Mulheres, da planície ao planalto

Colunistas

05.04.16

Um homem não teria a ideia de escre­ver um livro sobre a situ­a­ção sin­gu­lar que ocu­pam os machos na huma­ni­da­de.” A fra­se está na Introdução de “O segun­do sexo”, o clás­si­co da filó­so­fa fran­ce­sa Simone de Beauvoir, e não che­gou a ficar famo­sa como “Não se nas­ce mulher, tor­na-se mulher”, mas car­re­ga nela uma incô­mo­da cons­ta­ta­ção: a ideia de que a escri­ta femi­ni­na tem a espe­ci­fi­ci­da­de de tra­tar de temas de inte­res­ses espe­cí­fi­cos das mulhe­res, e por­tan­to secun­dá­ri­os. O lan­ça­men­to da tra­du­ção e edi­ção comen­ta­da de Reivindicação dos direi­tos da mulher (Boitempo Editorial, tra­du­ção de Ivania Pocinho Motta) da filó­so­fa ingle­sa Mary Woolstonecraft, com exce­len­te pre­fá­cio de Maria Lygia Quartin de Moraes, mos­tra como o pen­sa­men­to sobre “a con­di­ção da mulher” foi his­to­ri­ca­men­te clas­si­fi­ca­do como desim­por­tan­te.

Olympe de Gouges (1748–1793) e Mary Woolstonecraft (1759–1797)

Escrito na Inglaterra do sécu­lo XVIII, o livro dia­lo­ga com os pro­ble­mas filo­só­fi­cos e morais do Iluminismo, mas tam­bém pode ser lido à luz da miso­gi­nia con­tem­po­râ­nea. Woolstonecraft dis­cu­te com os gran­des filó­so­fos do seu tem­po, como o tam­bém bri­tâ­ni­co David Hume e o ale­mão Immanuel Kant,  e dis­cu­te ques­tões que che­gam até nós, her­dei­ros das Luzes e de uma cer­ta nar­ra­ti­va moder­na, diga­mos assim, vito­ri­o­sa, mas nem por isso menos ques­ti­o­ná­vel. Filha de um patri­ar­ca vio­len­to, Mary e seu Reivindicação dos direi­tos da mulher entra­ram para a his­tó­ria como uma das fun­da­do­ras do pen­sa­men­to femi­nis­ta euro­peu, pos­to que divi­de com a fran­ce­sa Olympe de Gouges, a auto­ra de Declaração dos direi­tos da mulher e da cida­dã e rele­van­te adver­sá­ria das idéi­as de outro filó­so­fo das Luzes, Jean-Jacqjues Rousseau. Ambas têm em comum o enfren­ta­men­to dos prin­ci­pais temas do seu tem­po – como a dis­cri­mi­na­ção da mulher no espa­ço públi­co e seu con­fi­na­men­to à esfe­ra domés­ti­ca – e colo­cam em pau­ta, numa moder­ni­da­de mar­ca­da pelo pri­vi­lé­gio do mas­cu­li­no,  o pro­ble­ma éti­co-polí­ti­co de usar a dife­ren­ça sexu­al para infe­ri­o­ri­zar a mulher. Nunca foram con­si­de­ra­das filó­so­fas, ape­nas pen­sa­do­ras de temas femi­ni­nos.

Alguns pro­ble­mas dis­cu­ti­dos por Woolstonecraft me pare­cem rema­nes­cen­tes nos difí­ceis tem­pos que cor­rem. O pri­mei­ro foi per­ce­bi­do pela his­to­ri­a­do­ra Joan Scott: embo­ra as mulhe­res tenham sido clas­si­fi­ca­das por Rousseau como “natu­ral­men­te dóceis”, o mes­mo filó­so­fo argu­men­ta ser abso­lu­ta­men­te indis­pen­sá­vel uma edu­ca­ção que ensi­nas­se a mulher a ser sub­mis­sa ao seu mari­do. Ora, se fôs­se­mos mes­mo natu­ral­men­te dóceis, não seria assim tão difí­cil nos fazer abai­xar a cabe­ça e obe­de­cer. Olympe de Gouges e Mary Woollstonecraft foram exem­plos do que pre­ga­vam, insur­gen­tes con­tra os pode­res domi­nan­tes, como ain­da hoje são inú­me­ras mulhe­res que estão nas ruas pro­tes­tan­do con­tra a pau­ta con­ser­va­do­ra e machis­ta do Congresso Nacional.

