Eis os imortais

Por dentro do acervo

12.04.13

Esta maté­ria de Paulo Mendes Campos, cedi­da pela edi­to­ra Abril para repu­bli­ca­ção no Blog do IMS, foi publi­ca­da ori­gi­nal­men­te em 1969, na revis­ta Realidade. O arqui­vo do escri­tor minei­ro está sob a guar­da do Instituto Moreira Salles des­de 2011.

Petit Trianon

A Academia Brasileira de Letras tem ilus­tres ape­li­dos: cená­cu­lo, soda­lí­cio, Petit Trianon, Trianonzinho… Casa de Machado de Assis! Este últi­mo — sin­ge­la mas habi­li­do­sa com­bi­na­ção de pala­vras — é in­vocado exa­ta­men­te quan­do se faz neces­sário des­vi­ar a aten­ção, dis­far­çar a ver­dade: a Academia não é só a casa do nos­so mai­or escri­tor; é de Machado de Assis, do Cláudio de Sousa, do Almi­rante Jaceguai, do Guimarães Rosa, do Jorge Amado, do Pedro Calmon, do Ge­túlio Vargas, do Barão do Rio Branco, do João Cabral de Melo Neto, do Conde de Afonso Celso, do Dom Aquino Correia…

Em uma pala­vra, a Academia sem­pre foi poten­ci­al­men­te de todos, os melho­res e os pio­res, escri­to­res e não escri­tores, civis e mili­ta­res, nobres e ple­beus, médi­cos e enge­nhei­ros, bran­cos e mes­tiços, direi­tis­tas e esquer­dis­tas, ricos e pobres, espí­ri­tos inven­ti­vos e espí­ri­tos que só con­se­gui­ram inven­tar o expe­diente elei­to­ral.

Uma ima­gem mui­to nos­sa

A Academia não é a ima­gem com­pleta de nos­sa lite­ra­tu­ra, mas é a me­lhor ima­gem do nos­so Brasil, o retra­to mais fiel da nos­sa con­fu­sa cul­tu­ra soci­al. Essa fata­li­da­de radi­o­grá­fi­ca con­ta pon­to a favor dos aca­dê­mi­cos, indi­can­do que se tra­ta de tem­pe­ra­men­tos espon­tâ­ne­os, sen­sí­veis ao meio, inca­pa­zes de cri­ar um cri­té­rio de sele­ção inar­re­dá­vel.

Por outro lado, como a ação cole­ti­va ou ins­ti­tu­ci­o­nal da Casa não che­ga a ser pon­de­rá­vel, mede-se o seu valor, a um momen­to dado, pelo mai­or ou me­nor núme­ro de bons ele­men­tos que lá se encon­tram, como em um time de fu­tebol: con­ta­gem mera­men­te esta­tís­ti­ca, pois os qua­ren­ta imor­tais nun­ca atu­am em con­jun­to. Valem pelo que pro­du­zem indi­vi­du­al­men­te.

Relegando a um segun­do pla­no a im­portância do cor­po de sóci­os, a Acade­mia che­gou a um reman­so­so e táci­to com­pro­mis­so: a orga­ni­za­ção não inco­moda os escri­to­res e os escri­to­res não inco­mo­dam a orga­ni­za­ção. A inquieta­ção cri­a­do­ra de cada um não se trans­fe­re à soci­e­da­de, assim como esta não espe­ra dos asso­ci­a­dos o bom com­por­ta­men­to aca­dê­mi­co. A não ser nas horas de ex­pediente, quan­do pra­xes e esta­tu­tos de­vem ser poli­da­men­te obser­va­dos.

