A guerra para acabar com todas as fantasias

Miscelânea

12.08.14

A Europa vivia uma fan­ta­sia de paz até o momen­to em que o ter­ro­ris­ta sér­vio-bós­nio Gavrilo Princip ati­rou para matar o arqui­du­que Francisco Ferdinando, her­dei­ro do tro­no aus­tro-hún­ga­ro, e sua mulher Sofia, Duquesa de Hohenberg, em Sarajevo, a 28 de junho de 1914. A essa fan­ta­sia deu-se o nome de Belle Époque. Afinal, des­de a Guerra Franco-Prussiana de 1870–71, as gran­des potên­ci­as do con­ti­nen­te não havi­am se enfren­ta­do em armas, não em solo euro­peu, ao mes­mo tem­po em que as ciên­ci­as pro­gre­di­am e as artes cri­a­vam em dimen­sões iné­di­tas. Havia guer­ras meno­res, sim, das quais os Bálcãs iri­am se mos­trar o exem­plo mais explo­si­vo, mas elas se tra­va­vam ou assim, às “mar­gens” do con­ti­nen­te, ou na expan­são colo­ni­a­lis­ta por África e Ásia.

Paris antes da Guerra: um baile popular em julho de 1912. A França vivia a Belle Époque. (Foto: Domínio Público/Bibliothèque Nationale de France)

Essa paz euro­peia de 43 anos deu, sobre­tu­do aos habi­tan­tes de França, Grã-Bretanha, Alemanha e Áustria-Hungria, a ilu­são de que um triun­fo da raci­o­na­li­da­de havia liber­ta­do a Humanidade do fla­ge­lo das guer­ras. Esta ideia era tão arrai­ga­da que, quan­do o con­ti­nen­te pron­ta­men­te se divi­diu em dois cam­pos ini­mi­gos por con­ta das polí­ti­cas de ali­an­ça, o con­fli­to foi tra­ta­do como “a guer­ra para aca­bar com todas as guer­ras”. Ou seja, tudo não pas­sa­ria de uma cor­re­ção de rumo: a Tríplice Entente (Grã-Bretanha, França e Rússia) e os Impérios Centrais (o ale­mão e o aus­tro-hún­ga­ro) iri­am tirar a lim­po suas dife­ren­ças e devol­ver a paz à Humanidade. EUA, Itália, Japão e Turquia – entre outros paí­ses, inclu­si­ve o modes­to Brasil – toma­ri­am par­ti­do e luta­ri­am por ele.

A expres­são “a guer­ra para aca­bar com todas as guer­ras”, sur­gi­da já em agos­to de 1914 num arti­go do inglês H.G. Wells, autor dos roman­ces de fic­ção cien­tí­fi­ca A máqui­na do tem­po (1895) e A guer­ra dos mun­dos (1898), popu­la­ri­zou-se a pon­to de ser usa­da pelo pre­si­den­te ame­ri­ca­no Woodrow Wilson. No entan­to, ela tam­bém era uma obra de fic­ção cien­tí­fi­ca. Nem mes­mo o sur­pre­en­den­te pro­lon­ga­men­to – em agos­to, quan­do os canhões come­ça­ram a tro­ar acre­di­ta­va-se que a paz esta­ria res­ta­be­le­ci­da no Natal – e a iné­di­ta car­ni­fi­ci­na aba­la­ram o wish­ful thin­king de que a Grande Guerra seria a der­ra­dei­ra. Havia, é cer­to, vozes dis­cor­dan­tes, mas há sem­pre pes­si­mis­tas para estra­gar pra­ze­res.

