Modi maudit?

Artes

17.05.12

Há pou­co para ler sobre Modigliani em por­tu­guês. Apesar da cen­tra­li­da­de do artis­ta no câno­ne da pin­tu­ra moder­na, ulti­ma­men­te ouve-se falar dele mais em razão dos valo­res estra­tos­fé­ri­cos que sua obra tem atin­gi­do em lei­lões — em 2010, uma escul­tu­ra sua foi ven­di­da por mais de 50 milhões de dóla­res na França — do que pelo sur­gi­men­to de novas inter­pre­ta­ções sobre seu tra­ba­lho.

A expo­si­ção aber­ta esta sema­na no MASP, em São Paulo, tor­na isso mais evi­den­te. Daí o inte­res­se de Modigliani, a life, de Meryle Secrest, bio­gra­fia lan­ça­da no ano pas­sa­do nos Estados Unidos. O livro traz um con­jun­to de infor­ma­ções sufi­ci­en­te para alte­rar algu­mas per­cep­ções cris­ta­li­za­das sobre a tra­je­tó­ria do artis­ta.

O prin­ci­pal acha­do está em mos­trar como, des­de sua mor­te, em 1920, aos 35 anos, o empe­nho de seus bió­gra­fos e admi­ra­do­res foi em roman­ti­zar sua vida des­re­gra­da, trans­for­man­do-o numa espé­cie de gênio mal­di­to (a come­çar pela asso­ci­a­ção entre seu ape­li­do, Modi, e o ter­mo em fran­cês, mau­dit).

A ima­gem con­so­li­da­da a seu res­pei­to enfa­ti­za a rela­ção com álco­ol e as dro­gas como um ímpe­to auto­des­tru­ti­vo que o levou à mor­te. O que Secrest mos­tra, com bas­tan­te docu­men­ta­ção, é que Modigliani não bebia mais do que os cole­gas nem tinha sin­to­mas de alco­o­lis­mo ou vício em outras dro­gas, que tam­bém con­su­mia em taxas acei­tá­veis para o perío­do. “Essa era uma épo­ca em que as dro­gas eram gene­ra­li­za­das e lega­li­za­das, tra­ta­das como rapé e usa­das como tal.”

Segundo a auto­ra, a saú­de do pin­tor era mui­to frá­gil des­de a infân­cia. As bebi­das o aju­da­vam a dis­far­çar os sin­to­mas da tuber­cu­lo­se, con­traí­da aos dezes­seis anos, e per­mi­ti­am acei­ta­ção em cír­cu­los dos quais seria bani­do se reve­las­se por­tar uma doen­ça con­ta­gi­o­sa. “É axi­o­má­ti­ca a ver­são segun­do a qual Modigliani era um artis­ta bri­lhan­te que arrui­nou sua saú­de e mor­reu pre­ma­tu­ra­men­te por exces­so de dro­gas e álco­ol. (…). Nós jul­ga­mos a par­tir de nos­so con­tex­to, em que a tuber­cu­lo­se é uma doen­ça curá­vel, e não a par­tir do con­tex­to dele, em que não era.”

Outro pon­to for­te da bio­gra­fia é a capa­ci­da­de de situ­ar Modigliani em rela­ção aos cole­gas de gera­ção. Jean Cocteau e Chaim Soutine são pre­sen­ças cons­tan­tes. Picasso é figu­ra ain­da mais for­te — Modigliani foi a seu ate­liê ver o recém-fina­li­za­do Demoiselles d’Avignon e reco­nhe­ceu sua impor­tân­cia de ime­di­a­to. Secrest con­fir­ma a ideia de que as más­ca­ras afri­ca­nas trans­pos­tas para as telas de Picasso são deci­si­vas para Modigliani, que as ado­ta como influên­cia para seus retra­tos.

Há ain­da a impor­tân­cia de Brancusi. Os dois eram vizi­nhos e Brancusi foi seu con­se­lhei­ro duran­te suas incur­sões pela escul­tu­ra, que expe­ri­men­tou entre os anos de 1910 e 1913. Secrest aven­ta a pos­si­bi­li­da­de de a colu­na infi­ni­ta, mar­ca deci­si­va no tra­ba­lho escul­tó­ri­co de Brancusi, ser uma ideia de Modigliani, pre­sen­te em telas suas des­de 1911, seis anos antes das pri­mei­ras apa­ri­ções no tra­ba­lho do cole­ga.

As mora­di­as com­par­ti­lha­das em Montmartre, onde os artis­tas vivi­am em con­di­ções exas­pe­ran­tes, são des­cri­tas em bom grau de deta­lhe. E de for­ma seca, sem ide­a­li­za­ções. As estra­té­gi­as de Modigliani para sair sem pagar dos locais onde lhe ser­vi­am comi­da e as noi­tes oca­si­o­nais que pas­sa­va na rua ou em cozi­nhas de res­tau­ran­tes féti­dos dão a medi­da de uma vida “boê­mia” em nada roman­ti­za­da, em que os artis­tas apa­re­cem como lúm­pen sem­pre à bei­ra da misé­ria.

Pode não ser um ensaio de fôle­go crí­ti­co. Mas cum­pre o que se espe­ra de uma boa bio­gra­fia e é decer­to o mate­ri­al recen­te de mai­or enver­ga­du­ra à dis­po­si­ção de quem se inte­res­sar por essa expo­si­ção em São Paulo.

* Flávio Moura é coor­de­na­dor do site do IMS.

* Na ima­gem da home que ilus­tra esse post: Le grand nu allon­gé, de Modigliani.

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