral da expres­são.

O meni­no e o mun­do não é um mila­gre sur­gi­do do nada. É resul­ta­do de um lon­go pro­ces­so de tra­ba­lho e apren­di­za­do da ani­ma­ção bra­si­lei­ra, em par­ti­cu­lar de Alê Abreu, que está na bata­lha há duas déca­das (seu pri­mei­ro cur­ta, Espantalho, é de 1998). Tomara que seus belos fru­tos se tor­nem novas semen­tes.

Pensando bem, acho que vou tor­cer por O meni­no e o mun­do no Oscar. Não pelo Brasil, mas pelos meni­nos – e pelo mun­do.

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