Emygdio de Barros e Almir Mavignier: correspondência

Artes

09.04.13

A expo­si­ção Raphael e Emygdio: dois moder­nos no Engenho de Dentro, em car­taz em São Paulo a par­tir do dia 9 de abril, apre­sen­ta 100 obras de Raphael Domingues (1912–1979) e Emygdio de Barros (1895–1986), com cura­do­ria de Rodrigo Naves e Heloisa Espada. Diagnosticados como esqui­zo­frê­ni­cos, ambos fre­quen­ta­ram o ate­liê de artes do Setor de Terapêutica Ocupacional e Reabilitação (STOR) do então Centro Psiquiátrico Nacional, no bair­ro cari­o­ca do Engenho de Dentro. No perío­do de 1946 a 1951 foram assis­ti­dos pelo artis­ta Almir Mavignier, expo­en­te do con­cre­tis­mo. As car­tas abai­xo, data­das de novem­bro de 1949, fazem par­te da cor­res­pon­dên­cia entre Almir e Emygdio:

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Emygdio de Barros na déca­da de 1980

Emygdio de Barros

Caro Almir, sau­da­ções.

Há mui­to tem­po foi para S. Paulo e ain­da não vol­tou, mas con­ti­nu­a­mos inter­na­dos nas mes­mas con­di­ções, vin­do dia­ri­a­men­te no mes­mo inte­res­se do que quan­do você ain­da aqui se acha­va? Tenho pin­ta­do mais qua­dros, mais dois. Aquele que o senhor dei­xou à pare­de ain­da não foi ter­mi­na­do, mas está fican­do mui­to boni­to.

Tenho sido pago todas as quin­ze­nas dei­xan­do para ser guar­da­das as quan­ti­as no ban­co, espe­ran­do com isso obter uma reser­va bem vali­o­sa que che­gue para dar­mos um pas­seio ao Rio de Janeiro e à Parahyba e à capi­tal fede­ral.

Sempre demons­trei dese­jo de morar­mos em uma casa, para a qual nós mes­mos faze­mos as des­pe­sas men­sais e manu­ten­ções dos volu­mes de des­pen­sa, o que tor­na bem agra­dá­veis e leves os afa­ze­res domés­ti­cos, tra­zen­do, ao decor­rer de alguns anos, mais e mais feli­ci­da­des.

No mais, sr. Almir, dese­jo vos ver sem­pre como sem­pre foi, com ale­gria, assim como a mim e subs­cre­vo-me

Emygdio de Barros

11/11/1949

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Almir Mavignier

São Paulo, novem­bro de 1949.

Estimado ami­go Emigdio,

Saudações.

Espero que esta car­ta lhe encon­tre mui­to bem de saú­de, como sem­pre, e tra­ba­lhan­do nes­se belís­si­mo qua­dro.

Eu havia com­bi­na­do com você de apron­tá-lo para a nos­sa expo­si­ção aí no Rio, mas como conhe­ço o seu méto­do de tra­ba­lho que­ro que você não se impor­te com isso, não se pre­o­cu­pe com o nos­so tra­to, mes­mo por­que, se um pin­tor quan­do tra­ba­lha o faz para si mes­mo, ima­gi­ne só um mecâ­ni­co tor­nei­ro quan­do pin­ta, não deve pen­sar em expo­si­ções. Porém, se a pin­tu­ra já esti­ver bem boni­ta, pare-a, por favor, des­can­se e, se qui­ser, ini­cie uma outra enco­men­da.

Agora vou lhe dar notí­ci­as daqui.

Os seus qua­dros: Universal, Alto da Boa Vista, Municipal e prin­ci­pal­men­te a Oficina mecâ­ni­ca têm des­per­ta­do mui­ta emo­ção, e o povo quan­do admi­ra os tra­ba­lhos de todos vocês per­gun­ta como é que vocês vivem, como se ali­men­tam e se o tra­ta­men­to que lhes dão é bom, e todos acham que se deve tra­tar os artis­tas como vocês da melhor manei­ra pos­sí­vel, e acres­cen­tam que não somen­te os artis­tas, mas todos vocês, que são iguais a nós.

Alguns pin­to­res de São Paulo dese­jam fazer uma expo­si­ção de pin­tu­ras aí no Rio e lhe man­dam con­vi­dar para par­ti­ci­par com alguns dos seus qua­dros nes­sa impor­tan­tís­si­ma mos­tra. Eles se sen­ti­ri­am hon­ra­dos com a sua com­pa­nhia.

Um gran­de abra­ço do seu com­pa­nhei­ro que espe­ra res­pos­ta,

Almir

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[Obras, foto­gra­fi­as e docu­men­tos aqui repro­du­zi­dos per­ten­cem ao acer­vo do Museu de Imagens do Inconsciente].

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