Drummond: o “querido capanga”

Literatura

23.09.11

É difí­cil escre­ver sobre o arqui­vo de Drummond sem come­çar lem­bran­do o arqui­vis­ta nato que foi o poe­ta, assun­to de que já tra­tei aqui mes­mo, em post ante­ri­or.

Dessa vez, nos itens por ele orga­ni­za­dos que che­ga­ram ao Instituto Moreira Salles em feve­rei­ro des­te ano, ao lado dos 4 mil livros de sua bibli­o­te­ca pes­so­al, encon­trei uma cai­xa de pape­lão cri­te­ri­o­sa­men­te ano­ta­da em um dos lados — era assim que ele orde­na­va par­te do mate­ri­al. Entre outras indi­ca­ções do con­teú­do, como se vê na foto a seguir, lê-se: A Voz dos que Não Falam.

01

Trata-se de um jor­na­le­co arte­sa­nal, de oito pági­nas, mime­o­gra­fa­do, que exi­be, na pri­mei­ra pági­na, o cré­di­to:

Direção:

Lya Cavalcanti
Carlos Drummond de Andrade

Quem não sou­bes­se o que Drummond era capaz de fazer por amor aos ani­mais deve ter se espan­ta­do de ver seu nome na dire­ção do perió­di­co modes­to que cir­cu­lou a pri­mei­ra vez em 4 de outu­bro de 1970, dia de São Francisco, quan­do, no Rio, se rea­li­za­va a bên­ção dos ani­mais na pra­ça Nossa Senhora da Paz, em Ipanema.

 

Frequentada por cães das mais vari­a­das raças, ali se encon­tra­vam des­de legí­ti­mos vira-latas aos repre­sen­tan­tes mais racés, todos para serem aben­ço­a­dos pelo san­to “papo-fir­me”, como o poe­ta nomeia São Francisco num ver­so de “Conversa com o san­to”, estam­pa­do na pri­mei­ra pági­na do no1 do Voz.

02

Muita gen­te deve ter duvi­da­do de que o coe­di­tor era mes­mo, naque­le ano de 1970, o mai­or poe­ta vivo do Brasil, que, com a ami­ga, a jor­na­lis­ta Lya Cavalcanti, lan­ça­va aque­la publi­ca­ção­zi­nha min­gua­da. Não só era ver­da­de como tam­bém para a dupla cons­ti­tuía emprei­ta­da seriís­si­ma. Fermentava havia alguns anos nas cabe­ças dos dois ami­gos, que já tinham mes­mo pen­sa­do em fazer, jun­tos, um pro­gra­ma sobre bichos na então PRA-2, Rádio Ministério da Educação, onde Lya tra­ba­lha­va.

Drummond e Lya Cavalcanti foram apre­sen­ta­dos um ao outro pelo tam­bém jor­na­lis­ta e poe­ta Odylo Costa, filho, em 1947, quan­do ela che­gou de Londres, onde fora cro­nis­ta da BBC duran­te a Segunda Guerra Mundial, trans­mi­tin­do impres­sões sobre o coti­di­a­no na capi­tal ingle­sa. Anos depois, foi con­vi­da­da para fazer, na Rádio Ministério da Educação, um pro­gra­ma radi­ofô­ni­co diá­rio cha­ma­do Dois dedos de pro­sa, de ape­nas sete minu­tos, duran­te os quais podia abor­dar qual­quer assun­to. Apaixonada por ani­mais como era, não per­de­ria a opor­tu­ni­da­de de tra­tar de temas rela­ti­vos aos bichos.

Encontrou para isso um par­cei­ro. Na expres­são dela, o “capan­ga”. É que naque­le mes­mo ano de 1954, Drummond estre­ou no Correio da Manhã com a crô­ni­ca “A pipa”, publi­ca­da em 9 de janei­ro. Só dei­xa­ria a cola­bo­ra­ção naque­le jor­nal em 1969, quan­do se trans­fe­riu para o Jornal do Brasil. Tanto em um como no outro, o cro­nis­ta, às cla­ras ou de for­ma vela­da, sus­ten­tou com a ami­ga uma par­ce­ria fiel e calo­ro­sa pelo bem dos ani­mais. Muitas de suas crô­ni­cas daque­le ano de 1954 pre­ten­di­am ser refor­ço às radi­ofô­ni­cas de Lya. Reforço ou eco. Ele no Correio e Lya na PRA-2 fazi­am uma espé­cie de dobra­di­nha oral e escri­ta pela cau­sa dos ani­mais.

