O diretor Woody Allen

O diretor Woody Allen

A roda da fortuna

No cinema

02.01.18

Há quem encare um novo filme de Woody Allen como uma espé­cie de even­to anu­al inevitáv­el, mais ou menos como a cor­ri­da de São Sil­vestre ou o espe­cial de fim de ano de Rober­to Car­los. Pode até ser. Mas, em con­traste com a pre­vis­i­bil­i­dade dos out­ros exem­p­los cita­dos, cada novo tra­bal­ho do dire­tor nova-iorquino traz sem­pre algu­ma coisa a ser descober­ta, algum matiz inex­plo­rado ante­ri­or­mente, uma maneira difer­ente de abor­dar os mes­mos vel­hos temas. Como todo artista que encon­trou há tem­pos a sua voz, ou a sua caligrafia, Allen é sem­pre igual a si mes­mo, e sem­pre difer­ente.

 

 

Em Roda gigante, ambi­en­ta­do na Coney Island dos anos 1950, repõe-se com out­ras peças o mes­mo jogo dramáti­co entre as agruras de um cotid­i­ano esquáli­do e a miragem da fan­ta­sia e das grandes aspi­rações que já tín­hamos vis­to, por exem­p­lo, em A rosa púr­pu­ra do Cairo (ou, em chave cômi­co-nos­tál­gi­ca, em A era do rádio).

Aqui, a pro­tag­o­nista, Gin­ny (Kate Winslet), é uma quar­en­tona que tro­cou o son­ho de ser atriz pela triste roti­na de garçonete num restau­rante de fru­tos do mar. Casa­da com o rude oper­ador de car­rossel Hump­ty (Jim Belushi), ela tem um fil­ho de uns dez anos do primeiro casa­men­to. Sua carên­cia – de afe­to, sexo e aven­tu­ra – a leva aos braços do sal­va-vidas Mick­ey (Justin Tim­ber­lake), que por sua vez aspi­ra a ser escritor.

Tragé­dia famil­iar

O equi­líbrio desse triân­gu­lo é abal­a­do pela chega­da da jovem Car­oli­na (Juno Tem­ple), fil­ha do primeiro casa­men­to de Hump­ty, que está fug­in­do do mari­do gâng­ster e de seus com­parsas. Ela vem em bus­ca do perdão e da acol­hi­da do pai.

Ao sobre­por ou entre­laçar ess­es dois núcleos romanescos clás­si­cos – a esposa insat­is­fei­ta que se entre­ga a um homem mais jovem; a fil­ha pródi­ga que anseia pela rec­on­cil­i­ação com o pai –, Woody Allen cria uma tapeçaria dramáti­ca que remete às tragé­dias famil­iares da lin­ha de Eugene O’Neill e Ten­nessee Williams, com sua fer­men­tação de dese­jos reprim­i­dos, ran­cores ocul­tos, vio­lên­cia psi­cológ­i­ca, insanidade e alcoolis­mo. Mas talvez sem levar às últi­mas con­se­quên­cias as forças que mobi­liza, como cer­ta­mente fari­am os dra­matur­gos cita­dos.

Como em prati­ca­mente todos os dra­mas (e mes­mo nas comé­dias) do cineas­ta, tudo con­flui para um dile­ma moral, con­den­sa­do num momen­to deci­si­vo, em que um per­son­agem, mes­mo con­stri­to pelas cir­cun­stân­cias, tem o livre arbítrio para escol­her entre o bem e o mal. Em Roda gigante esse per­son­agem é Gin­ny, e o pal­co de seu con­fli­to ínti­mo é uma cab­ine tele­fôni­ca.

Pal­co”, aqui, adquire um sen­ti­do quase lit­er­al, pois o filme tem muito de ence­nação teatral, com sua con­cen­tração em poucos per­son­agens, sua ação enx­u­ta, seus diál­o­gos pre­cisos, seus ambi­entes bem mar­ca­dos e, não menos impor­tante, sua ilu­mi­nação “irre­al”. Tiran­do proveito das cir­cun­stân­cias do cenário – um par­que de diver­sões –, a luz que ban­ha os seres e obje­tos sofre uma drás­ti­ca vari­ação cromáti­ca (ora é ver­mel­ha, ora azul, ora doura­da), bem ao gos­to do dire­tor de fotografia Vit­to­rio Storaro.

Nesse sen­ti­do, não será descabido pen­sar que out­ra refer­ên­cia estéti­ca de Roda gigante talvez seja O fun­do do coração, de Fran­cis Cop­po­la, fotografa­do pelo mes­mo Storaro. Lá tam­bém se trata­va de con­trastar a vida escas­sa de per­son­agens pro­letários e o ambi­ente feéri­co (Las Vegas, no caso) em que se movi­am, com um uso osten­si­vo da luz e das cores como ele­men­tos dramáti­cos. Reforçan­do a cor­re­lação, nos dois filmes Bora Bora é evo­ca­da como hor­i­zonte de son­ho e fan­ta­sia.

Escapis­mo e destru­ição

A atu­ação extra­ordinária de Kate Winslet, além de reafir­mar Woody Allen como um dire­tor de atrizes da estirpe de George Cukor, como desta­cou na Fol­ha de S. Paulo o críti­co Ser­gio Alpen­dre, rev­ela tam­bém, a meu ver, a sagaci­dade do cineas­ta em jog­ar com a imagem “cristal­iza­da” dos atores com quem tra­bal­ha.

Em filmes como Titan­ic e Razão e sen­si­bil­i­dade, Kate Winslet encar­nou como ninguém a donzela român­ti­ca, aber­ta a todos os son­hos que o amor pode inspi­rar. Em Roda gigante sua per­son­agem é um comen­tário amar­go a esse pas­sa­do de promes­sas, quase como se ela dissesse por out­ros meios os ver­sos de Lupicínio Rodrigues: “Só as mágoas que eu tra­go hoje em dia/ e estas rugas o amor me deixou”.

Fal­tou diz­er que a piro­ma­nia do fil­ho de Gin­ny (Jack Gore), mais que um mero alívio cômi­co, indi­ca out­ra ati­tude de reação à dureza do cotid­i­ano que não a da fan­ta­sia e do escapis­mo. É uma ação ao mes­mo tem­po asserti­va e destru­ti­va que, ain­da não sabe­mos, pode se des­do­brar numa tra­jetória sau­dav­el­mente sub­ver­si­va (na arte, na políti­ca) ou num des­ti­no trági­co de ser­i­al killer. Até que não seria má ideia faz­er desse garo­to o pro­tag­o­nista de um próx­i­mo filme.

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