Guerrilha de ideias

Colunistas

14.01.15

A pri­mei­ra edi­ção (três milhões de exem­pla­res) do Charlie Hebdo depois do aten­ta­do à reda­ção do sema­ná­rio, que dei­xou 12 mor­tos na quar­ta-fei­ra pas­sa­da, vai às ban­cas hoje com um dese­nho de Maomé na capa, segu­ran­do um peda­ço de papel onde se lê: “Je suis Charlie”. No alto, sobre o fun­do ver­de, a fra­se: “Tudo está per­do­a­do”. Não podia haver melhor repre­sen­ta­ção da resi­li­ên­cia do espí­ri­to des­se jor­nal satí­ri­co que mui­ta gen­te que nem ter­ro­ris­ta é gos­ta­ria de calar.

Entre as pri­mei­ras rea­ções ao aten­ta­do ao Charlie Hebdo, na sema­na pas­sa­da, duas me espan­ta­ram pela argu­men­ta­ção em prin­cí­pio lógi­ca e poli­ti­ca­men­te cor­re­ta, mas que era impen­sá­vel dian­te da urgên­cia e da gra­vi­da­de dos fatos. Aos pou­cos, a mes­ma argu­men­ta­ção foi se repro­du­zin­do em outros tex­tos e comen­tá­ri­os (a mai­o­ria no mun­do anglo-saxão) até se con­fi­gu­rar em um dos lados do deba­te. Mas guar­dei o espan­to dian­te daque­las duas pri­mei­ras mani­fes­ta­ções: uma pági­na do car­tu­nis­ta e qua­dri­nis­ta mal­tês-ame­ri­ca­no Joe Sacco, publi­ca­da no The Guardian, e o comen­tá­rio do escri­tor ame­ri­ca­no-nige­ri­a­no Teju Cole, no blog da The New Yorker.

Sacco ques­ti­o­na­va a “natu­re­za” de algu­mas sáti­ras do Charlie Hebdo: “Embora tor­cer o nariz de muçul­ma­nos pudes­se ser tão per­mis­sí­vel quan­to ago­ra acre­di­ta-se ser peri­go­so, para mim nun­ca pas­sou de uma for­ma insí­pi­da de usar a cane­ta”. E em segui­da, como pro­vo­ca­ção à sen­si­bi­li­da­de dos (segun­do ele, fal­sos) defen­so­res da liber­da­de de expres­são no Ocidente, estam­pa­va um negro cain­do de uma árvo­re, com uma bana­na na mão, e um judeu nari­gu­do, con­tan­do dinhei­ro sobre as “entra­nhas da clas­se ope­rá­ria”. E, para com­ple­tar, lem­bra­va a demis­são há alguns anos do dese­nhis­ta e humo­ris­ta Maurice Sinet (tam­bém ques­ti­o­na­da por outros cole­gas de reda­ção do Charlie Hebdo) por con­ta de uma crô­ni­ca supos­ta­men­te antis­se­mi­ta que ele tinha escri­to sobre o casa­men­to do filho de Sarkozy com a her­dei­ra judia de uma gran­de for­tu­na.

Sacco tra­ba­lhou no Oriente Médio e conhe­ce bem os hor­ro­res da guer­ra do Iraque e da ocu­pa­ção isra­e­len­se da Cisjordânia e da fai­xa de Gaza. Tem razão ao argu­men­tar que o Ocidente rea­ge em geral por uma lógi­ca de dois pesos e duas medi­das,  mas erra ao con­fun­dir a sáti­ra do Charlie Hebdo com racis­mo e isla­mo­fo­bia, dan­do a enten­der, por meio da repro­du­ção de uma ima­gem das tor­tu­ras de Abu Ghraib, que a bar­bá­rie da sema­na pas­sa­da foi, em últi­ma ins­tân­cia, uma rea­ção à bar­bá­rie das ações da CIA e das for­ças oci­den­tais no Oriente Médio. Sim, cla­ro, em últi­ma ins­tân­cia, como a cri­mi­na­li­da­de no Brasil tam­bém é con­sequên­cia de uma soci­e­da­de racis­ta, injus­ta e desi­gual. Mas por que os ter­ro­ris­tas fran­ce­ses não ata­ca­ram alvos aber­ta­men­te isla­mo­fó­bi­cos (é o que não fal­ta), pre­fe­rin­do em vez dis­so matar car­tu­nis­tas e judeus, num ato (con­tra o super­mer­ca­do kosher) pura­men­te racis­ta?

