Quatro fotógrafos da vida moderna: Brasil, 1940–1964

Fotografia

23.09.13

O Museum für Fotografie rea­li­za em Berlim, nes­te dia 26, a aber­tu­ra ofi­ci­al da expo­si­ção Modernidades foto­grá­fi­cas, com 224 ima­gens do acer­vo do Instituto Moreira Salles. É o pri­mei­ro pro­je­to do IMS na Alemanha. Foi cri­a­do um site, com tex­tos em inglês, para reu­nir as infor­ma­ções rela­ti­vas à mos­tra e ao ins­ti­tu­to, além de come­çar a tra­tar da par­ti­ci­pa­ção do IMS na Paris Photo, em novem­bro. O catá­lo­go de Modernidades foto­grá­fi­cas será lan­ça­do no Brasil tam­bém em novem­bro.

O tex­to abai­xo é tre­cho de um ensaio de Samuel Titan Jr., coor­de­na­dor exe­cu­ti­vo cul­tu­ral do IMS, que cons­ta do catá­lo­go da expo­si­ção. Aborda os tra­ba­lhos dos fotó­gra­fos cujas fotos com­põem a mos­tra: Marcel Gautherot (1910–1996), José Medeiros (1921–1990), Thomaz Farkas (1924–2011) e Hans Gunter Flieg (1923). São, como ele diz nes­te tre­cho, “qua­tro nomes para­dig­má­ti­cos” da ico­no­gra­fia do Brasil do sécu­lo XX.

Quatro nomes para­dig­má­ti­cos, pois — mas não por per­ten­ce­rem a uma mes­ma esco­la ou cor­ren­te, e sim por sua diver­si­da­de mes­ma: de ori­gem, de esti­lo, de inte­res­se, de atu­a­ção. Essa diver­si­da­de enraí­za-os em seu tem­po, sem con­tu­do tor­ná-los mera­men­te “típi­cos” de nada. Como pode­ri­am sê-lo se jus­ta­men­te habi­ta­ram uma épo­ca e um país que não se dei­xa­va cap­tu­rar por uma fór­mu­la úni­ca e só se dei­xa­va vis­lum­brar pela soma de mui­tos regis­tros dís­pa­res?

Note-se, em pri­mei­ro lugar, o colo­ri­do cos­mo­po­li­ta do gru­po, bem carac­te­rís­ti­co de uma épo­ca de migra­ção e imi­gra­ção: Gautherot, pari­si­en­se de ori­gem ope­rá­ria e for­ma­ção em arqui­te­tu­ra; Flieg, judeu ale­mão de Chemnitz, fugin­do do nazis­mo e da guer­ra; Farkas, hún­ga­ro nas­ci­do em Budapeste no seio de comer­ci­an­tes judeus de mate­ri­al foto­grá­fi­co; e Medeiros, bra­si­lei­ro nato, ins­ta­la­do no Rio de Janeiro mas pro­ve­ni­en­te de um esta­do pobre e sem mai­or tra­di­ção artís­ti­ca.

A essa diver­si­da­de de ori­gem soma-se o viés de cada um ao per­se­guir seus temas de elei­ção em âmbi­tos pro­fis­si­o­nais mui­to dis­tin­tos: Medeiros é o foto­jor­na­lis­ta por exce­lên­cia, apren­de o ofí­cio no dia-a-dia das reda­ções cari­o­cas e vive em esta­do de aler­ta mun­da­no e huma­no, ao pas­so que Farkas, livre de mai­o­res pre­o­cu­pa­ções mate­ri­ais, é o mais “artis­ta”, o mais “van­guar­dis­ta” do gru­po, inte­res­san­do-se des­de mui­to jovem pela foto­gra­fia como lin­gua­gem, como jogo, como obra que se expõe em gale­ri­as ou museus; úni­co dos qua­tro a esta­be­le­cer um estú­dio foto­grá­fi­co, Flieg cons­trói para si uma ima­gem de pro­fis­si­o­nal, de pres­ta­dor de ser­vi­ços para cli­en­tes qua­se sem­pre indus­tri­ais, na dire­ção con­trá­ria à de Gautherot, sujei­to nôma­de, de sim­pa­ti­as à esquer­da, dono de um tino for­mal oriun­do do tra­to com a arqui­te­tu­ra moder­na, mas sem­pre inte­res­sa­do no pro­ces­so de for­ma­ção naci­o­nal que tem a oca­sião de tes­te­mu­nhar e para o qual pen­sa con­tri­buir, cola­bo­ran­do com diver­sos órgãos e ini­ci­a­ti­vas do Estado.

O resul­ta­do, como se verá, é de gran­de vari­e­da­de for­mal e esti­lís­ti­ca — mas tam­bém de enor­me rique­za como regis­tro docu­men­tal de um país vas­to e con­tra­di­tó­rio. O elen­co de temas é de pas­mar: pai­sa­gens into­ca­das na Amazônia, fábri­cas e usi­nas, reli­giões afri­ca­nas, fute­bol e car­na­val, está­tu­as e igre­jas bar­ro­cas, fer­ra­men­tas mecâ­ni­cas, fes­te­jos popu­la­res no cam­po, gla­mour mun­da­no e cos­mo­po­li­ta nas cida­des, tri­bos indí­ge­nas no Centro-Oeste, edi­fí­ci­os moder­nis­tas em São Paulo e no Rio de Janeiro, sem falar na nova capi­tal, Brasília — tudo isso sob o mes­mo sol, aspi­ran­do a inte­grar con­tem­po­ra­ne­a­men­te um “retra­to do Brasil” que entre­tan­to nun­ca che­ga a se per­fa­zer, uma vez que nun­ca se dei­xa fixar sob uma defi­ni­ção úni­ca de iden­ti­da­de ou de moder­ni­da­de.

José Medeiros. A pedra da Gávea, o morro Dois Irmãos e as praias de Ipanema e do Leblon, Rio de Janeiro, 1952

 

Thomaz Farkas. Populares sobre cobertura do palácio do Congresso Nacional no dia da inauguração de Brasília, 21 de abril de 1960

 

Marcel Gautherot. Festa do Guerreiro, Alagoas, c. 1943

 

Hans Gunter Flieg. Instalações de usina hidrelétrica, Ilha Solteira, São Paulo, 1974

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