Hora de descalçar as chuteiras

Séries

14.07.14

A vitó­ria da Alemanha na final fechou com jus­ti­ça poé­ti­ca e pro­sai­ca a Copa do Mundo no Brasil. Quem ven­ceu foi a equi­pe mais orga­ni­za­da e coe­sa, com joga­do­res ver­sá­teis e em cons­tan­te movi­men­ta­ção, que con­tro­la o rit­mo das par­ti­das, ace­le­ran­do no momen­to do bote fatal. O gola­ço de Götze no fin­zi­nho mos­trou que a dis­ci­pli­na táti­ca não bas­ta: é pre­ci­so enge­nho e arte para supe­rar um adver­sá­rio aguer­ri­do.

A sim­pa­tia e o jogo de cin­tu­ra dos ale­mães fora de cam­po tam­bém sur­pre­en­de­ram bra­si­lei­ros e visi­tan­tes. Só os mais cas­mur­ros viram nis­so uma estra­té­gia fria para con­quis­tar o apoio da tor­ci­da naci­o­nal.

Mas e nós, bra­si­lei­ros, o que tira­mos des­se gran­de even­to? Do pon­to de vis­ta estri­ta­men­te fute­bo­lís­ti­co, que tal­vez nem seja o mais impor­tan­te, a der­ro­ta por 3 a 0 para a Holanda, depois da aca­cha­pan­te gole­a­da sofri­da dian­te da Alemanha, con­fir­mou uma impres­são que os mais lúci­dos já tinham des­de o iní­cio do tor­neio: o Brasil foi rebai­xa­do para uma espé­cie de segun­da divi­são do fute­bol mun­di­al.

Retomar seu lugar na eli­te vai depen­der mui­to menos de dis­cur­sos exal­ta­dos, nos­tál­gi­cos ou mes­si­â­ni­cos do que de uma refor­mu­la­ção radi­cal de men­ta­li­da­de e sis­te­ma de tra­ba­lho. Em pou­cos dias a pos­tu­ra e as pala­vras da dupla Scolari-Parreira final­men­te se reve­la­ram em todo o seu tos­co ana­cro­nis­mo.

Ausência de auto­crí­ti­ca

As entre­vis­tas da comis­são téc­ni­ca – e tam­bém dos joga­do­res – depois do duplo desas­tre che­ga­ram a ser assus­ta­do­ras, em sua inca­pa­ci­da­de de ver e com­pre­en­der o que esta­va acon­te­cen­do. Parecia que tudo tinha sido um aci­den­te, um deta­lhe, um “apa­gão”, e não o resul­ta­do de anos e anos de insis­tên­cia num cami­nho erra­do, que pas­sa pela arro­gân­cia, pela cren­ça mági­ca no talen­to de um ou dois cra­ques, pela “mís­ti­ca da ama­re­li­nha”, pela fal­ta de trei­na­men­to e pre­pa­ra­ção. Scolari fala­va da con­quis­ta da Copa das Confederações (esta sim, qua­se cir­cuns­tan­ci­al) como se fos­se do mes­mo grau de impor­tân­cia de uma Copa do Mundo.

Mas já fala­mos sobre isto aqui, em tex­tos ante­ri­o­res. Cabe ago­ra exa­mi­nar um pou­co o que fica de lega­do sim­bó­li­co, ima­te­ri­al, para o país, já que o lega­do mate­ri­al, ao que pare­ce, não irá mui­to além de aero­por­tos remo­de­la­dos e está­di­os eli­ti­za­dos – quan­do não trans­for­ma­dos em ele­fan­tes bran­cos que difi­cil­men­te fica­rão chei­os de novo (Manaus, Cuiabá, Natal).

Do pon­to de vis­ta da psi­que naci­o­nal – com toda a licen­ça que uti­li­zar esse expres­são exi­ge –, a aná­li­se mais bri­lhan­te que li foi um ensaio publi­ca­do na Folha de S. Paulo pelo psi­ca­na­lis­ta e pro­fes­sor de lite­ra­tu­ra Marcio Seligmann-Silva, sobre a rapi­dez com que ela­bo­ra­mos em comé­dia a tra­gé­dia da der­ro­ta para a Alemanha.

De uma pers­pec­ti­va mais modes­ta e sub­je­ti­va, pro­po­nho que aten­te­mos para algu­mas pos­sí­veis lições, ou no míni­mo cons­ta­ta­ções, tra­zi­das pela Copa. Divido-as em tópi­cos por uma ques­tão de cla­re­za.

Pátria em chu­tei­ras?

De todas as fra­ses memo­rá­veis de Nelson Rodrigues repe­ti­das à exaus­tão em épo­cas de Copa do Mundo, tal­vez a mais nefas­ta seja a de que “o escre­te é a pátria em chu­tei­ras”. Sem entrar no méri­to escor­re­ga­dio da pró­pria noção de “pátria”, o fato é que a sen­ten­ça rodri­gui­a­na induz a uma asso­ci­a­ção dire­ta entre a sele­ção de fute­bol e valo­res como hon­ra, sobe­ra­nia e inte­gri­da­de naci­o­nais. Com isso, esta­mos a um pas­so de iden­ti­fi­car a par­ti­ci­pa­ção na sele­ção como uma espé­cie de ser­vi­ço mili­tar, de dever cívi­co e, não raro, béli­co.