A Academia Brasileira de Letras vai atin­gin­do a tran­qui­li­da­de, sem dúvi­da, aper­fei­ço­an­do as fun­ções que lhe permi­tem tor­nar-se um clu­be amá­vel. Abri­gando anti­gos ico­no­clas­tas, aco­lhen­do des­mon­ta­do­res da sin­ta­xe e rebel­des so­ciais, con­ti­nu­an­do a pes­car aqui e ali figu­rões que lhe são úteis, ela foge ao des­ti­no que não pode seguir — o de ser um órgão cul­tu­ral — e se faz uma casa de con­vi­vên­cia.

Depois da matu­ri­da­de, uma convivên­cia com­pla­cen­te é indis­pen­sá­vel à maio­ria dos homens: as ami­za­des contrastan­tes são as mais sabo­ro­sas. Que delí­cia ir des­co­brin­do que o odi­o­so ini­mi­go de ontem é um bom sujei­to, coi­ta­do! Que doçu­ra encon­trar no ridí­cu­lo poe­ta de trin­ta anos atrás um cora­ção de ouro! Que encan­to rece­ber de pre­sen­te uma ces­ta de Natal envi­a­da pelo roman­cis­ta dos pala­vrões! Que alí­vio ouvir o futu­rista reci­tar uma oita­va de Camões! Des­sa linha se tece o esto­fo das pol­tro­nas de todas as aca­de­mi­as. O aca­dê­mi­co é, antes de tudo, um ser bila­qui­a­no, isto é, nem bom nem mau, mas tris­te e hu­mano.

Consequência des­sa polí­ti­ca pací­fi­ca, a Academia se imu­ni­zou con­tra os ini­mi­gos. Como não se pro­põe a nada de sério, de refor­mis­ta, dis­ci­pli­na­dor ou dou­tri­ná­rio, seria insen­sa­to com­ba­tê-la. Não se mexe com quem está qui­e­to. Se o escri­tor bom dese­ja entrar, não é ver­go­nha; se é o mau escri­tor, não fi­cará sem com­pa­nhei­ros; se não é escri­tor, pou­co impor­ta.

— Aos vin­te anos — dizia Afrânio Peixoto — todos os escri­to­res são con­tra a Academia, ata­can­do-a furiosamen­te; aos trin­ta, todos são can­di­da­tos; aos qua­ren­ta, alguns são aca­dê­mi­cos.

Isto tal­vez fos­se um bom peda­ço da ver­da­de, hoje é dife­ren­te: os escri­to­res de vin­te anos não ata­cam a Academia e nem todos de trin­ta dese­jam ser aca­dêmicos.

À luz dos bicos de gás

O chá pre­ce­deu a Academia, e era chil­ro, isto é, insí­pi­do, segun­do o teste­munho de Coelho Neto. Era na Revista Brasileira, fun­da­da por José Veríssimo em 1895, que poe­tas, roman­cis­tas, en­saístas e his­to­ri­a­do­res entu­ma­vam à luz de bicos de gás. Como devi­am ser me­lancólicos e bri­lhan­tes esses anoi­te­ce­res!

Ali se encon­tra­vam habi­tu­al­men­te Ma­chado de Assis, Joaquim Nabuco, Graça Aranha, Bilac… A ideia da Academia foi de Lúcio de Mendonça. Os lite­ra­tos tinham fica­do sus­pei­tos como subversi­vos des­de a Inconfidência (o Conde de Resende dis­sol­ve­ra uma soci­e­da­de lite­rária fun­da­da por Silva Alvarenga). Em 1896, alguns dos homens de letras que­riam o patro­cí­nio ofi­ci­al, a que se opu­nham os monar­quis­tas — Nabuco, Laet, Taunay, Afonso Celso. A pri­mei­ra ses­são se rea­li­za a 15 de dezem­bro. São acla­ma­dos: Machado de Assis, presiden­te; Rodrigo Otávio e Pedro Rabelo, secre­tá­ri­os. Estatutos apro­va­dos em pou­cos dias, a ses­são inau­gu­ral só se reali­zaria a 20 de julho de 1897, no Pedagogium, na Rua do Passeio.