Essa supos­ta sub­mis­são decor­re de um segun­do pro­ble­ma, o enten­di­men­to da dife­ren­ça sexu­al como fator de subal­ter­ni­da­de do ele­men­to femi­ni­no – encar­na­do na mulher, mas infe­ri­o­ri­za­do mes­mo quan­do mani­fes­to nos homens, de onde vem a difi­cul­da­de de acei­tar que uma mulher ocu­pe luga­res de poder. Para além de todas as crí­ti­cas ao gover­no Dilma Roussef, a miso­gi­nia em rela­ção à pre­si­den­te da República faz par­te de todos os dis­cur­sos de opo­si­ção. Ouve-se nas ruas e nos gabi­ne­tes uma des­qua­li­fi­ca­ção pes­so­al que é ina­cei­tá­vel. As pau­tas dis­cri­mi­na­tó­ri­as, como o figu­ri­no, o cor­te de cabe­lo, a die­ta para ema­gre­cer, deram lugar ao mais ridí­cu­lo ata­que pes­so­al, usan­do a velha figu­ra da mulher des­con­tro­la­da e his­té­ri­ca, como se ape­nas mulhe­res se des­con­tro­las­sem ou car­re­gas­sem o pri­vi­lé­gio do sin­to­ma da his­te­ria.

São dois pro­ble­mas mar­ca­dos pelo que Woollstonecraft, Olympe de Gouges, e no Brasil, do mes­mo perío­do, a tam­bém pio­nei­ra Nísia da Floresta, auto­ra de uma “tra­du­ção livre” dos tex­tos da ingle­sa, iden­ti­fi­ca­ram como um dile­ma ain­da inso­lú­vel. Reivindicar direi­tos iguais, ape­sar da dife­ren­ça bio­ló­gi­ca entre os cor­pos? Ou mobi­li­zar, a par­tir da dife­ren­ça bio­ló­gi­ca entre os cor­pos, a vul­ne­ra­bi­li­da­de das mulhe­res a fim de exi­gir pro­te­ção?

Woolstonecraf tinha uma res­pos­ta: “Desejo hones­ta­men­te ver a supe­ri­o­ri­da­de do sexo des­truí­da na soci­e­da­de, a não ser onde o amor moti­ve a con­du­ta. Pois tal supe­ri­o­ri­da­de é, estou fir­me­men­te per­su­a­di­da, a base da fra­que­za de cará­ter atri­buí­da à mulher; é a cau­sa pela qual o inte­lec­to é negli­gen­ci­a­do, enquan­to talen­tos são adqui­ri­dos com cui­da­do­so esme­ro; e a mes­ma cau­sa faz com que elas pre­fi­ram a ele­gân­cia antes das vir­tu­des herói­cas. (…) Quando ouvi­mos falar de mulhe­res que, sain­do da obs­cu­ri­da­de, valen­te­men­te cha­mam por res­pei­to devi­do a suas habi­li­da­des ou vir­tu­des intré­pi­das? Onde elas podem ser encon­tra­das”.

Hoje, no Brasil, podem ser encon­tra­das em inú­me­ros luga­res, do cam­po às cida­des, das uni­ver­si­da­des ao mer­ca­do de tra­ba­lho, das ruas à polí­ti­ca, da pla­ní­cie ao pla­nal­to.

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