Está na hora, a meu ver, de a pátria se enxer­gar como uma repú­bli­ca, uma nação entre outras, e des­cal­çar as chu­tei­ras do naci­o­na­lis­mo e do ufa­nis­mo.

E já que fala­mos em Nelson Rodrigues, outra expres­são sua repe­ti­da a todo momen­to é a que fala do nos­so “com­ple­xo de vira-latas”. Qualquer crí­ti­ca – seja ao time, à orga­ni­za­ção da Copa, à con­du­ção do país – é recha­ça­da e des­qua­li­fi­ca­da como vira-latis­mo, encer­ran­do a dis­cus­são.

Talvez um de nos­sos pro­ble­mas cul­tu­rais crô­ni­cos seja a ten­dên­cia em trans­for­mar gran­des artis­ta e cri­a­do­res (de Guimarães Rosa a Glauber Rocha, de Clarice Lispector a Caetano Veloso, pas­san­do obvi­a­men­te por Nelson Rodrigues) em orá­cu­los infa­lí­veis, cujas sen­ten­ças podem ser usa­das a tor­to e a direi­to, como num manu­al de auto­a­ju­da.

Imprensa tor­ce­do­ra

Nunca ficou tão cla­ro como nes­ta copa o quan­to boa par­te da nos­sa impren­sa espor­ti­va, sobre­tu­do a tele­vi­si­va e radi­ofô­ni­ca, tra­ta seu públi­co de modo pater­na­lis­ta e infan­ti­li­za­dor. A cober­tu­ra da sele­ção, em geral, é total­men­te cha­pa-bran­ca. Com raras exce­ções, os repór­te­res são tor­ce­do­res, “ami­gos” dos joga­do­res e do trei­na­dor, exal­tam sem­pre o cli­ma de famí­lia e cama­ra­da­gem, jamais ques­ti­o­nam, jamais inves­ti­gam. Nem vou falar do nar­ra­dor mais famo­so e seu dis­cur­so mani­queís­ta pri­má­rio, para quem o adver­sá­rio sem­pre “entra na mal­da­de”, enquan­to o bra­si­lei­ro, em lan­ce igual, “mos­tra mui­ta dis­po­si­ção”.

Mesmo nos tele­jor­nais, a abor­da­gem do fute­bol é vis­ta como uma espé­cie de recreio. Depois de rela­tar com ros­to sisu­do mil atro­ci­da­des come­ti­das mun­do afo­ra, o apre­sen­ta­dor ou apre­sen­ta­do­ra abre um sor­ri­so e diz: “Agora, sele­ção bra­si­lei­ra”. Como se, com essas pala­vras mági­cas, esti­ves­sem dizen­do: “Nos pró­xi­mos minu­tos vamos tape­ar você com o mais acrí­ti­co oti­mis­mo, todos jun­tos na mes­ma emo­ção”.

Não admi­ra que, ao cabo de uma cober­tu­ra tão idí­li­ca, quan­do vem a deba­cle, o nar­ra­dor fique sem pala­vras, a repór­ter cho­re e a deso­ri­en­ta­ção seja geral, como se tives­se ocor­ri­do um desas­tre natu­ral, um “ato de Deus”. Não foi só ago­ra que isso ocor­reu, mas tam­bém em 1998, em 2006, em 2010. A impren­sa, com as exce­ções de pra­xe, não for­ne­ce a seu públi­co a infor­ma­ção crí­ti­ca neces­sá­ria para com­pre­en­der os fatos e seu enca­de­a­men­to. Age, no mais das vezes, como refor­ça­do­ra de este­reó­ti­pos, pre­con­cei­tos e supers­ti­ções.

A des­co­ber­ta do outro

Um cli­chê per­sis­ten­te em nos­sa crô­ni­ca espor­ti­va e entre tor­ce­do­res é o de que “o Brasil só per­de para o pró­prio Brasil”. Ou seja, o adver­sá­rio só exis­te como spar­ring, como coad­ju­van­te, não como sujei­to com qua­li­da­des e movi­men­tos pró­pri­os. Parece incrí­vel, mas ouvi isso até mes­mo depois da gole­a­da his­tó­ri­ca de 7 a 1 para a Alemanha: “Perdemos de nós mes­mos”.

Minha espe­ran­ça é de que, ten­do con­vi­vi­do duran­te um mês com sele­ções das mais dife­ren­tes par­tes do mun­do, ten­do vis­to em cam­po o desem­pe­nho melhor ou pior, mais frou­xo ou aguer­ri­do, mais téc­ni­co ou mais vigo­ro­so, des­sas deze­nas de equi­pes, boa par­te dos bra­si­lei­ros tenha apren­di­do a ver o outro como alguém que não neces­sa­ri­a­men­te se amol­da a nos­sa visão oni­po­ten­te do mun­do fute­bo­lís­ti­co.

Claro que tudo o que foi dito aci­ma está inter­li­ga­do: ufa­nis­mo com­pul­só­rio, impren­sa tor­ce­do­ra, difi­cul­da­de de enxer­gar o outro. Se a Copa do Mundo tiver ser­vi­do para aba­lar esses pila­res car­co­mi­dos mas per­sis­ten­tes, terá sido um apren­di­za­do e tan­to.

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