A pri­mei­ra vaga não foi por óbi­to, mas pela recu­sa do con­vi­da­do: Capistrano de Abreu decla­rou que lhe bas­ta­va per­ten­cer à soci­e­da­de huma­na, para a qual entra­ra sem ser con­sul­ta­do. Tornou-se assim uma espé­cie de patro­no dos que nun­ca namo­ra­ram a Academia: Má­rio de Andrade, Graciliano Ramos, Au­gusto Frederico Schmidt, Cavalcanti Proença, Gilberto Freyre, Erico Veríssi­mo, Mário Quintana, Vinícius de Mo­rais, Sérgio Buarque de Hollanda (o autor da repor­ta­gem, fal­sa­men­te infor­ma­do sobre a can­di­da­tu­ra des­te últi­mo, per­deu não sabe quan­tas gar­ra­fas de cer­ve­ja di­namarquesa em apos­ta com Chico Buar­que).

Os gre­gos no fim do sécu­lo

Enquanto se fun­da­va a Academia, o mun­do ia aper­fei­ço­an­do e apli­can­do as inven­ções do sécu­lo XIX: máqui­nas a vapor, estra­das de fer­ro, telé­gra­fo, tran­satlântico, tele­fo­ne, luz elé­tri­ca. Em No­va York já exis­tia uma cen­te­na de au­tomóveis de alu­guel. Breuer e Freud estu­da­vam a his­te­ria. Max Planck che­gava às pri­mei­ras con­clu­sões que desper­tariam Einstein. O pro­ces­so Dreyfus pu­nha a França em febre. Marx já tinha mor­ri­do, Lênin e Stálin come­ça­vam. Os impres­si­o­nis­tas pin­ta­vam, Debussy com­punha, Eça de Queirós che­ga­va ao fim do vio­len­to mural.

Enquanto isso, o Brasil era gre­go.

Foi Brito Broca quem espa­lhou isto: o Brasil era gre­go! Grego, lati­no e fran­cês! Em 1862 Tobias Barreto já havia con­fes­sa­do: “Sou gre­go”. Joaquim Na­buco não gos­ta­va que vis­sem no ami­go Machado de Assis o mula­to: “Pelo me­nos vi nele o gre­go”. E mui­tos acadê­micos con­ti­nu­a­ri­am gre­gos. Euclides era gre­go. Afrânio Peixoto era racis­ta, de sabor cien­tí­fi­co. Mais tar­de, a folha de mir­to, emble­ma da gló­ria na Grécia, seria esco­lhi­da para enfei­tar o far­dão aca­dê­mi­co. Bilac via Salamina nas rega­tas de Botafogo. Até Monteiro Lobato foi gre­go e racis­ta, achan­do que o mes­tiço era “uma vin­gan­ça incons­ci­en­te dos negros” e que o Rio era “a con­tra-Grécia”.

Por olím­pi­ca iro­nia, a Grécia brasi­leira entrou em colap­so quan­do o imor­tal Coelho Neto bra­dou sous la cou­po­le esta sen­ten­ça dig­na de um almi­ran­te bata­vo:

— Eu sou o últi­mo dos hele­nos!

Depois, os estou­va­dos moder­nis­tas de São Paulo, mais os estou­va­dos moder­nis­tas do Rio, de Minas e do Nordeste, bagun­ça­ram a Hélade sul-ame­ri­ca­na, bri­gan­do por abra­si­lei­rá-la: não é cer­to se o con­se­gui­ram, mas pro­va­ram que gre­gos não somos. Aliás, como afir­mou em pales­tra públi­ca um escul­tor minei­ro, nem os gre­gos foram tão gre­gos quan­to dizem.

