Num táxi, no Rio de Janeiro

Cinema

06.10.14

Da exten­sa e mui­to vari­a­da fil­mo­gra­fia de Hugo Carvana (1937–2014) o que tal­vez logo des­per­ta na memó­ria do espec­ta­dor é o per­so­na­gem que ele cri­ou e desen­vol­veu em seus pri­mei­ros fil­mes que diri­giu, o Secundino Meireles de Vai tra­ba­lhar vaga­bun­do (1973) e de Se segu­ra, malan­dro! (1978), trans­for­ma­do no Zeca de Bar espe­ran­ça (1983), e retor­na­do ao Secundino em Vai tra­ba­lhar vaga­bun­do 2 — A vol­ta (1991). Trata-se de um per­so­na­gem que come­çou a ser esbo­ça­do na bre­ve cena de Macunaíma (de Joaquim Pedro de Andrade, 1969) em que Carvana sur­ge de repen­te para ven­der ao herói um pato que des­co­me dinhei­ro.

Hugo Carvana. Foto de José Medeiros, 1973.

Ele já havia, então, fei­to per­so­na­gens cômi­cos (com Luiz de Barros, Trabalhou vem Genival, 1955, e Tudo é músi­ca, 1957, e com Carlos Hugo Christensen, Esse Rio que eu amo, 1962) e dra­má­ti­cos (com Ruy Guerra, o sol­da­do José de Os fuzis, em 1964, com Leon Hirszman em A fale­ci­da, 1965, com Glauber Rocha, o Álvaro de Terra em Transe, em 1967) e esta­va, qua­se ao mes­mo tem­po, inter­pre­tan­do o Santamaria (de O anjo nas­ceu de Júlio Bressane, 1969), feri­do, caí­do a um can­to, qua­se sem poder se mover, quan­do, na bre­ve cena do malan­dro ven­de­dor de pato, come­çou a esbo­çar o malan­dro que na pri­mei­ra ima­gem de Vai tra­ba­lhar vaga­bun­do sai da cadeia. No Lourival de Quando o car­na­val che­gar (de Carlos Diegues, 1972), alguns outros tra­ços reto­cam a figu­ra do futu­ro malan­dro que sai da cadeia bem no ins­tan­te em que a dita­du­ra mili­tar fecha­va o país num cár­ce­re. Sai como quem dan­ça, cami­nha como numa espé­cie de bai­la­do mini­ma­lis­ta, todo o tem­po decom­pon­do a figu­ra em peque­nos movi­men­tos num espa­ço míni­mo – ligei­ro desen­gon­çar do cor­po, peque­nos ges­tos com as mãos, sua­ve balan­çar da cabe­ça.

Logo depois, antes da segun­da aven­tu­ra, Se segu­ra, malan­dro! (1978), empres­tou seu per­so­na­gem a Paulo César Saraceni para a cena ini­ci­al de Amor car­na­val e sonhos (1973), a Arnaldo Jabor para com­por o comis­sá­rio de Toda nudez será cas­ti­ga­da (1973) e a Nelson Pereira dos Santos para dar vida ao Fausto Pena de Tenda dos mila­gres (1977). Bem mais tar­de, empres­tou a cabe­ça de Secundino, sol­ta, taga­re­la, dei­ta­da sobre a areia da praia, para o cur­ta-metra­gem O cabe­ça de Copacabana de Rosane Svartman (2000).

Carvana vestido de Super-Homem ao lado de Millôr em foto de David Drew Zingg (sem data).

Ator em pou­co mais de cem fil­mes para cine­ma e tele­vi­são, dire­tor de nove lon­ga-metra­gens para cine­ma, Carvana fez mui­to mais que a inven­ção de Secundino Meireles. Como ator, em pas­sa­gens rápi­das e mar­can­tes, compôs um sem núme­ro de per­so­na­gens dra­má­ti­co em fil­mes como Terra em tran­se e O dra­gão da mal­da­de con­tra o san­to guer­rei­ro (ambos de Glauber Rocha, 1967 o pri­mei­ro, 1969, o segun­do), Mar de rosas (de Ana Carolina Teixeira Soares, 1978), Avaeté, semen­te de vin­gan­ça (de Zelito Viana, 1985) ou na série de tele­vi­são As noi­vas de Copacabana de Mauro, Maurício e Roberto Farias (1992).

Como dire­tor, rea­li­zou ain­da dois fil­mes de humor deli­ca­do e sim­ples, Bar espe­ran­ça (1983) e O homem nu (1997). Na cena final des­te, no papel de moto­ris­ta de táxi, con­duz o pro­ta­go­nis­ta da his­tó­ria, o Silvio Proença inter­pre­ta­do por Claudio Marzo. Ao volan­te, con­ver­sa enquan­to diri­ge, fala mais do que diri­ge, fala sem espe­rar res­pos­ta, monó­lo­go sol­to, ale­gre, qua­se ingê­nuo, oti­mis­ta, sobre as mui­tas vol­tas que o mun­do dá, sobre o pra­zer de um dia de sol aber­to no Rio de Janeiro depois de uma noi­te de chu­va. Conversa igual a qual­quer outra, de pas­sa­gem, na rua, num bar ou num táxi, dia de sol, Rio de Janeiro. Conversa que come­ça no meio e aca­ba no meio, dei­xa­da em aber­to. Nela, uma per­fei­ta sín­te­se do que Carvana se propôs a fazer, como ator e dire­tor.

, , , , ,