O fotó­gra­fo e escri­tor Teju Cole escre­ve que, a des­pei­to de uma lon­ga his­tó­ria de Inquisição, per­se­gui­ções, cen­su­ra e caça às bru­xas, quan­do se veem ata­ca­das, as soci­e­da­des oci­den­tais recor­rem à “fan­ta­sia a-his­tó­ri­ca de uma sere­ni­da­de resig­na­da e de for­ça moral dian­te da pro­vo­ca­ção”. Cole escre­ve que nos últi­mos anos o Charlie Hebdo “deu pre­fe­rên­cia a pro­vo­ca­ções espe­ci­fi­ca­men­te racis­tas e isla­mo­fó­bi­cas”, o que é des­men­ti­do com vee­mên­cia pelo advo­ga­do do sema­ná­rio, Richard Malka, que denun­cia o “rela­ti­vis­mo de má-fé”, em entre­vis­ta ao Libération.

Cole lem­bra o pas­sa­do colo­ni­al da França e escre­ve que Voltaire, tan­tas vezes cita­do pelos fran­ce­ses como o gran­de defen­sor da liber­da­de de expres­são, era tam­bém um antis­se­mi­ta con­vic­to, como se com isso qui­ses­se nos fazer enten­der que o Ocidente não é o san­to que ima­gi­ná­va­mos.

Tanto Joe Sacco como Teju Cole são nomes res­pei­ta­dos em suas áre­as. Mas é como se se diri­gis­sem a um públi­co igno­ran­te e ingê­nuo, que ain­da acre­di­tas­se num mun­do livre de con­tra­di­ções, divi­di­do entre moci­nhos e ban­di­dos. Para um bra­si­lei­ro que vê o impe­ri­a­lis­mo por outro ângu­lo e conhe­ce a his­tó­ria da par­ti­ci­pa­ção da CIA nos gol­pes de Estado que ins­tau­ra­ram os regi­mes mili­ta­res e a tor­tu­ra na América Latina, ain­da nos anos 60, algu­ma coi­sa soa erra­do na asso­ci­a­ção sim­pló­ria entre as pro­vo­ca­ções liber­tá­ri­as do Charlie Hebdo e o colo­ni­a­lis­mo fran­cês ou Abu Ghraib.

É como se Sacco e Cole atri­buís­sem ao Ocidente a mes­ma uni­for­mi­da­de que os isla­mó­fo­bos atri­bu­em ao Islã. Por sor­te, dias depois do tex­to de Cole, o blog da The New Yorker publi­cou um comen­tá­rio do crí­ti­co Adam Gopnik, expli­can­do a seus com­pa­tri­o­tas que os jor­na­lis­tas do Charlie Hebdo nada tinham que ver com os “gen­tis sati­ris­tas” dos car­tuns ame­ri­ca­nos e que tra­ba­lha­vam, ao con­trá­rio, “em uma tra­di­ção carac­te­ris­ti­ca­men­te fran­ce­sa e feroz, for­ja­da ao lon­go da guer­ri­lha entre os repu­bli­ca­nos, a Igreja e a monar­quia, no sécu­lo deze­no­ve”. É qua­se ridí­cu­lo ter que lem­brar que essa tra­di­ção de guer­ri­lha das idei­as na qual con­ti­nua tra­ba­lhan­do o Charlie Hebdo foi con­quis­ta­da ao lon­go da his­tó­ria tam­bém pelos que denun­ci­a­ram e com­ba­te­ram, no Ocidente, o racis­mo, o fas­cis­mo, a caça às bru­xas, a cen­su­ra, o antis­se­mi­tis­mo, o impe­ri­a­lis­mo, o sta­li­nis­mo e o colo­ni­a­lis­mo fran­cês. A mai­or vitó­ria dos ter­ro­ris­tas seria nos fazer ver o mun­do como eles, em duas dimen­sões. 

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