Cenário de ópe­ra-bufa

O ano de 1897 — o da ses­são inau­gural — foi de pon­ta a pon­ta inquietan­te no Brasil. A colu­na de Moreira César era des­ba­ra­ta­da a cami­nho de Canudos. Jacobinos e monar­quis­tas vivi­am de pau­ladas e pedra­das no cen­tro do Rio. Jor­nais des­truí­dos, suble­va­ção nas esco­las mili­ta­res, demis­sões, exí­li­os, des­res­pei­to às imu­ni­da­des par­la­men­ta­res.

No fim do ano, depois do mas­sa­cre de Canudos, o ans­pe­ça­da Marcelino Bispo ten­ta assas­si­nar Prudente de Morais, mata o minis­tro da Guerra, fere o che­fe da Casa Militar e outro ofi­ci­al. Os pre­ços do café caíam, a indus­tri­a­li­za­ção não vinha, a pre­vi­são do défi­cit orça­men­tá­rio era de dar medo.

No ano seguin­te, Campos Sales, pre­sidente elei­to, vai à Europa dar um jei­to, meio humi­lhan­te embo­ra, nas dívi­das naci­o­nais. As medi­das defla­ci­o­ná­ri­as de Joaquim Murtinho pro­vo­cam falên­ci­as e sufo­cam o cré­di­to. De qual­quer modo, se os cofres estão vazi­os, se os ricos estão menos ricos, se os pobres estão mais pobres, mais uma vez o Brasil está sal­vo.

Acadêmicos

No ano seguin­te, Campos Sales, pre­mo­rar. É pobre. Mudou-se do Pedagogium para o Ginásio Nacional, des­te para a Biblioteca Fluminense, daí para o escri­tó­rio de Rodrigo Otávio. Por fim, por ato ofi­ci­al do econô­mi­co Campos Sales, ins­ta­lou-se na Lapa, em uma ala do Silogeu. Quando, seis anos mais tar­de, a sub­ven­ção ofi­ci­al de 20 con­tos per­mi­tiu que se cri­as­se o jeton, con­ta Manuel Bandeira, o júbi­lo foi gran­de: “Não pelo dinhei­ro, que mal paga­va qua­tro cor­ri­das de tíl­bu­ri até Botafogo ou Laranjeiras, mas por­que na Academia Francesa havia jeton, e por­tan­to imor­talidade sem jeton soa­va ain­da como meia imor­ta­li­da­de”.

A Academia deve gra­ti­dão, a mais sua­ve das dívi­das, a três mãos que se abri­ram: a do livrei­ro Francisco Alves, que, por obra e gra­ça de Rodrigo Otávio, lhe dei­xou a for­tu­na em imó­veis; a do Governo da França, que, por obra de Afrânio Peixoto e gra­ça do embai­xa­dor fran­cês, lhe dei­xou o Petit Trianon; a de Getúlio Vargas, que lhe con­ce­deu a pos­se defi­ni­ti­va do pré­dio.

Cláudio de Sousa defen­de a munifi­cência do tes­ta­men­to Alves com estas pala­vras estar­re­ce­do­ras: “Algumas des­sas cri­a­tu­ras mal­di­tas, que pare­ce tra­ze­rem na cai­xa cra­ni­a­na o alam­bi­que onde des­tilam o breu negro de seus maus instin­tos, e nas mãos bro­xas hís­pi­das para mas­car­rar e vili­fi­car as repu­ta­ções alhei­as, besun­tan­do-as com esse piche de sua pró­pria suji­da­de, deram a crer que Francisco Alves bus­ca­ra com o le­gado uma cele­bri­da­de pós­tu­ma”. Mas não diz se é ver­da­de ou não que uma das cláu­su­las tes­ta­men­tá­ri­as exi­ge da Academia o cum­pri­men­to de cer­tas obri­gações a res­pei­to do ensi­no pri­má­rio. Nem tudo que se quer pós­tu­mo é cele­bridade.

