Coppola, no coração das trevas e da luz

No cinema

16.06.15

No cin­e­ma norte-amer­i­cano do últi­mo meio sécu­lo, poucos dire­tores terão alcança­do a estatu­ra e o poder de influên­cia de Fran­cis Ford Cop­po­la. Sua obra, irreg­u­lar e mon­u­men­tal, sin­te­ti­za boa parte da história recente da própria indús­tria cin­e­matográ­fi­ca, com a qual sua relação foi sem­pre de amor e ódio.

O cineasta Francis Ford Coppola

Uma ret­ro­spec­ti­va com­ple­ta dessa fil­mo­grafia incon­tornáv­el está em car­taz no Cen­tro Cul­tur­al Ban­co do Brasil do Rio de Janeiro e se estende depois para Brasília e São Paulo. São 24 lon­gas-metra­gens, mais o episó­dio do filme cole­ti­vo Con­tos de Nova York (1989) e os doc­u­men­tários O apoc­alipse de um cineas­ta (1991) e A déca­da que mudou o cin­e­ma (2003).

A tra­jetória de Cop­po­la é sin­gu­lar. Sua for­mação uniu a práti­ca (tra­bal­hou como assis­tente de Roger Cor­man) e a teo­ria (estu­dou cin­e­ma na Uni­ver­si­dade da Cal­ifór­nia). Apren­deu e exerci­tou todas as ativi­dades do ofí­cio, do roteiro à mon­tagem, ao mes­mo tem­po em que real­iza­va seus primeiros lon­gas, como The bell­boy and the play­girls (1962) e Demên­cia 13 (1963), pro­duções de baixís­si­mo orça­men­to em que a influên­cia de Cor­man é fla­grante.

Déca­da de ouro

Mas a déca­da de ouro de Cop­po­la seria, sem dúvi­da, a de 1970, em que enfileirou qua­tro obras-pri­mas: as duas primeiras partes de O poderoso chefão (1972 e 74), A con­ver­sação (1974) e Apoc­a­lypse now (1979).

Com a saga dos Cor­leone, o cineas­ta dial­o­gou com o cin­e­ma clás­si­co e redefiniu o filme de gâng­steres, asso­cian­do-o à epopeia e à ópera. O caráter operís­ti­co da saga se tornar­ia explíc­i­to, lit­er­al, numa cena mata­do­ra do ter­ceiro filme da série: 

Em A con­ver­sação, Cop­po­la tocou num dos ner­vos expos­tos de nos­sa época, a lin­ha tênue entre a pri­vaci­dade e a vida públi­ca. Em Apoc­a­lypse now, mer­gul­hou no coração das trevas não só da guer­ra do Viet­nã, mas da insanidade da guer­ra em ger­al.

Os exces­sos lisér­gi­co-pirotéc­ni­cos de Apoc­a­lypse de cer­to modo pre­nun­ci­avam uma vira­da, para não diz­er uma que­da: “Está­va­mos na sel­va, éramos numerosos demais, tín­hamos aces­so a din­heiro demais, a equipa­men­to demais, e pouco a pouco fomos enlouque­cen­do”, diz o dire­tor no exce­lente doc­u­men­tário O apoc­alipse de um cineas­ta, co-dirigi­do por sua mul­her, Eleanor Cop­po­la.

O peca­do da falên­cia

Na déca­da seguinte, empol­ga­do com as pos­si­bil­i­dades eletrôni­cas de proces­sa­men­to e edição da imagem, Cop­po­la enveredaria por um cin­e­ma visual­mente exu­ber­ante e estiliza­do, com alguns pon­tos altos como os sub­val­oriza­dos O fun­do do coração (1981), O sel­vagem da moto­ci­cle­ta (1983) e Cot­ton club (1984). Mas o fra­cas­so com­er­cial, sobre­tu­do de O fun­do do coração, que lev­ou sua pro­du­to­ra à ban­car­ro­ta, equiv­aleu a uma sen­tença de morte por parte da indús­tria. Como Orson Welles, Cop­po­la não cabia nas planil­has de cus­tos e lucros e tornou-se quase um pária em Hol­ly­wood.

