O mestre-sala dos ares

Correspondência

17.11.11

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Meu que­ri­do Dapieve:

Vamos de avião.

Eu con­tei que meu pai que­ria ser pilo­to e me dizia vezes sem con­ta fra­ses do tipo “não estu­dei, sou escri­tu­rá­rio. Quer ser algu­ma coi­sa na vida, tra­te de estu­dar”. Talvez o amor dele por aviões tenha pesa­do em minha ten­ra infân­cia. Cheguei a expe­ri­men­tar algu­ma sim­pa­tia pela nefan­da águia-que-se-esta­ba­ca. Até fazer a pri­mei­ra via­gem…

Alguns com­po­si­to­res uni­ver­si­tá­ri­os foram con­vi­da­dos para um show em Vitória: Ivan Lins, Gonzaguinha, Sidney Mattos… Receberíamos pou­sa­da numa espé­cie de casa estu­dan­til, cachês satis­fa­tó­ri­os e pas­sa­gens de avião. Não lem­bro se tive medo, mas, ao che­gar ao aero­por­to, alguém me apon­tou a gerin­gon­ça e tive pro­fun­da von­ta­de de cho­rar. Era um indes­cri­tí­vel Viscount, o úni­co das, creio, LAC (Linhas Aéreas Catastróficas). O tre­co pare­cia tão peque­no que duvi­dei que nele cou­bes­sem os artis­tas, mais o pilo­to, ins­tru­men­tos musi­cais, minhas ines­que­cí­veis tum­ba­do­ras. Eu era conhe­ci­do como “con­guei­ro de dedos” por músi­cos mais velhos. Curti isso como se fos­se uma cons­ta­ta­ção do meu talen­to. Só depois fui saber que era uma goza­ção alta­men­te pejo­ra­ti­va. Entrei no clo­set voa­dor suan­do frio e bati de fren­te com a sabe­do­ria popu­lar: uma des­gra­ça nun­ca vem sozi­nha. Quando o motor ron­cou, ain­da em ter­ra, um pas­sa­gei­ro ajo­e­lhou-se no exí­guo cor­re­dor entre os assen­tos e alter­nou ora­ções com gri­tos de “me tira daqui!”. Fui sal­vo por um can­til que leva­va (e qua­se des­truiu meu fíga­do, aí pelos 30 anos) ou me asso­ci­a­ria ao pas­sa­gei­ro, não digo nas ora­ções, mas na ber­ra­ria. A juven­tu­de tem suas com­pen­sa­ções. Bebi o tem­po todo, pen­san­do na vol­ta.

O pes­so­al de Vitória é bom de copo. Fui colo­ca­do no pás­sa­ro de retor­no qua­se incons­ci­en­te. Você pode­ria pen­sar: um come­ço assim jus­ti­fi­ca os ter­ro­res aero­náu­ti­cos do Aldir.

Só que a coi­sa não parou aí. Voltávamos eu e João Bosco no últi­mo voo da pon­te-aérea de São Paulo, depois de um óti­mo show, quan­do enxer­guei, aaa­a­ahhhhh, a pon­te Rio-Niterói e aí, você sabe, aque­le sus­pi­ro, “minha alma can­ta, vejo o Rio de Janeiro…”. Justo ao pas­sar pela pon­te, ouvi­mos uma espé­cie de sil­vo sinis­tro e o avião fez uma vio­len­ta cur­va de vol­ta. Voz do pilo­to:

- Senhores pas­sa­gei­ros, devi­do a uma peque­na ava­ria, pou­sa­re­mos no Galeão por moti­vos de segu­ran­ça.

Ora, uma ava­ria em avião nun­ca é peque­na. Mesmo assim, não está­va­mos, João e eu, pre­pa­ra­dos para o espe­tá­cu­lo que nos aguar­da­va no atu­al Tom Jobim: vári­as ambu­lân­ci­as na pis­ta, car­ros de bom­bei­ros, outros veí­cu­los não iden­ti­fi­ca­dos, tal­vez rabe­cões. Bosco teve um pro­ble­ma de engo­lir e, mais uma vez, meu can­til foi de gran­de valia: dei uns goles a ele e entor­nei as sobras (eu, ex-médi­co, sabe­dor dos impre­vis­tos na vida huma­na, enche­ra a cara e o reci­pi­en­te, antes de entrar no mons­tren­go em Congonhas).

Hora de pas­sar para o fute­bol? Não. Peguei uma tur­bu­lên­cia, vol­tan­do de Belo Horizonte, que abriu os armá­ri­os da nave satâ­ni­ca e milha­res de coi­sas rola­ram com estré­pi­to pelo mal­di­to cor­re­dor. Dessa vez foi o João Bosco quem me deu umas tala­ga­das de meu pró­prio can­til mági­co por­que eu me encon­tra­va em esta­do semi­co­ma­to­so. Achei que está­va­mos rachan­do em ple­no ar e minha pres­são caiu. Dentro de aviões, minha pres­são arte­ri­al é conhe­ci­da, hoje, como Neymar.

Por últi­mo, meu voo ines­que­cí­vel. Havia um pin­ga-pin­ga que saía cedi­nho de Porto Alegre e ia pou­san­do-deco­lan­do de qua­se todas as capi­tais da orla pátria. Meu des­ti­no era, cla­ro, Manaus. Saímos daqui umas 10 da manhã, com che­ga­da pre­vis­ta para nin­guém sabia quan­do. Em Salvador, cons­ta­tei com gran­de ale­gria que o comis­sá­rio de bor­do esta­va bas­tan­te bêba­do e fazen­do gra­ci­nhas. As doses eram pra lá de gene­ro­sas. Em Recife, dois ter­ços dos enfur­na­dos no supo­si­tó­rio de asas encon­tra­vam-se em esta­do de fran­ca embri­a­guez, inclu­si­ve senho­ras, can­tan­do em coro musi­qui­nhas obs­ce­nas etc. O momen­to cul­mi­nan­te deu-se em Belém:

- Senhores pas­sa­gei­ros, a polí­cia local está pro­cu­ran­do um dos senho­res que se encon­tra desa­pa­re­ci­do.

Cerca de meia hora depois o bes­ta­lhão foi acha­do. Vagava de por­re num mata­gal pró­xi­mo. A recep­ção foi triun­fal. Abraços, lágri­mas, juras de ami­za­de eter­na, batu­ca­da (João e eu puxa­mos uma adap­ta­ção: o Mestre-Sala dos Ares).

Manaus no hori­zon­te. Cantil fir­me­men­te vira­do, ape­nas por supers­ti­ção.

E uma vez fora do tec­nop­te­ro­dác­ti­lo, dire­to ao bar pra um Jack duplo on the rocks recom­por os ner­vos em fran­ga­lhos, que o avião pode ser de metal, mas eu não.

Abraço fra­ter­no,

Aldir

* Na ima­gem da home que ilus­tra este post: avião sobre­voa pró­xi­mo à pon­te Rio-Niterói (foto de Rogério Brito)

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