Quanto ao Petit Trianon, tra­ta-se do pré­dio que abri­gou a expo­si­ção fran­cesa nas fes­tas do cen­te­ná­rio da inde­pendência: cópia do pala­ce­te, em Ver­salhes, que Maria Antonieta adap­tou para espe­tá­cu­los de ópe­ra-bufa.

O xadrez elei­to­ral

Ao con­trá­rio dos polí­ti­cos, quem se can­di­da­ta à Academia, em vez de for­jar umslo­gan, deve adap­tar-se aos slo­gans elei­to­rais lá de den­tro. Como estes não estão explí­ci­tos, é pre­ci­so pesqui­sá-los, adi­vi­nhá-los. A Academia é um orga­nis­mo que rea­ge de acor­do com a vari­e­da­de dos pro­du­tos quí­mi­cos que lhe tocam as entra­nhas; assim, cada can­didato é um pro­du­to dife­ren­te, assimi­lável ou não, áci­do ou bási­co, tóxi­co ou nutri­ti­vo, de fácil ou difí­cil diges­tão. A rea­ção aca­dê­mi­ca depen­de da qua­li­da­de bio­ló­gi­ca do indi­ví­duo no momen­to pre­ciso da can­di­da­tu­ra. O can­di­da­to em po­tencial, por­tan­to, só deve ins­cre­ver-se quan­do os órgãos capa­zes de assi­mi­lá-lo estão em mai­o­ria. Mais valem nes­se jogo as suti­le­zas ins­tin­ti­vas que as pro­messas de voto. Um erro de intui­ção, e lá vai o can­di­da­to pelo cano.

Se cada caso é dife­ren­te, alguns dos prin­cí­pi­os elei­to­rais ser­vem de orienta­ção geral, quer o can­di­da­to os tome por axi­o­mas ou ara­pu­cas. Por exem­plo:

“O voto se pede na alça do cai­xão do defun­to.”

“Eleição é cam­ba­la­cho.”

“A Academia é uma ques­tão de cir­cunstância.”

“Victor Hugo ins­cre­veu-se cin­co vezes!”

“Se eu fos­se você, reti­ra­va a candida­tura e vol­ta­va na pró­xi­ma.”

Quando o pre­si­den­te Austregésilo de Athayde garan­te que “os mem­bros da Academia, nas elei­ções dos imor­tais, ado­tam cri­té­ri­os tão hones­tos quan­to o colé­gio dos car­de­ais na elei­ção do papa”, pode­mos ter por infa­lí­vel esta ver­da­de: as elei­ções no Vaticano, Deus nos per­doe, não podem ser mui­to cató­li­cas.

A Academia já ado­ta há bas­tan­te tem­po o pro­ces­so de qua­tro escru­tí­ni­os: “Eu te dou meu voto no segun­do e no quar­to, mas no ter­cei­ro e no pri­mei­ro.. .”. Esse pon­to de tricô aju­da a embru­lhar o can­di­da­to. Voto pro­me­ti­do, mes­mo jura­do em nome de Machado de Assis — é voz geral -, não quer dizer nada. Sente-se mediu­ni­ca­men­te a vota­ção; a arit­mé­ti­ca dos com­pro­mis­sos é sobre­natural.

Afirmam os enten­di­dos que os mais impor­tan­tes mano­brei­ros elei­to­rais são Afrânio Coutinho, Pedro Calmon, Pere­grino Júnior e Josué Montello. Cassiano Ricardo e Menotti dei Picchia encar­re­gam-se do setor pau­lis­ta. De fato, todos se ani­mam nas fases elei­to­rais, e é de se ima­gi­nar, só de leve, com aque­le arre­pio de quem se apro­xi­ma da ver­da­de en­coberta, se a mor­te do com­pa­nhei­ro não rece­be o con­so­lo, míni­mo embo­ra, do sopro de vida que virá no calor da elei­ção. Votar é viver, e é por esse moti­vo que os povos sem urnas per­dem a for­ça.