A sorte pare­cia ter-lhe vira­do as costas. Um filme encan­ta­dor como Peg­gy Sue (1986) deu o azar de ser lança­do pouco depois do megas­suces­so De vol­ta para o futuro, de tema anál­o­go. Para com­ple­tar, Gio Cop­po­la, fil­ho do dire­tor, mor­reu num aci­dente de lan­cha aos 22 anos.

Aos tran­cos e bar­ran­cos, Cop­po­la seguiu sua car­reira como pro­du­tor e dire­tor, ao mes­mo tem­po em que pro­duzia vin­hos finos em suas ter­ras na Cal­ifór­nia. Lam­pe­jos de sua genial­i­dade con­tin­uaram a sur­gir aqui e ali. Em Tuck­er (1988), história de um visionário da indús­tria auto­mo­bilís­ti­ca esma­ga­do pelas grandes cor­po­rações, falou indi­re­ta­mente de si mes­mo, de seu embate com o poder dos grandes estú­dios. E a ter­ceira parte de O poderoso chefão (1990) fechou com bril­ho e dig­nidade uma das grandes epopeias do cin­e­ma.

Nas décadas seguintes, sua pro­dução foi irreg­u­lar, mas nun­ca banal ou desin­ter­es­sante, abar­can­do des­de uma releitu­ra vis­tosa e per­son­alís­si­ma de Drácu­la (1992) até um belo dra­ma famil­iar ambi­en­ta­do em Buenos Aires (Tetro, 2009), pas­san­do pelo efi­ciente thriller de tri­bunal O homem que fazia chover (1997).

Cin­e­ma como arte especí­fi­ca

Inteligente e int­elec­tual­mente refi­na­do, Cop­po­la sem­pre soube fil­trar suas refer­ên­cias literárias, pic­tóri­c­as e musi­cais e plas­má-las em cin­e­ma. Não faz teatro ou lit­er­atu­ra fil­ma­dos, pois con­hece a especi­fi­ci­dade de seu meio. Assim, a influên­cia de Goethe e de suas Afinidades ele­ti­vas per­pas­sa O fun­do do coração sem apare­cer em primeiro plano, e O coração das trevas, de Con­rad, é ape­nas a cen­tel­ha que está na origem da viagem exis­ten­cial de Apoc­a­lypse now.

A emoção está na emul­são”, cos­tu­ma­va diz­er Cop­po­la a seu ami­go George Lucas, referindo-se ao mági­co proces­so fotográ­fi­co que faz sur­gir uma imagem sobre uma pelícu­la sen­sív­el. Por isso, ao ini­ciar as fil­ma­gens de Vidas sem rumo (1983), dra­ma de ado­les­centes desajus­ta­dos, comu­ni­cou aos mem­bros de sua equipe: “Este é um filme sobre o crepús­cu­lo”. Que­ria dar a ideia de que tratari­am da fugaci­dade da vida, do para­doxo de que a luz mais bela surge pouco antes de desa­pare­cer na noite. Mas era tam­bém uma imagem muito conc­re­ta – e a luz doura­da e melancóli­ca do crepús­cu­lo impreg­na todo o filme, como mostra esta cena sin­gela, que aliás se pas­sa ao aman­hecer: 

Do mes­mo modo, antes de começar a rodar O fun­do do coração, Cop­po­la disse à equipe: “É um filme sobre o néon”. Sin­te­ti­za­va na frase tan­to uma ideia (a de artifí­cio ou ilusão, eixo da nar­ra­ti­va) como uma imagem conc­re­ta que ori­en­taria a fotografia e a direção de arte. Um grande artista, em suma, con­sciente dos poderes e lim­ites de seu meio de expressão. Para encer­rar, nada como ouvir o próprio Cop­po­la, falan­do breve­mente, há mais de vinte anos, sobre o futuro do cin­e­ma: 

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