Assim, em “Gente, bicho”, de 30 de julho daque­le ano, Drummond adver­tia bela­men­te que “amor não dis­tin­gue, antes se pro­pa­ga em cír­cu­los con­cên­tri­cos; amar os ani­mais é uma espé­cie de ensaio geral para nos amar­mos uns aos outros”. E não negou apoio à cam­pa­nha pela erra­di­ca­ção da rai­va em “Sem vaci­na”, de 26 de novem­bro do mes­mo ano. Exercia uma fide­li­da­de ati­va e, sobre­tu­do, com­pro­me­ti­da, como em “O san­to; os bichos”, de 3 de outu­bro de 1957, em que abor­da o aspec­to jurí­di­co da vida do ani­mal.

A cum­pli­ci­da­de de 1954 foi tão envol­ven­te, que no fim do ano Drummond propôs a Lya faze­rem um pro­gra­ma sobre bichos, ain­da na Rádio Ministério. Ela, que não apren­de­ra nada sobre pon­tu­a­li­da­de no perío­do lon­dri­no, reco­nhe­cia dian­te de todos sua irres­tri­ta inca­pa­ci­da­de de cum­prir pra­zos. E como não igno­ra­va o esti­lo orga­ni­za­do do poe­ta, teve medo do com­pro­mis­so. Enviou-lhe car­ta com as suas jus­ti­fi­ca­ti­vas:

Minha ideia (se o seu orgu­lho per­mi­tir) é que eu aju­de você de alma e cora­ção, mas que o pro­gra­ma
seja intei­ra­men­te seu. Se for fala­do por nós dois e pos­si­vel­men­te por mais gen­te, como eu acho que
devia ser, pois isso valo­ri­za­ria enor­me­men­te a coi­sa, meu nome pode apa­re­cer como par­ti­ci­pan­te,
con­for­me apa­re­ceu da outra vez. […] Mas sin­ce­ra­men­te eu pre­fe­ria não sen­tir a res­pon­sa­bi­li­da­de de
ganhar dinhei­ro, ou ter o nome como coau­to­ra do pro­gra­ma, para depois você ficar com todo o
tra­ba­lho, ou então subor­di­ná-lo à minha pre­gui­ça, ou carên­cia de ima­gi­na­ção.

 

Não foi por essa nega­ti­va de Lya que a par­ce­ria se des­fez. Mesmo depois que ela saiu da PRA-2, Drummond con­ti­nu­ou a aju­dá-la nas cam­pa­nhas, e na crô­ni­ca “SUIPA”, de 13 de junho de 1957, ele escre­veu:

Recusei mes­mo fili­ar-me à Academia de Letras do Café e Bar Bico, no Posto 6. Mas à SUIPA eu per­ten­ço
com mui­ta hon­ra e gos­to. Sou can­di­da­to ao Conselho Consultivo e pro­me­to acon­se­lhar sem­pre com
sabe­do­ria, pru­dên­cia e jus­ti­ça, depois de ouvir, é cla­ro, meus que­ri­dos con­se­lhei­ros par­ti­cu­la­res:
Puck (um cão­zi­nho velho) e Inácio (um gati­nho novo).

 

O nome que Drummond esco­lheu para o seu cão é de uma per­so­na­gem de A Midsummer Night’s Dream, que se defi­ne com a mer­ry wan­de­rer of the night. Quanto a Inácio, apa­re­ce em “Imagens par­ti­cu­la­res: Inácio: onde?”, de 30 de julho de 1959, que, com peque­nas modi­fi­ca­ções, rece­beu o títu­lo de “Perde o gato”, incluí­da em Cadeira de balan­ço. Termina com esta argu­ta obser­va­ção da psi­co­lo­gia feli­na:

Se Inácio esti­ver vivo e não seques­tra­do, vol­ta­rá sem expli­ca­ções. É pró­prio do gato sair sem pedir
licen­ça, vol­tar sem dar satis­fa­ção. Se o rou­ba­ram é home­na­gem a seu char­me pes­so­al, mis­to de
cir­cuns­pe­ção e leve­za; tra­tem-no bem, nes­se caso, para jus­ti­fi­car o rou­bo, e ain­da por­que mal­tra­tar
ani­mais é uma for­ma de deso­nes­ti­da­de. Finalmente, se tiver de vol­tar, gos­ta­ria que o fizes­se por con­ta
pró­pria, com suas patas; com a alti­vez, a sere­ni­da­de e a ele­gân­cia dos gatos.