Pegar em armas foi expe­ri­men­ta­do, num pri­mei­ro momen­to, como um ver­da­dei­ro pra­zer cívi­co. Multidões de volun­tá­ri­os acor­re­ram aos pos­tos de alis­ta­men­to para defen­der a hon­ra de seus paí­ses, fos­se lá o que isso fos­se. A afluên­cia foi tama­nha que, sem que os velhos coman­dan­tes mili­ta­res per­ce­bes­sem, suas máqui­nas come­ça­ram a engas­gar. Os exér­ci­tos de 1871–1914 havi­am se pro­fis­si­o­na­li­za­do em con­tin­gen­tes rela­ti­va­men­te peque­nos. As mas­sas de volun­tá­ri­os os incha­ram, pre­ju­di­can­do todo e qual­quer pla­no de logís­ti­ca e geren­ci­a­men­to que pudes­se exis­tir. Somado ao devas­ta­dor uso béli­co de inven­ções que aju­da­ram a cri­ar o cli­ma da Belle Époque, como o auto­mó­vel e o avião, o caos res­pon­deu pelo mas­sa­cre que se veria nos pró­xi­mos qua­tro anos: cer­ca de 20 milhões de mor­tos, um pou­co mais da meta­de deles civis.

(Lembre-se: esta ain­da era sim­ples­men­te a Grande Guerra, não a Primeira, pois ain­da não havia uma Segunda Guerra Mundial para orde­ná-la e pela qual medi-la. Esta esta­be­le­ce­ria um novo recor­de de matan­ça em 60 milhões, qua­se dois ter­ços civis.)

Uma novidade tecnológica: os tanques. Na foto, tanques britânicos capturados pelos alemães em 1917 (Deutsches Bundesarchiv)

Na Grande Guerra havia outro fator que con­tri­buiu para os núme­ros ater­ra­do­res. Existia um cer­to des­com­pas­so entre as táti­cas mili­ta­res do final do sécu­lo XIX e as armas já dis­po­ní­veis no come­ço do sécu­lo XX. A prin­cí­pio, os exér­ci­tos se com­por­ta­vam como se não exis­tis­sem metra­lha­do­ras ou ata­ques a gás no cami­nho. O mai­or núme­ro de mor­tes ocor­reu, por­tan­to, antes que novos coman­dan­tes mili­ta­res per­ce­bes­sem que era inú­til se lan­çar de pei­to aber­to con­tra as posi­ções ini­mi­gas. Aproximadamente um ter­ço dos 1,5 milhão de fran­ce­ses mor­tos no con­fli­to tom­bou nos pri­mei­ros qua­tro meses.

Gassed”, de John Singer Sargent, retrata soldados após um ataque de gás mostarda

A per­cep­ção da inu­ti­li­da­de do ata­que fron­tal da infan­ta­ria e da cava­la­ria, no entan­to, não impli­cou uma revo­lu­ção raci­o­na­lis­ta. Logo após a cor­ri­da ini­ci­al, as posi­ções esta­bi­li­za­ram-se em duas linhas de trin­chei­ras con­tí­nu­as, face a face, sepa­ra­das por uma ter­ra de nin­guém que cor­ta­va a Europa. Apesar dis­so, os anos de 1915 a 1918 ain­da assis­ti­ram a deze­nas de ope­ra­ções de vul­to, que bus­ca­vam que­brar o impas­se em bus­ca de uma vitó­ria deci­si­va nos cam­pos de bata­lha (vitó­ria que, sabe­mos, jamais viria.) Os sol­da­dos pas­sa­ram qua­se qua­tro anos em con­di­ções atro­zes de higi­e­ne, saú­de e moral, ato­la­dos em trin­chei­ras que se movi­am mui­to pou­co, numa dire­ção ou nou­tra.

