É muito difícil um bom realista

Correspondência

27.11.12

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Berkeley, 26/11/12

Querido Ronaldo,

Puxa, achei você meio depri­mi­do. Quase te con­vi­dei para tomar umas cer­ve­jas e comer um esqui­li­nho fri­to, bem ten­ro.

Por que o hor­ror? Se come­mos com o mai­or pra­zer caran­gue­jos-bebês ain­da sem cas­ca e por­qui­nhos mal saí­dos da ama­men­ta­ção!

Clarice tem uma his­tó­ria for­mi­dá­vel de uma gali­nha que ela ado­ra­va em meni­na e que foi mor­ta e ser­vi­da no almo­ço fami­li­ar. Ela come­çou a cho­rar, mas foi repa­ran­do no arroz bran­co sol­ti­nho, no molho par­do, foi se sen­tan­do à mesa, e ain­da com as lágri­mas escor­ren­do come­çou a devo­rar a ama­da, ani­ma­dís­si­ma, em êxta­se. Depois pen­sou: e quan­do eu cres­cer tem os homens.

Veja como eu con­so­lo a depres­são dos ami­gos. Tratamento de cho­que. Mas não. Você está é um pou­co tris­te. Esse negó­cio de dar os livros é de matar. Estive down no ano pas­sa­do com a mes­ma situ­a­ção, tive uns sonhos arra­sa­do­res.

(Aliás achei tris­tís­si­ma aque­la ideia de você devol­ver alguns livros e ficar con­ten­te por eles “retor­na­rem ao lar”. Dá o que pen­sar).

Francisco Alvim, nos­so  poe­ta, é que jamais pas­sa­ria por essa situ­a­ção. Viajava em ser­vi­ço com meta­de da bibli­o­te­ca. Acho que já te falei sobre isso. Um dia, em Barcelona, per­gun­tei: mas você vai ler todos esse livros em três anos? A Clara ficou rin­do como quem sabe das coi­sas e ele dis­se: mas não é só para ler. É uma com­pa­nhia. Quando estou mal, olho uma estan­te e pen­so: olha ali o Baudelaire,  ah, que mara­vi­lha! E o Drummond, tão magri­nho, espre­mi­do no ôni­bus, per­dão, na pra­te­lei­ra reple­ta!

Outro  lei­tor pare­ci­do é um ami­go pau­lis­ta, que só pode morar nos anda­res tér­re­os dos edi­fí­ci­os, os milhões de livros pesam demais. Um enge­nhei­ro me dis­se que livro é como água, cujo peso é tre­men­do.

Mas nós pas­sa­mos lon­ge des­se ris­co. Nos livra­mos dos livros e expe­ri­men­ta­mos um cer­to sen­ti­men­to de cul­pa. Porque com­pra­mos demais, por­que rece­be­mos e pas­sa­mos adi­an­te, por­que não lemos tudo.

Outro dia um exce­len­te alu­no sal­va­do­re­nho me per­gun­tou por­que nós, bra­si­lei­ros, cha­ma­mos de “sebo”, livra­ria de livros usa­dos. Falei: não sei. Depois pen­sei  um pou­qui­nho, me lem­brei do pau de sebo, todo unta­do, por onde os meni­nos ten­tam subir nas fes­tas de S. João, mas sem­pre escor­re­gam, con­tei isso a ele e dis­se: não tenho cer­te­za, pode não ser isso, mas tal­vez seja por­que os livros escor­re­gam de umas mãos para outras, são pas­sa­dos adi­an­te.

Ele sor­riu e dis­se: será que é ver­da­de? Posso con­fi­ar em você?

E eu: não, não con­fie. É só uma hipó­te­se.

Ele: mas é enge­nho­sa.

Eu, ali­vi­a­da: isso é.

Agora vou te con­tar, Ronaldo, uma que me acon­te­ceu no “Metido a Sebo”, títu­lo geni­al que o João Moura inven­tou para sua livra­ria de usa­dos e que depois  pas­sou para o Marciano.

Eu esta­va uma manhã bis­bi­lho­tan­do no sebo, o Marciano me apre­sen­tou a uns ven­de­do­res de livros mui­to sim­pá­ti­cos, um deles tam­bém escre­via, e eu então o acon­se­lhei a ler Natalia Guinzburg, no meu enten­der a mai­or escri­to­ra do sécu­lo XX. Mencionei “Caro Michele”, que é um livro que releio todos os anos, pelo menos tre­chos dele. Mas o livro esta­va esgo­ta­do (a Cosac repu­bli­cou há pou­co tem­po). Aliás, Ronaldo,você já leu? Se não, vou te dar de pre­sen­te de Natal. Mas não vá fazer como fez com o livro do Louzada, hein? E ain­da foi jun­to o “Repertório”, que acho real­men­te mui­to bom.

Está bem, está bem, não se zan­gue, com­pre­en­de­mos as fases tur­bu­len­tas. Como dizem no avião: colo­quem os cin­tos e não se levan­tem por­que esta­mos entran­do numa zona de tur­bu­lên­cia. Zona de tur­bu­lên­cia é de meter medo.

