A minha vida foi mais forte que eu
Kelvin Falcão Klein
26.03.12
A ficção de Tabucchi parece uma espécie de desdobramento teimoso da história que contava sobre seu descobrimento de Fernando Pessoa: na década de 1960, em Paris, compra uma edição francesa de "Tabacaria". É neste poema que Álvaro de Campos afirma: "Não sou nada/Nunca serei nada/Não posso querer ser nada/À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo". Tabucchi, que agora está morto, dedicou sua energia criativa de escritor ao ofício de receber em si as vozes e os sonhos dos escritores do passado - ser, enfim, um cruzamento de vozes do além, contendo em si, de forma portátil, uma história muito particular da literatura.
Um escritor mais inteligente que o necessário
Kathrin Rosenfield
16.03.12
No meio da Segunda Guerra Mundial, com nenhum fim à vista, Musil se encontrava, interna e externamente, num beco sem saída. Por ironia do destino, o escritor da maior importância "em todo o dominio da língua alemã" morreu no maior isolamento, quase no esquecimento. Um dos entraves para um apreço mais amplo e popular era, sem dúvida, a inteligência aguda, precisa e às vezes cruamente lúcida de Musil.
IMS lança estudo sobre a obra de Clarice Lispector
Equipe IMS
02.03.12
O Instituto Moreira Salles lança, no dia 8 de março, às 20h30, no IMS-RJ, o livro Clarice Lispector - Figuras da escrita, do crítico literário português e professor de literatura brasileira Carlos Mendes de Sousa. A publicação é uma reedição integral do texto com mesmo título publicado em Portugal em 2000. A edição do livro no Brasil faz parte de uma série de ações que há muito vêm se desenvolvendo no IMS em torno da obra de Clarice.
Privações produtivas
Antônio Xerxenesky
27.01.12
A proibição gerou poderosos frutos na história da arte. Basta observar, por exemplo, todos os livros e canções e quadros produzidos sob regimes ditatoriais. Muitos artistas reagiram virulentamente à castração de suas liberdades, criando, assim, obras de arte potentes e corajosas. Na opinião de um dos "homens hediondos" de David Foster Wallace, não apenas a privação, mas uma experiência de sofrimento extremo e traumático pode ser produtiva.
Ser aquilo com quem simpatizo
Eucanaã Ferraz
27.01.12
Quando comecei a escrever poemas, fazia sobretudo pastiches de Fernando Pessoa. De um heterônimo em especial: Alberto Caeiro. Eu não queria menos que isso, ser Fernando Pessoa, que escreveu entre outras declarações de despersonalização, ou de personalização pelo outro.
Mecanismos internos
Antônio Xerxenesky
10.01.12
Em um debate, o escritor João Silvério Trevisan, quando indagado sobre a relação entre escrever e narrar, discorreu sobre uma crise de representação pela qual passamos e sobre a busca pela forma ideal de dar conta de nossa realidade complexa e fragmentada. O autor também alertou que estava acontecendo um retorno aos modos tradicionais e realistas de narrar: alguns escritores, em pleno século XXI, voltavam a simplesmente contar histórias.
Na fome de leitura, o apreço à ciência
Flávio Pinheiro
10.01.12
Daniel Piza foi atilado leitor. Na topografia natural de sua sala havia permanente cordilheira de livros, como Edmundo Leite flagrou para o site do Estadão no dia seguinte de sua inverossímil ausência. De tempos em tempos Daniel removia para a redação montanhas de livros, avidamente disputados. Aquela barafunda continha a ampla latitude de sua curiosidade intelectual, servida no que ela tinha de melhor e pior em sua coluna dominical.
O que não se sabe sobre Daniel Piza
Marcelo Rezende
10.01.12
Há algumas palavras que quase não se veem, raramente se escutam, parecem ter existido antes para depois não se mostrarem mais presentes. Assim como as pessoas, uma hora está. No instante seguinte, resta apenas a ausência. Panegírico é uma palavra assim. O panegírico exige que se pense uma ação pelo ponto de vista daquele que agiu. O que se procura é uma essência. Daniel Piza, morto no dia 30 de dezembro de 2011, deixa a mulher Renata e os filhos Leticia, Maria Clara e Bernardo. É assim que os obituários expõem o fato. Essa é uma essência. Diante dessa essência, um panegírico, a que isso serve?
Coetzee e Foster Wallace: acadêmicos sem fraque
Antônio Xerxenesky
26.12.11
Há escritores que passaram por uma mudança de paradigma. Iniciaram suas carreiras fascinados por teoria literária e foram progressivamente abandonando esta paixão, até se tornarem críticos de várias facetas da academia. É o caso de David Foster Wallace e J.M. Coetzee.
O colecionador de epígrafes
Antônio Xerxenesky
13.12.11
Esses dias, estava em dúvida sobre o que ler da minha pilha de livros na cabeceira, então comecei a ver as epígrafes. Ao abrir Pornopopéia, de Reinaldo Moraes, me deparei com a seguinte frase de um "autor anônimo do século XX": "Tem dia que de noite é foda". Caí na gargalhada. (...) Moraes saltou para o topo da pilha. Uma epígrafe boa pode ter o mesmo efeito de uma frase inicial impactante.