Pelo pri­mei­ro cam­ba­la­cho notá­vel são apon­ta­dos como res­pon­sá­veis dois no­mes cas­tos: o Barão do Rio Branco e o pró­prio Machado de Assis. Foi em 1905, na vaga de José do Patrocínio, quan­do se apre­sen­ta­ram Mário de Alencar, filho do autor deIracema, e Domingos Olím­pio, autor de Luzia-Homem. O pri­mei­ro era pou­co mais que um estre­an­te, com dois livros de ver­sos publi­ca­dos, mas era filho de José de Alencar e ami­go do pre­si­den­te per­pé­tuo da Academia; o segun­do era escri­tor conhe­ci­do, de obra fei­ta, mas nin­guém con­se­guiu conven­cer o Barão de que Domingos Olímpio não era tam­bém autor de uns arti­gos con­tra ele. Entrou tam­bém no páreo, de ino­cen­te, o Padre Severiano de Resende. Resultado: Padre Resende, um voto; Do­mingos Olímpio, nove votos; Mário de Alencar, deze­no­ve votos.

Precisa, mas não gos­ta

Para Manuel Bandeira, a mai­or injus­tiça da Academia foi ter dei­xa­do o fi­lólogo Sousa da Silveira de fora (quan­do a ins­ti­tui­ção arque­ja­va pelo menos por um gra­má­ti­co), esco­lhen­do Pereira da Silva. Aliás, a Academia pre­ci­sa, mas pare­ce não gos­tar de gra­má­ti­cos. O que, pen­san­do bem, tal­vez seja melhor: se atu­lham a Academia de gra­má­ti­cos, eles podem aca­bar ditan­do regras lá den­tro e aqui fora.

Os esta­tu­tos, é cer­to, man­dam cui­dar da lín­gua. Mas quem vai cui­dar? Como cui­dar? De quem cui­dar? Que lín­gua ins­tau­rar como padrão? A do Guimarães Rosa? A do Aurélio Buarque de Hollanda? A do Ataúlfo ou a do Jorge Amado? Por ins­tin­to ou por uma feliz combina­ção de inci­den­tes, o augus­to cená­cu­lo não se pre­pa­rou para essa tare­fa:tant mieux! como dizia o Aluísio de Castro.

O Brasil pre­ci­sa, sim, há mui­to tem­po, de um gru­po de tra­ba­lho, pou­co nu­meroso mas com­pe­ten­te e bem pago, que ver­tes­se para o por­tu­guês a cata­du­pa de ter­mos téc­ni­cos e semi­téc­ni­cos que a lín­gua ingle­sa lan­ça anu­al­men­te em nos­so inde­fe­so voca­bu­lá­rio. Na Espanha a Real Academia se incum­be des­sa fil­tragem adu­a­nei­ra.

Jeitinhos e deser­to­res

O jei­ti­nho do expo­en­te subiu à cate­goria decri­té­rio des­de que Nabuco o invo­cou para dar cober­tu­ra à bata­lha do Almirante Jaceguai(Jazagoi, como escre­veu o secre­tá­rio de Anatole France). Dois anos depois, o cri­té­rio-gazua era nova­men­te usa­do para abrir as por­tas do Trianon a Lafaiete Rodrigues Pereira: tinha pro­me­ti­do (con­tam os mal­di­tos) a bele­za do Monroe aos aca­dê­mi­cos.

O caso de Lauro Müller foi mais com­pli­ca­do: sem ser escri­tor e sem livro publi­ca­do (não con­fun­dir), foi necessá­rio que se impri­mis­se em Paris um dis­curso do ilus­tre enge­nhei­ro. Em papel gros­so e letras gar­ra­fais, de acor­do com a visão malé­vo­la de Lima Barreto. Lau­ro Müller, der­ro­tan­do Ramiz Galvão, fez José Veríssimo renun­ci­ar ao car­go de secre­tá­rio e nun­ca mais vol­tar ao ame­no con­ví­vio.

