Tintin e a traição dos heróis

No cinema

26.01.12

Alguns cole­gas crí­ti­cos, admi­ra­do­res de Tintin, quei­xa­ram-se de uma supos­ta trai­ção de Steven Spielberg ao espí­ri­to do per­so­na­gem. Apesar do evi­den­te euro­cen­tris­mo (para não dizer colo­ni­a­lis­mo) dos qua­dri­nhos, tam­bém sou fã. E não me sen­ti traí­do por Spielberg.

Penso, ao con­trá­rio, que o fil­me em car­taz é uma espé­cie de casa­men­to per­fei­to: nin­guém melhor que Spielberg para reno­var, com os pro­dí­gi­os tec­no­ló­gi­cos atu­ais, a saga do jovem herói cri­a­do pelo bel­ga Hergé; e nin­guém melhor que Tintin para tra­zer de vol­ta o vigor cri­a­ti­vo juve­nil do cine­as­ta, soter­ra­do na mai­or par­te de sua fil­mo­gra­fia por seu sen­ti­men­ta­lis­mo beli­cis­ta e patri­o­tei­ro.

Basta pen­sar nas seme­lhan­ças entre Tintin e Indiana Jones, o herói spi­el­ber­gui­a­no por exce­lên­cia. Ambos pro­vêm de ofí­ci­os inte­lec­tu­ais (um é arqueó­lo­go; o outro, jor­na­lis­ta) e se envol­vem em aven­tu­ras des­ca­be­la­das nos can­tos mais remo­tos e exó­ti­cos do mun­do. Nos dois casos, a ambi­en­ta­ção nas pri­mei­ras déca­das do sécu­lo XX, numa espé­cie de infân­cia da tec­no­lo­gia moder­na, pro­vê uma atmos­fe­ra nos­tál­gi­ca, de futu­ro do pas­sa­do. São nar­ra­ti­vas, por assim dizer, “de segun­do grau”, revi­si­ta­ções da infân­cia, mar­ca­das pela autoi­ro­nia.

Indiana Jones já era um gibi­zão, não ape­nas nos enre­dos e cená­ri­os, mas tam­bém na pró­pria lin­gua­gem visu­al. Pense nas pas­sa­gens de O tem­plo da per­di­ção em que os per­so­na­gens, num can­to infe­ri­or do qua­dro, de cos­tas para a câme­ra, obser­vam uma cena ampla que se desen­ro­la em pla­no geral (um tem­plo gigan­tes­co, ou o deser­to vis­to a par­tir de uma ele­va­ção). Corta para um clo­se de ros­to ou um por­me­nor de obje­to, em pri­mei­rís­si­mo pla­no. Pura mon­ta­gem de qua­dri­nhos. É como ver um story­bo­ard ganhan­do vida. Dê uma olha­da no trai­ler:

Não, aqui não há trai­ção. Em Tintin, assim como em Indiana Jones, a ação fre­né­ti­ca, a hipér­bo­le e a inve­ros­si­mi­lhan­ça fazem par­te da natu­re­za do per­so­na­gem. A suces­são de esca­pa­das espe­ta­cu­la­res, de aca­sos ver­ti­gi­no­sos, cho­ques, que­das, tiros, nau­frá­gi­os, explo­sões, tudo isso tem­pe­ra­do com humor e iro­nia, faz par­te des­de iní­cio do paco­te, ou do pac­to com o espec­ta­dor.

Tintin, o fil­me, de cer­to modo é o que Spielberg teria fei­to com seu Indiana Jones se dis­pu­ses­se da tec­no­lo­gia de hoje. Se o 3D virou um feti­che e um cha­ma­riz que nem sem­pre se jus­ti­fi­ca em ter­mos cine­ma­to­grá­fi­cos, não é esse o caso com Spielberg.

No novo fil­me, que abo­le defi­ni­ti­va­men­te as fron­tei­ras entre ani­ma­ção e cine­ma com ato­res, ele apro­vei­ta o recur­so à pro­fun­di­da­de e ao volu­me não só para gerar sus­tos, mas para cri­ar ima­gens belas, sobre­tu­do nas tran­si­ções entre os delí­ri­os alcoó­li­cos e a sobri­e­da­de do capi­tão Haddock, como na cena em que as dunas do deser­to viram vaga­lhões e o navio de seu ante­pas­sa­do inva­de a cena, vin­do de sécu­los pas­sa­dos.

