O jogo da imitação
José Geraldo Couto
25.11.16
À saída de uma sessão de Cazuza – O tempo não para (2004), o que mais se ouvia da boca dos espectadores era: “Incrível como o ator (Daniel de Oliveira) parece uma encarnação do Cazuza”. Com Elis, agora, acontece o mesmo. O filme do estreante Hugo Prata baseia toda a sua eficácia na impressionante semelhança física e gestual entre a atriz Andréia Horta e a cantora retratada.
As sombras de Isabelle
José Geraldo Couto
18.11.16
Numa semana repleta de boas estreias, a mais importante certamente é Elle, o novo filme de Paul Verhoeven, que não tinha uma obra lançada por aqui desde A espiã, de dez anos atrás. Primeiro trabalho do diretor holandês rodado na França, Elle é baseado no romance Oh..., de Philippe Djian e gira em torno de uma enérgica empresária, Michèle Leblanc, dona de uma produtora de videogames. Melhor seria dizer: gira em torno de Isabelle Huppert, a fantástica atriz que a encarna.
Vinicius sem filtro
Equipe IMS
17.10.16
Durante boa parte do ano de 1979 o poeta, jornalista, diplomata e compositor Vinicius de Moraes foi filmado pela filha Susana, quase sempre em casa, em momentos de conversa solta e trivial com amigos e filhos, cantando, bebendo, dormindo. Aos poucos ela foi montando um retrato terno e sem artifícios do pai, transformado em Vinicius de Moraes, um rapaz de família, documentário de 30 minutos que só seria finalizado pela diretora em 1983, três anos depois da morte do músico. Na quarta-feira, dia 19/10, às 19h30, o IMS lança, no Rio de Janeiro, o DVD restaurado e masterizado digitalmente, um antigo sonho de Susana Moraes, que iniciou todo o processo em 2014 e morreu em janeiro de 2015, antes de vê-lo pronto.
Que claridade!
Equipe IMS
04.10.16
Leia um trecho de Pai país, mãe pátria, livro póstumo de José Carlos Avellar no qual o crítico parte de cenas e diálogos extraídos de alguns dos principais filmes nacionais, principalmente aqueles produzidos a partir de meados dos anos 1990 – Mutum, de Sandra Kogut; Central do Brasil, de Walter Salles; A ostra e o vento, de Walter Lima Jr.; e Dois filhos de Francisco, de Breno Silveira, são alguns deles – para analisar, com precisão, os dramas de toda a sociedade incorporados em alguns personagens destas obras.
Brasília, terra em transe
José Geraldo Couto
23.09.16
O festival de Brasília sempre foi o mais quente do cinema brasileiro, e nesta 49ª edição chega fervendo, tanto pela contundência da seleção de filmes como pelas conturbadas circunstâncias políticas que o cercam por todos os lados. Se Cinema novo, de Eryk Rocha, dá a ver um desejo contagiante de cinema como força de transformação humana e social, a exibição do documentário Mártires, de Vincent Carelli, mostrou alguns limites e paradoxos desse desejo.
Suspense ao sul
José Geraldo Couto
16.09.16
Por um feliz acaso, estão chegando aos cinemas praticamente ao mesmo tempo dois filmes de suspense de cineastas brasileiros da nova geração, Mate-me por favor e O silêncio do céu. Por vias diferentes, eles arejam e revitalizam esse gênero tão pouco cultivado entre nós. A boa notícia é que ambos são ótimos.
Bernardet na contramão
José Geraldo Couto
05.08.16
Fome, de Cristiano Burlan, que acaba de entrar em cartaz, acompanha as andanças de um velho mendigo pelas duras ruas do centro de São Paulo. Uma câmera fluente segue de perto seus passos e registra seus pequenos gestos e ocasionais diálogos com outros habitantes da metrópole. Até aí, seria um ensaio ou parábola mais ou menos banal em torno da invisibilidade social, do anonimato urbano, da condição de estar ao mesmo tempo dentro e fora do espaço público. O que torna única essa experiência e lhe confere, ao menos para uma parte dos espectadores, uma dimensão suplementar de significado é o protagonista ser encarnado pelo crítico, professor, pesquisador e ensaísta Jean-Claude Bernardet.
O diabo entre nós
José Geraldo Couto
29.07.16
Quando se fala em “aclimatar” gêneros consagrados às condições brasileiras, pensa-se logo em elementos de “cor local” (paisagem, humor paródico, signos da nossa cultura). Aqui entra uma das grandes sacadas dos realizadores de O diabo mora aqui. O que pode haver de mais profundamente brasileiro que a herança da escravidão, da opressão e dos desmandos de uma oligarquia impiedosa? E é isso o que essa trama de terror concentrada numa única noite e vivida por poucos personagens traz à tona com uma força desconcertante.
Tudo sobre sua mãe
José Geraldo Couto
22.07.16
O tema da maternidade, que de uma forma ou de outra atravessa toda a filmografia de Anna Muylaert, ganha centralidade em seus dois longas-metragens mais recentes. Se no filme anterior, Que horas ela volta? (2015), o ângulo de abordagem iluminava a estrutura social de dominação e suas transformações, em Mãe só há uma o foco é a identidade de gênero e orientação sexual. Trata-se ainda de uma opressão, mas de outra ordem.
Babenco, homem fora de lugar
José Geraldo Couto
15.07.16
Hector Babenco, morto esta semana, foi um artista marcado, se não pela contradição, ao menos pela ambiguidade. Disso extraiu sua força e sua originalidade. Meio argentino, meio brasileiro, realizou um cinema com um pé no desejo de expressão pessoal e outro na busca de comunicação com um público amplo. Para José Geraldo Couto, talvez o que unifique sua obra seja a impressão de alguém buscando seu lugar num ambiente hostil ou, no mínimo, inóspito.