ABL e Machado

Outros deser­ta­ram por diver­sos moti­vos. Rui Barbosa, por não terem apu­rado um voto seu envi­a­do por tele­gra­ma. Oliveira Lima, por não ter con­cor­da­do com ojeton. O juris­ta Clóvis Beviláqua por­que a Academia não acei­tou a ins­cri­ção de sua espo­sa à vaga de Alfredo Pujol. Graça Aranha, depois de afir­mar na famo­sa ses­são de junho de 1924 que a Academia tinha sido fun­da­da por equí­voco, depois de ser car­re­ga­do em triun­fo pelo jovem Alceu Amoroso Lima (hoje ocu­pan­te da qua­dra­gé­si­ma pol­tro­na), depois de ouvir o gri­to helê­ni­co de Coe­lho Neto, depois de afir­mar que não éra­mos “a câma­ra mor­tuá­ria de Portugal”, never more, nun­ca mais vol­tou lá.

O mai­or escân­da­lo não hou­ve: Emílio de Meneses (veta­do enquan­to Machado de Assis viveu) teve seu dis­cur­so censu­rado, pro­me­teu ler no dia da pos­se o tex­to ori­gi­nal. Foi um cor­re-cor­re, um dei­xa-dis­so. Mas o gor­do Emílio, pio­nei­ro da bebi­da que tomou con­ta da nos­sa clas­se média para cima, o uís­que, mor­reu antes da pos­se.

Uma Academia de Letras tem sem­pre nume­ro­so reper­tó­rio de inci­den­tes. Rodrigo Otávio Filho con­tou a Guilherme de Figueiredo que Roberto Simonsen che­gou uma vez a pre­pa­rar uma ceia de ses­sen­ta talhe­res no Copacabana Palace e per­deu essa elei­ção.

Mas o con­to deci­di­da­men­te fúne­bre é do General Sousa Doca. Por cau­sa de Getúlio Vargas, a Academia modi­fi­ca­ra o cri­té­rio de apre­sen­ta­ção: se dez aca­dêmicos assi­nas­sem a indi­ca­ção de al­guém, e esse alguém anuís­se por car­ta à imor­ta­li­da­de, esta­va tudo resol­vi­do. Eleito Getúlio por esse cri­té­rio, o mes­mo pre­va­le­ceu na vaga seguin­te, quan­do se ins­cre­veu o Coronel Afonso de Carva­lho, do gabi­ne­te do Ministro da Guerra Eurico Dutra. Como os aca­dê­mi­cos não qui­ses­sem o coro­nel, cata­ram às pres­sas um gene­ral, Sousa Doca, dedi­ca­do aos vaga­res da pes­qui­sa his­tó­ri­ca depois de refor­ma­do. Doze aca­dê­mi­cos apresenta­ram a can­di­da­tu­ra do gene­ral. Aí mor­re o Coronel Afonso de Carvalho. O ge­neral é can­di­da­to úni­co. Barbada! Ele espe­rou a elei­ção em fes­ta. Teve cin­co votos. Morreu no dia seguin­te.

A mor­te na cadei­ra 13

A cadei­ra núme­ro 13 era naturalmen­te fatí­di­ca. Tem por patro­no o poe­ta Francisco Otaviano (daque­les ver­sos: “Quem pas­sou pela vida em bran­cas nu­vens …”). O sócio fun­da­dor, Visconde de Taunay, sen­tou-se nes­sa pol­tro­na sim­bólica e agou­ren­ta pou­co mais de um ano. Eleito, o médi­co bai­a­no Francisco de Castro não che­ga a tomar pos­se. O per­nam­bu­ca­no Martins Júnior, tam­bém elei­to, mor­re antes de assu­mir. O per­nam­bu­ca­no Sousa Bandeira, tio do Ma­nuel, ganha de Osório Duque Estrada (o “guar­da-notur­no das letras”) e aguen­ta de 1905 a 1917. Em 1919, o minei­ro Hélio Lobo exor­ci­zou a cadei­ra. Ficou nela cer­ca de qua­ren­ta anos.