Se anos atrás Drummond pro­pu­se­ra a Lya faze­rem um pro­gra­ma sobre bichos, em 1970 ela o desa­fi­ou a fun­dar um jor­nal que mani­fes­tas­se a opi­nião dos ani­mais, a qual ela mes­ma se encar­re­ga­ria de tra­du­zir. Desafio em qua­dri­nha irre­ve­ren­te:

Please, meu caro poe­ta
Deixa de ser um empa­ta
E com seu dedo de este­ta
Faz o que pede esta cha­ta

Drummond não só acei­tou o con­vi­te, com entu­si­as­mo, como tam­bém em 8 de outu­bro de 1970, no Jornal do Brasil, qua­tro dias depois do lan­ça­men­to do A Voz dos que Não Falam, divul­ga­va a publi­ca­ção na crô­ni­ca de mes­mo títu­lo:

Convidado a par­ti­lhar da dire­ção do órgão, topei com assa­nha­men­to. […] Lya enten­de, e com ela mui­tos
filó­so­fos, que enquan­to não sou­ber con­vi­ver com os bichos, assu­min­do a res­pon­sa­bi­li­da­de de
pro­te­gê-los e res­pei­tá-los em sua con­di­ção de seres vivos, o homem está lon­ge de mere­cer o
nome de civi­li­za­do.

Lya Cavalcanti não fazia por menos: o jor­nal­zi­nho tinha pre­ten­são de ser “o The New York Times dos bichos pobres”, afir­ma­va ela. Publicava minir­re­por­ta­gens de casos cani­nos ou feli­nos e uma par­te opi­na­ti­va que não fugia de temas com­ple­xos rela­ti­vos aos ani­mais, como a euta­ná­sia. Àquela altu­ra, Lya, tra­du­to­ra jura­men­ta­da de pres­tí­gio, aban­do­na­va as fun­ções para se dedi­car inte­gral­men­te aos bichos, mas ain­da não dava con­ta dos pra­zos.

Não esta­va só com Drummond nes­sa pai­xão. O amor por ani­mais é tão abun­dan­te entre inte­lec­tu­ais que o minei­ro Eduardo Frieiro ocu­pou-se só de escri­to­res ani­ma­lis­tas num peque­no ensaio em que con­ta a deli­ci­o­sa his­tó­ria da lon­ga ami­za­de de Francis de Miomandre com um cama­leão. Dizia o escri­tor fran­cês que seu cama­leão muda­va de cor, não só por mime­tis­mo, como tam­bém por afei­ção; era sen­ti­men­tal. E que, ao ser apre­sen­ta­do ao poe­ta Paul Valéry, o rép­til ficou ver­de-esme­ral­da. “Pôs o far­dão aca­dê­mi­co”, obser­vou Miomandre.

Mas vol­te­mos à publi­ca­ção. A ideia era de que o Voz fos­se men­sal foi por água abai­xo: Lya, com os adi­a­men­tos de sem­pre, não acha­va tem­po para cum­prir o cro­no­gra­ma. Como o núme­ro 2 do jor­nal­zi­nho não tives­se saí­do em novem­bro, falhan­do assim a pro­gra­ma­ção logo no iní­cio, saí­ram, em dezem­bro, os núme­ros 2 e 3.

Nem assim Drummond se con­for­mou com a fal­ta. Na crô­ni­ca “Um jor­nal dife­ren­te”, do Jornal do Brasil de 12 de janei­ro de 1971, ele, que leva­va o Voz mui­tís­si­mo a sério, não escon­de o desa­pon­ta­men­to com o atra­so do perió­di­co, embo­ra se esfor­ças­se por jus­ti­fi­cá-lo:

A Voz dos que Não Falam, um jor­nal mui­to “baca­na”, órgão ofi­ci­o­so dos bichos ditos irra­ci­o­nais,
edi­ta­do pela sra. Lya Cavalceanti com a coni­vên­cia des­te cro­nis­ta. Dizia-se men­sal, o pri­mei­ro núme­ro,
saí­do em outu­bro, fez suces­so na pra­ça General Osório, e depois…

Lya des­cul­pa­va-se com o ami­go em bilhe­tes cari­nho­sos, que come­ça­vam por “Coacatu [bom dia, em tupi], meu que­ri­do”. Considerava “pre­sen­te régio” para a cau­sa dos ani­mais as crô­ni­cas que Drummond lhes dedi­ca­va. Declarava-se enver­go­nha­da por não cum­prir os pra­zos, refa­zia pro­mes­sas, atri­buía a demo­ra a “moti­vo de cachor­ro”, mas meses foram se pas­san­do e o no 4 do Voz só sai­ria em 4 de outu­bro do ano seguin­te, 1971.