Pasteurização dos heróis

Traição exis­te sim, a meu ver, em inú­me­ros outros casos. A ten­dên­cia pas­teu­ri­za­do­ra de Hollywood ten­de a tor­nar iguais todos os heróis, liman­do suas carac­te­rís­ti­cas espe­cí­fi­cas, trans­for­man­do todos eles em pou­co mais que poli­a­tle­tas ou estú­pi­dos luta­do­res de UFC.

Um exem­plo gri­tan­te é o do Sherlock Holmes de Guy Ritchie. O rit­mo com­pas­sa­do das tra­mas cri­a­das por Conan Doyle, a suti­le­za sere­na da inte­li­gên­cia do dete­ti­ve, sua pos­tu­ra qua­se monás­ti­ca, tudo isso vai para o espa­ço nos fil­mes estre­la­dos pelo bom ator Robert Downey Jr. Tudo se con­ver­te numa cor­re­ria his­té­ri­ca de vide­o­ga­me, pon­tu­a­da por explo­sões, tiros e pan­ca­da­ria.

Falou-se que o Sherlock de Ritchie ficou pare­cen­do James Bond, mas há nis­so um sin­to­má­ti­co embo­ta­men­to do olhar, pois já nos habi­tu­a­mos com o 007 embru­te­ci­do dos últi­mos fil­mes da série. Nada a ver com o espião cool, ele­gan­te e autoirô­ni­co das pri­mei­ras aven­tu­ras, vivi­das na tela por Sean Connery.

Holmes, 007, Batman, Homem-Aranha, ficou tudo igual. Já escre­vi em algum lugar que, se um dia os ame­ri­ca­nos fize­rem um fil­me sobre o Buda, ele será um mus­cu­lo­so mes­tre de artes mar­ci­ais que impõe sua filo­so­fia na base da por­ra­da.

Tiradentes, quae sera tamen

Termina nes­te sába­do (dia 28) a 15ª edi­ção da Mostra de Cinema de Tiradentes. Como mos­tra o belo livro lan­ça­do para come­mo­rar os 15 anos do even­to, Tiradentes dei­xou de ser ape­nas um fes­ti­val sim­pá­ti­co para se tor­nar um pal­co pri­vi­le­gi­a­do para a exi­bi­ção e dis­cus­são do que há de mais vital no cine­ma bra­si­lei­ro con­tem­po­râ­neo.

Participei ape­nas dos pri­mei­ros dias, mas pude ver alguns óti­mos fil­mes — a comé­dia Billi Pig, de José Eduardo Belmonte; o docu­men­tá­rio As hiper mulhe­res, de Carlos Fausto, Leonardo Sette e Takumã Kuikuro; o dra­ma polí­ti­co Hoje, de Tata Amaral — e tive o pri­vi­lé­gio de deba­ter publi­ca­men­te este últi­mo com a dire­to­ra, o cor­ro­tei­ris­ta Jean-Claude Bernardet e a atriz Claudia Assunção.

Não é o caso de falar des­ses fil­mes às pres­sas aqui. Pretendo comen­tá-los opor­tu­na­men­te, quan­do entra­rem em car­taz.

O even­to esquen­tou mes­mo na últi­ma quar­ta-fei­ra (25), quan­do o exce­len­te ator Marat Descartes (de Trabalhar can­sa e Os inqui­li­nos) subiu ao pal­co com a equi­pe do lon­ga Corpo pre­sen­te e leu um vigo­ro­so mani­fes­to con­tra a ação poli­ci­al de deso­cu­pa­ção da área conhe­ci­da como Pinheirinho, em São José dos Campos (SP).

O mes­mo mani­fes­to tinha sido lido na noi­te ante­ri­or em São Paulo pela cine­as­ta Juliana Rojas, codi­re­to­ra de Trabalhar can­sa, na cerimô­nia de entre­ga do Prêmio Governador do Estado, em ple­no Palácio dos Bandeirantes.

É ani­ma­dor ver jovens artis­tas que, além de mos­trar o seu talen­to, tomam ati­tu­des cora­jo­sas como cida­dãos. Nem tudo está per­di­do. Aqui, o vídeo do dis­cur­so de Juliana Rojas no palá­cio:

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