Por um dis­cur­so de Félix Pacheco, em 1934, pode­mos ava­li­ar o dra­ma que des­com­pas­sa a Academia Brasileira de Letras. A média esta­tís­ti­ca de falecimen­tos era de um aca­dê­mi­co em dez meses. Naquele ano abri­ram-se as vagas de Au­gusto de Lima, Medeiros e Albuquerque, Gregório da Fonseca, João Ribeiro, Mi­guel Couto, Coelho Neto e Humberto de Campos. A penú­ria em que mor­re­ram alguns deles, depois de duras existên­cias de tra­ba­lho, pro­vo­cou os mes­mos comen­tá­ri­os de sem­pre, con­tra edi­to­res e donos de jor­nais. No ano seguin­te mor­ria o pró­prio Félix Pacheco.

Uma ques­tão de gra­má­ti­ca

A his­tó­ria aca­dê­mi­ca é infin­dá­vel. Monteiro Lobato foi o can­di­da­to mais arre­pen­di­do, pra fren­te, pra trás, como um moli­ne­te de pes­ca, aca­ban­do em cro­ca, que é quan­do a linha se embara­lha irre­me­di­a­vel­men­te.

Vianna Moog entrou na boa cor dos 38 anos, mas Pedro Calmon, natural­mente, entrou mais moço. Lima Barre­to, de cara cheia ou em cri­se de sobrie­dade, teve a fra­que­za de can­di­da­tar-se, logo na vaga do Emílio, quan­do os jor­nais da épo­ca decre­ta­vam que o escri­tor boê­mio era um tipo que já não po­dia exis­tir mais entre nós. Bateram três vezes a por­ta na cara do Professor Má­rio Barreto.

Durante uma ses­são (reve­la Manuel Bandeira, o menos cir­cuns­pec­to dos aca­dêmicos ao falar da Academia), um imor­tal desan­cou os poe­tas que não metrifi­cavam, não conhe­ci­am a flor do Lácio. Em segui­da, len­do um ver­so de Bilac, pro­nun­ci­ou blás­fe­mo.

Guimarães Rosa tinha o pressentimen­to de que mor­re­ria se fizes­se o dis­cur­so de pos­se: e infe­liz­men­te foi ver­da­de. Vi­riato Correia, como Victor Hugo, can­didatou-se cin­co vezes. A ele atri­bu­em a seguin­te sen­ten­ça: “Bati nes­tas por­tas quan­do meus cabe­los eram pre­tos; abri­ram-mas quan­do já os tinha bran­cos”. João Ribeiro não pos­suía a cer­te­za se a pala­vra “bra­si­lei­ro” dos esta­tu­tos excluía gra­ma­ti­cal­men­te as mulhe­res (a Acade­mia Mineira já abriu as por­tas a duas escri­to­ras). Por ter afir­ma­do, em arti­go de jor­nal de 1909, que, em face da ci­vilização,um ope­rá­rio tem mais valor que um gene­ral, o aca­dê­mi­co Medeiros e Albuquerque levou umas ben­ga­la­das no Largo de São Francisco, no Rio. Luís Murat, no fim da vida, dia­lo­ga­va com Homero, Dante, Pascal, Comte e o Ma­rechal Deodoro. Julgava-se a reencarna­ção de Shakespeare e pro­me­tia vin­gar-se de Victor Hugo.

Sério foi na pos­se de Euclides da Cunha, em 1906, quan­do Sílvio Rome­ro, nas bar­bas do Presidente Afonso Pe­na, fez aque­la famo­sa crí­ti­ca da situa­ção naci­o­nal, a par­tir de um mote eu­clidiano: “Ou pro­gre­di­mos ou desapa­receremos”.

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