Bom, nis­so o Marciano veio lá de den­tro com um exem­plar de Caro Michele nas mãos. Eu dis­se, me dá aqui, vou fazer uma dedi­ca­tó­ria para nos­so ami­go, o livro é uma mara­vi­lha.

Quando abro, me depa­ro com uma dedi­ca­tó­ria minha  para uma ex-ami­ga da uni­ver­si­da­de. Dedicatória super cari­nho­sa, dizen­do que aque­le era um dos livros de que mais gos­ta­va no mun­do, mas tam­bém gos­ta­va mui­to dela e que­ria que ela o les­se.

Bom, fiquei depri­mi­dís­si­ma, meio ton­ta, per­gun­ta­ram se eu não que­ria água (mas afo­gar mágoa não dá, mágoa sabe nadar, sabe até pegar onda).  Resultado? Nada. Levei tem­po pra supe­rar a humi­lha­ção. Ela podia ter arran­ca­do a pági­na, cla­ro. Mas gen­te sem sen­si­bi­li­da­de é a tre­va, como diz a Virgínia.

Sua ideia foi bri­lhan­te: reen­vi­ar com aque­le P.S. Mas rara­men­te tenho pre­sen­ça de espí­ri­to, só no dia seguin­te, quan­do o bon­de já pas­sou. Fico logo arra­sa­da.

Você men­ci­o­nou Obama e me lem­brei logo de minha ami­ga cata­lã.  Ontem hou­ve uma mani­fes­ta­ção em S. Francisco con­tra a remes­sa grá­tis de armas para Israel. Aurora, uma alu­na, esta­va em minha offi­ce-hour, a um cer­to momen­to me dis­se: só tenho mais 5 minu­tos. Quando lhe per­gun­tei o moti­vo, ela falou da mani­fes­ta­ção e que pre­ci­sa­va ir. Estava bem tris­te.

Quanto ao rea­lis­mo, Ronaldo, segun­do a dica que você me deu, acho que é mui­to difí­cil. É mui­to difí­cil um bom rea­lis­ta, por­que não se tra­ta de ser docu­men­tal, ou de pra­ti­car um rea­lis­mo de facha­da, como dizia Adorno. Mas não que­ro falar dis­so, fica pare­cen­do aula e eu já estou can­sa­da de aulas. O semes­tre che­ga ao fim, os alu­nos pre­pa­ram os tra­ba­lhos, as minhas tur­mas vão envi­ar-me seus tex­tos por e-mail,  anda cho­ven­do mui­to, é outo­no, as árvo­res sol­tam as folhas que pare­cem de papel ver­me­lho e ama­re­lo, des­pe­di­das são sem­pre difí­ceis. Perguntam se vou vol­tar, digo “quem sabe?”, mas é pro­vá­vel que não vol­te.

Dizem que vão ter sau­da­de, o semi­ná­rio da pós está pre­pa­ran­do uma fes­ta em segre­do, uma dis­traí­da me con­tou e dis­se afli­ta, “era segre­do”, eu digo, “já esque­ci, não ouvi nada”.  Pedem tam­bém que eu escre­va algu­ma coi­sa sobre o tem­po vivi­do aqui, sobre a Califórnia. Digo que é mui­to difí­cil, não sei escre­ver assim.

Mas uma tar­de, pas­se­an­do no bair­ro com Luna, uma cade­la negra inte­li­gen­tís­si­ma, a Laura come­ça a falar vaga­men­te em esque­ci­men­to e nas coi­sas que vão desa­pa­re­cen­do. No dia seguin­te escre­vo um tex­to inti­tu­la­do “Saudades da Califórnia”, com uma epí­gra­fe de Robert Frost, poe­ta de S. Francisco. O tex­to fala de um escri­tor que rece­be a incum­bên­cia de um edi­tor para pro­du­zir um tex­to, mas ele não sabe escre­ver assim, ten­ta inven­tar assun­tos, mas não tem cer­te­za, não sabe, come­ça a falar de ara­nhas por cau­sa de um livro que esta­va len­do (tinha que entrar bicho na his­tó­ria) de repen­te apa­re­cem uma meni­na e um esqui­lo que estão per­di­dos num bos­que, o bos­que do esque­ci­men­to. Não sabem mais quem são, esque­ce­ram até seus nomes, e por­que esque­ce­ram podem pas­se­ar mui­to feli­zes, de bra­ços enla­ça­dos — não sei como con­se­gui­ram- mas cami­nhan­do dis­traí­dos, aca­bam atra­ves­san­do o bos­que, não há jei­to, o tem­po não para. Então eles recu­pe­ram as iden­ti­da­des, o esqui­lo foge assus­ta­do, a meni­na não sabe o que fazer, implo­ra: vem cá.

Na últi­ma linha o escri­tor pede des­cul­pas por­que per­ce­be que fugiu  intei­ra­men­te do assun­to.

Realismos, Ronaldo, rea­lis­mos.

Beijo,

Vilma

* Na ima­gem que ilus­tra a home des­se post: o poe­ta Robert Frost

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