Barbara Heliodora, 90 anos

Miscelânea

28.08.13
Barbara Heliodora no documentário "Barbara em cena" (2012), de Ellen Ferreira (Carlos Reis/Divulgação)
Barbara Heliodora no docu­men­tá­rio Barbara em cena (2012), de Ellen Ferreira (Carlos Reis/Divulgação)

Em agos­to de 1993, eu esta­va no Globo e fiz a maté­ria sobre os 70 anos de Barbara Heliodora. O edi­tor fez ques­tão de escre­ver no sub­tí­tu­lo que ela era a mai­or crí­ti­ca de tea­tro do Brasil. No dia seguin­te, o edi­tor de opi­nião apon­tou o equí­vo­co da opção, pois era cabo­ti­no o jor­nal exal­tar des­sa manei­ra sua pró­pria crí­ti­ca tea­tral.

Há 23 anos escre­ven­do no prin­ci­pal jor­nal do Rio, Barbara des­per­ta tan­tas pai­xões, sobre­tu­do con­tra ela mes­ma, que pare­ce pre­ci­sar ser defen­di­da — ou des­me­di­da­men­te exal­ta­da pelos que gos­tam dela. Continua sen­do assim ago­ra, aos 90 anos que com­ple­ta nes­te 29 de agos­to. O peso de sua opi­nião é inver­sa­men­te pro­por­ci­o­nal à popu­la­ri­da­de que des­fru­ta na cha­ma­da clas­se tea­tral. O fato de a revis­ta “Veja” tam­bém tra­tá-la, habi­tu­al­men­te, como a mai­or crí­ti­ca do país não cola­bo­ra em nada para melho­rar essa situ­a­ção, aca­ban­do por refor­çar-lhe a pecha de con­ser­va­do­ra.

Gerald Thomas já dese­jou que ela mor­res­se, Ulisses Cruz bar­rou sua entra­da num espe­tá­cu­lo que diri­gia, seu ami­go Sergio Britto se quei­xa­va do amar­gor de suas opi­niões, nove entre dez jovens ato­res e dire­to­res do Rio a temem e/ou a odei­am.

É qua­se impos­sí­vel odi­ar Barbara após conhe­cê-la. É uma pes­soa extre­ma­men­te amá­vel, diver­ti­da, apai­xo­na­da por músi­ca, por fute­bol (seu pai, Marcos Carneiro de Mendonça, foi golei­ro do Fluminense e da sele­ção bra­si­lei­ra) e ami­ga fer­vo­ro­sa dos ami­gos. Destes, é pre­ci­so dizer, mui­tos são elo­gi­a­dos com frequên­cia por ela, tal­vez pela afi­ni­da­de de gos­tos e pen­sa­men­tos. Mas os que não são per­ma­ne­cem ami­gos, caso de Antonio Abujamra, um com­pa­nhei­ro de déca­das que nun­ca des­fez os laços mes­mo após sofrer duras crí­ti­cas.

Amar o tea­tro, como Barbara ama des­de mui­to cedo, não com­bi­na com ver qua­se 20 peças por mês — núme­ro que ela ago­ra, aos 90 anos, está redu­zin­do para oito. Por mais bene­vo­len­te que seja o espec­ta­dor, não há tan­tas coi­sas boas para se ver em tea­tro numa cida­de. Pode ser Rio, São Paulo, até mes­mo Nova York. E crí­ti­co bene­vo­len­te, por defi­ni­ção, não é crí­ti­co, é outra coi­sa. Logo, mui­to da rai­va que Barbara aca­ba vazan­do para os seus tex­tos é legí­ti­ma. Ela não faz isso por não gos­tar de tea­tro, como há quem diga, e sim por gos­tar mui­to de tea­tro.

Não estão de todo erra­dos os que veem super­fi­ci­a­li­da­de em mui­tos de seus tex­tos, os que se quei­xam dos adje­ti­vos mal expli­ca­dos, os que apon­tam erros de infor­ma­ção. Falta espa­ço, não sobra âni­mo, é pou­ca a paci­ên­cia após tan­tas déca­das na pla­teia.

Quando ela se apai­xo­na por um espe­tá­cu­lo, no entan­to, seus olhos bri­lham como se ain­da fos­se a jovem que atu­a­va em peças infan­tis no Teatro Tablado. Eu vi isso, por exem­plo, em fun­ção do Romeu e Julieta do Grupo Galpão, um espe­tá­cu­lo bri­lhan­te, ale­gre e que não tra­ta­va Shakespeare como uma está­tua a ser ado­ra­da. Barbara, a mai­or espe­ci­a­lis­ta bra­si­lei­ra no gênio inglês, tam­bém não tra­ta, mas é real­men­te impi­e­do­sa quan­do ence­na­ções de peças do bar­do não a satis­fa­zem.

Um dire­tor que a detes­ta (ou detes­ta­va) con­tou para mim cer­ta vez, com ódio, que vira a tese de dou­to­ra­do de Barbara (A expres­são dra­má­ti­ca do homem polí­ti­co em Shakespeare) como títu­lo de refe­rên­cia na Royal Shakespeare Company, em Londres. Ou seja, seu conhe­ci­men­to do assun­to é con­sa­gra­do.

Barbara tam­bém enten­de mui­to de Tchekhov (outra gran­de pai­xão), de Ibsen, de mui­tos outros. De Nelson Rodrigues insis­te no pon­to de que a gran­de con­tri­bui­ção do dra­ma­tur­go tenha sido levar a fala colo­qui­al para o pal­co. Nelson foi mais do que isso, mas tam­bém não foi o trá­gi­co pra­ti­ca­men­te des­pro­vi­do de humor que asso­la a mai­o­ria das mon­ta­gens pau­lis­tas pós-Antunes Filho.

Ela pode não ser a mai­or crí­ti­ca do Brasil, como Globo e Veja que­rem, até por­que essa com­pe­ti­ção não faz mui­to sen­ti­do. Também não é a fã mais ardo­ro­sa dos expe­ri­men­ta­lis­mos, sen­do mais sim­pá­ti­ca, para citar um gêne­ro, aos musi­cais. Mas não dá para pen­sar a his­tó­ria do tea­tro no país sem Barbara, sem sua inte­li­gên­cia, sem seu sar­cas­mo, sem seu mau humor diver­ti­do (ao menos para quem não é alvo dele), sem sua opi­nião fir­me sobre o que vê — numa ter­ra e num tem­po em que não fal­tam opi­niões, mas em que a fir­me­za é pou­ca.

Barbara che­ga aos 90 anos com a cabe­ça mais jovem do que a de mui­tos de nós. E com mais amor pelo tea­tro do que qua­se todos nós. Digo isso por ter tido o pri­vi­lé­gio de conhe­cê-la de per­to e por admi­rá-la sem dei­xar de enxer­gar defei­tos em par­te de suas crí­ti­cas. Contrariando o que Gerald dese­jou (e que já rene­gou, aliás), os 90 anos de vida de Barbara mere­cem ser cele­bra­dos.

* Luiz Fernando Vianna é coor­de­na­dor de inter­net do IMS.

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