O grande e o pequeno

Literatura

03.07.12

Dentre os con­vi­da­dos da déci­ma Flip, Jonathan Franzen é autor do mai­or livro de fic­ção: 608 pági­nas. Alejandro Zambra, do menor: 94 pági­nas. Liberdade traz, em seu títu­lo, gran­di­loquên­cia. Bonsai, mini­a­tu­ra.

Em lite­ra­tu­ra, tama­nho é, sim, docu­men­to.

A Franzen, 52 anos, cre­di­ta-se o pro­dí­gio de escre­ver, hoje, um roman­ção à Tolstoi, envol­to em fumos épi­cos e pre­ten­são retra­tis­ta de fixar o Homem em seu tem­po. Zambra, 37 anos, estre­ou na fic­ção vin­do da poe­sia e dela não traz liris­mo ou ima­gens, mas a mão fir­me da sín­te­se: nar­ra de for­ma rápi­da e elíp­ti­ca, pre­fe­re o insi­nu­a­do ao dito.

Em 2010, a Time deu a Franzen sua icô­ni­ca capa, rara­men­te dedi­ca­da a escri­to­res — Mark Twain (!) levou uma em 2008 e Stephen King em 2000. Por Bonsai, Zambra ganhou em 2006 o Prêmio da Crítica e o Prêmio Altazor, ambos de seu país,  como melhor roman­ce do ano.

Franzen, como lem­bra Flávio Moura, decla­ra-se dis­cre­ta­men­te no páreo para hon­rar o títu­lo de “gran­de escri­tor ame­ri­ca­no”, suces­sor de uma linha­gem que vem de Updike & cia. Zambra dis­se ao blog que gos­ta da “desor­dem das gera­ções”, do momen­to “esti­lis­ti­ca­men­te des­con­cer­tan­te” que vive.

Ambos ele­gem casais como pro­ta­go­nis­tas. Walter e Paty per­cor­rem, pelas mãos de Franzen, mais ou menos trin­ta anos de his­tó­ria ame­ri­ca­na e com ela se embo­lam. Julio e Emilia vivem ape­nas elip­ti­ca­men­te a his­tó­ria de seu país, onde “se você não faz amor só pode foder ou fuder”.

Em Liberdade, o casa­men­to sofre pre­vi­sí­vel ero­são do tem­po. Em Bonsai,  o amor aca­ba na pri­mei­ra linha.

Liberdade exi­ge do lei­tor tem­po, mui­to tem­po — dedi­ca­ção do tem­po “nobre” da lei­tu­ra. Bonsai pode ser lido num vôo Rio-SP — rapi­dez demo­ni­za­da pelos que vêem nos­sos dias cor­roí­dos pela “frag­men­ta­ção”.

Em seus mui­tos deta­lhes, Liberdade dura pou­co. Como um prin­cí­pio ati­vo, Bonsai con­ti­nua agin­do depois da últi­ma linha.

Franzen e Zambra são em tudo e por tudo pro­du­tos de expe­ri­ên­ci­as e tra­di­ções dis­tin­tas. O cri­ti­ca­men­te cor­re­to me impe­di­ria de com­pa­rá-los, já que pos­tu­la a “diver­si­da­de” como mar­ca da “lite­ra­tu­ra con­tem­po­râ­nea” — o que nos ensi­na tan­to sobre ela quan­to o xadrez, como dizia o Millôr, desen­vol­ve mui­to a capa­ci­da­de de jogar xadrez.

Mas é entre o gran­de o peque­no que se fazem as esco­lhas neces­sá­ri­as.

Entre o gran­de autor, que bus­ca plas­mar uma épo­ca, e o peque­no, que esbo­ça o ins­tan­te. Entre o gran­de públi­co, que rei­te­ra o que sabe­mos, e os vári­os peque­nos gru­pos de lei­to­res, que apos­tam, cada um por si, em expe­ri­ên­ci­as com o que não conhe­cem. Entre a nar­ra­ti­va que pela redun­dân­cia quer recom­por um lugar que a lite­ra­tu­ra (sau­da­vel­men­te) per­deu e uma outra que bus­ca a sin­gu­la­ri­da­de, mas não mais a van­guar­di­ce.

Nas gran­des nar­ra­ti­vas, as con­ven­ções têm que fun­ci­o­nar bem, as regras de com­po­si­ção devem ser obser­va­das e os pon­tos de vis­ta bem cla­ri­fi­ca­dos em um todo orga­ni­za­do. Nas peque­nas, pode-se ir a um lugar mas não a outro, a par­ci­a­li­da­de de pon­to de vis­ta é recor­ren­te e a even­tu­al imper­fei­ção não é des­lei­xo, mas des­con­fi­an­ça da for­ma.

O gran­de escri­tor quer-se sepa­ra­do do lei­tor: ele escre­ve. O peque­no é, fun­da­men­tal­men­te e tal­vez prin­ci­pal­men­te, lei­tor — e esta­be­le­ce cum­pli­ci­da­de ime­di­a­ta com quem o lê. Assim como os aman­tes de Zambra, que leem antes de tran­sar, vivem ambos a mes­ma volú­pia.

No Brasil, a esca­la entre gran­de e peque­no traz ten­são extra. No ter­ri­tó­rio fisi­ca­men­te gigan­te, a lite­ra­tu­ra é aca­nha­da quan­ti­ta­ti­va a expres­si­va­men­te. Vive seu tama­nho como uma sina infe­liz. Almeja o que não tem e, nos pio­res casos, incon­for­ma­da com a peri­fe­ria, quer encor­par-se, colo­car-se nas mais vis­to­sas posi­ções do mapa.

Mas em geral quer tor­nar-se gran­de pela ambi­gua cer­ti­fi­ca­ção do públi­co amplo, ombre­ar-se aos gigan­tes que vêm de fora, mega­sel­lers que ocu­pam lis­tas e, supos­ta­men­te, rou­bam lei­to­res. Percebendo-se com ape­que­na­dos, os peque­nos pro­cu­ram cres­cer como cópia (rara­men­te bem suce­di­da) ou ain­da como sol­da­dos arro­gan­tes de seu res­sen­ti­men­to.

Entre os peque­nos, é pre­ci­so fazer esco­lhas. E, em vez de viver seu tama­nho como injus­ti­ça cós­mi­ca ou des­ti­no his­tó­ri­co, é pos­sí­vel fazer dele um pro­je­to ati­vo. Em vez de nani­co, mini­a­tu­ra. Em vez de capim, bon­sai, que para viver requer cui­da­dos extre­mos, aten­ção infi­ni­ta.

Se a ideia da bus­ca de um “gran­de escri­tor naci­o­nal” é hoje mino­ri­tá­ria no Brasil, a do escri­tor bem suce­di­do ganha mais e mais for­ça. Por suces­so, enten­da-se aqui os esta­dos fun­da­men­tais do que se quer gran­de: núme­ros expres­si­vos, públi­co amplo, bri­lha­re­co midiá­ti­co — tudo jun­to num paco­te que não neces­sa­ri­a­men­te inclui a inven­ção e a sur­pre­sa.

Apostar no peque­no não é, no entan­to, pro­fes­sar hor­ror ao suces­so. É con­tra­por o ges­to imper­cep­tí­vel à lógi­ca do pro­dí­gio, do artis­ta que cau­sa espan­to por suas faça­nhas — sejam elas cri­ar um retra­to de Dante com res­tos de piz­za ou dan­çar ven­da­do com um bra­ço amar­ra­do a uma per­na.

O gran­de depen­de do suces­so. O peque­no é sim­ples­men­te livre — e ple­no de pos­si­bi­li­da­des.

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