Na ter­ra de nin­guém entre as duas linhas ini­mi­gas, ocor­reu uma coi­sa extra­or­di­ná­ria no Natal de 1914, aque­le que no mun­do ide­a­li­za­do deve­ria mar­car o fim das hos­ti­li­da­des. Soldados fran­ce­ses, bri­tâ­ni­cos e ale­mães esta­be­le­ce­ram uma tré­gua, por con­ta pró­pria e de uma manei­ra que nun­ca foi sufi­ci­en­te­men­te escla­re­ci­da. Além de visi­ta­rem as trin­chei­ras uns dos outros e tro­ca­rem suve­ni­res, bri­tâ­ni­cos e ale­mães che­ga­ram a dis­pu­tar três ou qua­tro par­ti­das de fute­bol – uma delas teria ter­mi­na­do 3 a 2 para a Alemanha, outra 4 a 1 para a Grã-Bretanha – antes que gene­rais escan­da­li­za­dos com a sus­pen­são de sua prer­ro­ga­ti­va de esco­lher quem e quan­do matar proi­bis­sem qual­quer tipo de con­fra­ter­ni­za­ção. Seja como for, algo assim só seria mes­mo pos­sí­vel den­tro do espí­ri­to da Belle Époque. Quarenta anos mais tar­de, em 1954, o ame­ri­ca­no William Faulkner usa­ria a tré­gua de Natal como pon­to de par­ti­da para um de seus melho­res roman­ces, Uma fábu­la, no qual um cabo reen­car­na a figu­ra de Jesus Cristo.

Se antes do aten­ta­do em Sarajevo o astral na Europa ten­dia ao alto, ape­sar de todas as ten­sões naci­o­na­lis­tas ou clas­sis­tas pré-exis­ten­tes, o efei­to da Grande Guerra joga­ria o moral do con­ti­nen­te para bai­xo. As mes­mas ques­tões que deto­na­ram o con­fli­to – como o mili­ta­ris­mo ale­mão, apon­ta­do por H.G. Welles como o prin­ci­pal cul­pa­do pela eclo­são da “guer­ra para aca­bar com todas as guer­ras” – foram empur­ra­das para debai­xo do tape­te pelo Tratado de Versalhes. Lord Keynes, o eco­no­mis­ta, era um dos mem­bros da comi­ti­va bri­tâ­ni­ca. Ficou tão impres­si­o­na­do com a bru­ta­li­da­de das san­ções impos­tas à Alemanha que escre­veu um livro, As con­sequên­ci­as econô­mi­cas da paz, no qual pre­via a rea­li­za­ção de uma Segunda Guerra Mundial. Itália e Japão, que assim como os EUA havi­am luta­do ao lado dos Aliados, frus­tra­ram-se com suas par­tes no butim. Estava cri­a­do o qua­dro de res­sen­ti­men­to e ambi­ção que leva­ria à guer­ra de 1939–1945.

No momen­to, há uma paz de qua­se exa­tos 69 anos na Europa. O con­ti­nen­te tam­bém não tes­te­mu­nhou con­fli­tos em lar­ga esca­la. Os Bálcãs con­ti­nu­a­ram sen­do um pon­to nevrál­gi­co, cuja dor mais lan­ci­nan­te foi a Guerra da Bósnia, que incluiu um geno­cí­dio (des­ta vez de muçul­ma­nos). Ciências e artes pro­gre­di­ram como nun­ca etc. etc. Porém, qual­quer ana­lo­gia com a Belle Époque é vã. A Guerra Fria esta­be­le­ci­da entre EUA e URSS logo que se encer­rou a Segunda Guerra Mundial – com momen­tos mais quen­tes, como as inter­ven­ções rus­sas na Hungria e na Tchecoslováquia, a cons­tru­ção do Muro de Berlim ou a Crise dos Mísseis em Cuba, além das guer­ras na Coreia e no Vietnã – não só tur­vou o cli­ma pla­ne­tá­rio como “esva­zi­ou” a Europa. Se, em 1914, ela podia se gabar de ser o cen­tro do mun­do, isso não se man­te­ve ver­da­dei­ro após 1945. Nem a der­ru­ba­da do Muro, a con­se­quen­te reu­ni­fi­ca­ção ale­mã e a cam­ba­le­an­te União Europeia alte­ra­ram sig­ni­fi­ca­ti­va­men­te o qua­dro. Por isso, falar da Primeira Guerra Mundial é falar tam­bém de uma paz – mais de espí­ri­to do que de cor­po – mui­to espe­cí­fi­ca que ela per­tur­bou.

, , ,