Defesa da literatura

Colunistas

30.03.16

Um pro­ces­so kaf­ki­a­no está em cur­so na França, depois de o escri­tor Édouard Louis (foto) ter sido inti­ma­do por “aten­tar con­tra a vida pri­va­da e a pre­sun­ção de ino­cên­cia” do homem que o agre­diu e o estu­prou, sob a mira de um revól­ver, há três anos. Em seu segun­do roman­ce, História da Violência (ed. Seuil), publi­ca­do em janei­ro com ampla reper­cus­são de públi­co e de crí­ti­ca, o escri­tor de 23 anos nar­ra seu encon­tro casu­al, na noi­te de Natal de 2012, com um homem de ori­gem arge­li­na, de cer­ca de 30 anos, que se apre­sen­ta como “Reda”. Os dois vão ao apar­ta­men­to do escri­tor, onde “Reda” o estran­gu­la (por pou­co não o mata) e o estu­pra, antes de desa­pa­re­cer.

O agres­sor só foi iden­ti­fi­ca­do no iní­cio des­te ano (três anos depois de o escri­tor ter pres­ta­do quei­xa e pou­co depois da publi­ca­ção do roman­ce), gra­ças ao cru­za­men­to entre seu DNA, obti­do nes­se meio-tem­po, por oca­sião de um rou­bo, e o DNA colhi­do nos tra­ços que havia dei­xa­do no apar­ta­men­to da víti­ma, em 2012. Os advo­ga­dos, entre­tan­to, insis­tem que seu cli­en­te foi iden­ti­fi­ca­do por cau­sa do livro, por ter sido nome­a­do e des­cri­to no roman­ce, o que bas­ta­ria, segun­do eles, para con­fi­gu­rar aten­ta­do a sua vida pri­va­da e à pre­sun­ção de sua ino­cên­cia. A iro­nia é que, além da des­cri­ção sumá­ria que Édouard Louis faz de seu agres­sor, a prin­ci­pal infor­ma­ção que o roman­ce dá sobre sua iden­ti­da­de é o nome (“Reda”). Nos autos do pro­ces­so, os advo­ga­dos o cha­mam Riadh B., entre outras cin­co iden­ti­da­des que lhe são atri­buí­das, por estar em situ­a­ção ile­gal e para poder “esca­par à polí­cia”.

Será pos­sí­vel iden­ti­fi­car por um livro alguém que nem os pró­pri­os advo­ga­dos con­se­guem iden­ti­fi­car?”, o advo­ga­do de defe­sa iro­ni­zou à cor­te, há duas sema­nas, adi­ci­o­nan­do um pou­co de bom humor e de bom sen­so ao absur­do. O fato é que, se Édouard Louis for con­de­na­do, por mais inve­ros­sí­mil e impro­vá­vel que seja a acu­sa­ção, “não será mais pos­sí­vel a um escri­tor nome­ar seus per­so­na­gens. Seria impor o silên­cio a toda a lite­ra­tu­ra fran­ce­sa”, aler­ta a advo­ga­da da edi­to­ra Seuil. O vere­dic­to será dado no pró­xi­mo dia 15.

Para além do fait divers e do hor­ror dos fatos, Édouard Louis se ser­ve no livro de um dis­po­si­ti­vo roma­nes­co que lhe per­mi­te falar da vio­lên­cia e do racis­mo ao mes­mo tem­po que lhe garan­te a par­te da iro­nia e do humor: é sua irmã, pro­le­tá­ria do nor­te da França, com seus pre­con­cei­tos e sua lin­gua­gem oral e vul­gar, quem con­ta a his­tó­ria do estu­pro ao mari­do. A lín­gua da irmã às vezes faz lem­brar as nar­ra­ti­vas de Thomas Bernhard. Condenado a repe­tir sem parar seu depoi­men­to do trau­ma (a nar­rar sua his­tó­ria no hos­pi­tal, aos ami­gos, à irmã, aos poli­ci­ais, em mais de uma dele­ga­cia etc.), o autor aca­ba usan­do o roman­ce para esca­par à arma­di­lha da viti­mi­za­ção.

O que se espe­ra da víti­ma é que ela con­te o que lhe acon­te­ceu, para que se faça jus­ti­ça, para que o cri­me nun­ca mais se repi­ta. “Ela (a irmã) nun­ca pode­rá com­pre­en­der que a minha his­tó­ria é ao mes­mo tem­po o mais impor­tan­te para mim e o que me pare­ce mais dis­tan­te e estra­nho ao que eu sou; não pode­rá com­pre­en­der que aper­to essa his­tó­ria con­tra o pei­to, temen­do que venham rou­bá-la, ao mes­mo tem­po que sin­to repul­sa, a repul­sa mais pro­fun­da quan­do alguém se apro­xi­ma para sus­sur­rar que a his­tó­ria me per­ten­ce; bas­ta me lem­bra­rem dis­so para eu ter von­ta­de de jogá-la ao pó e sumir.”

O que se espe­ra da víti­ma é que ela não dei­xe o pas­sa­do desa­pa­re­cer. “Por que é que se impõe aos per­de­do­res ser tes­te­mu­nha da História – como se ser per­de­dor já não fos­se sufi­ci­en­te, por que é que ain­da têm de car­re­gar o tes­te­mu­nho da per­da, por que ain­da pre­ci­sam repe­tir a per­da até o esgo­ta­men­to (?) (…) A úni­ca ques­tão con­sis­te em con­se­guir che­gar a uma for­ma de memó­ria que não repi­ta o pas­sa­do (…), pro­cu­ro cons­truir uma memó­ria que me per­mi­ta des­fa­zer o pas­sa­do, que o ampli­fi­que e o des­trua num úni­co ges­to, uma memó­ria por meio da qual quan­to mais eu me lem­brar e quan­to mais me dis­sol­ver nas ima­gens que me res­tam, menos serei o cen­tro.” Essa for­ma de memó­ria é o roman­ce, obra da ima­gi­na­ção. E, por mais que se ate­nha aos fatos, “História da Violência” é um roman­ce.

No final, o autor cita Hannah Arendt: “Em outras pala­vras, a nega­ção deli­be­ra­da da rea­li­da­de – a capa­ci­da­de de men­tir – e a pos­si­bi­li­da­de de negar os fatos – a capa­ci­da­de de agir – estão inti­ma­men­te liga­das; ambas pro­vêm da mes­ma fon­te: a ima­gi­na­ção. Porque não é natu­ral que seja­mos capa­zes de dizer que ‘o sol bri­lha’ quan­do está cho­ven­do, (…) isso indi­ca que, ain­da que este­ja­mos aptos a apre­en­der o mun­do pelos sen­ti­dos e pela razão, não esta­mos inse­ri­dos nele, liga­dos a ele, como uma par­te inse­pa­rá­vel do todo. Estamos livres para mudar o mun­do e intro­du­zir a novi­da­de nele”.

É a essa liber­da­de que Édouard Louis atri­bui sua cura do trau­ma. É uma bela defe­sa da fic­ção e da lite­ra­tu­ra.

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