Daquela vez não hou­ve char­me ou qua­dri­nha de Lya que des­se jei­to: o coe­di­tor per­deu a paci­ên­cia e desis­tiu da par­ce­ria. No exem­plar da cole­ção do biblió­fi­lo Plínio Doyle, que o rece­beu das mãos do pró­prio Drummond, lê-se a ano­ta­ção do poe­ta, metó­di­co infa­lí­vel que fez ques­tão de regis­trar, a mão: “Este núme­ro já saiu sob a dire­ção exclu­si­va de Lya Cavalcanti. C.D.A.”.

Se não aguen­tou os atra­sos de Lya, con­ti­nu­ou a apoiá-la, a ela e aos bichos, como fez em “Os ani­mais, a cida­de”, de 7 de outu­bro de 1971, em que noti­cia a bên­ção dos ani­mais daque­le ano, ao lado de cari­nho­sas refe­rên­ci­as à ami­ga. O no 8  do Voz encer­ra­ria a regu­la­ri­da­de de publi­ca­ção anu­al, que pas­sa­ria a ser espo­rá­di­ca e já sem indi­ca­ção de núme­ro. Com o tem­po, per­deu tam­bém o for­ma­to de jor­na­le­co. Mais pare­cia um rela­tó­rio, não fos­se um ou outro tex­to de Lya, car­re­ga­do da for­ça de suas opi­niões.

Quanto a Drummond, home­na­ge­ou a ami­ga inú­me­ras vezes. O lei­tor de hoje tal­vez não sai­ba que é ela a per­so­na­gem de “L.C.”, de 2 de junho de 1960, ou de “Lya, Odylo”, de 31 de mar­ço de 1965, e de tan­tas outras crô­ni­cas. Em nenhu­ma, a lou­va­ção foi tão alta como em “Lya, a lou­ca admi­rá­vel”, de 17 de janei­ro de 1976, ao con­si­de­rar a ami­ga pos­sui­do­ra “da cha­ma do amor uni­ver­sal, de que deri­va seu amor aos ani­mais”.

Os dois ami­gos não esti­ve­ram jun­tos ape­nas na luta pela cau­sa dos bichos. Naquele mes­mo ano de 1954 em que fize­ram a dobra­di­nha, pro­ta­go­ni­za­ram, tam­bém na PRA-2, o “Quase Memórias”, pro­gra­ma que cons­tou de uma série de oito ses­sões de deli­ci­o­sas entre­vis­tas, rea­li­za­das aos domin­gos e anos depois reu­ni­das em livro sob o títu­lo de Tempo, vida, poe­sia: con­fis­sões no rádio. Ninguém entre­vis­tou o poe­ta com tan­ta ousa­dia, com tan­ta gra­ça, nem ele jamais se mos­trou tão afe­ti­vo quan­to nes­se papo rica­men­te des­pre­ten­si­o­so.

Em 17 de agos­to de 1987, quan­do a “inde­se­ja­da das gen­tes” levou Drummond, o Voz, que havia mui­to ago­ni­za­va, res­sur­giu com um arti­go de Lya.

[…] mas eu sem­pre o cha­mei de “meu capan­ga” por­que ele esta­va inva­ri­a­vel­men­te a pos­tos para apoi­ar,
pres­ti­gi­ar e endos­sar qual­quer movi­men­to que pre­ten­des­se melho­rar de qual­quer for­ma a con­di­ção do
ani­mal nes­te mun­do. E ago­ra tenho a impres­são de pisar em fal­so sem as opi­niões e enco­ra­ja­men­tos
de quem duran­te trin­ta anos nun­ca fal­tou a uma bri­ga por bicho.

03

04

Lya Cavalcanti mor­reu em 17 de novem­bro de 1998. Drummond fora pro­fé­ti­co: dizia à ami­ga que ela faria o necro­ló­gio dele, e não o inver­so.

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