O ovo da serpente

Colunistas

28.01.15

Sou des­sas pes­so­as que ficam pato­lo­gi­ca­men­te ner­vo­sas ao falar em públi­co mas que con­ti­nu­am acei­tan­do os con­vi­tes para falar em públi­co, por algum tipo de fan­ta­sia (“des­ta vez, vai ser dife­ren­te”), tei­mo­sia ou esque­ci­men­to, como se não sou­bes­sem o que as espe­ra. Só com a pro­xi­mi­da­de do even­to é que elas afi­nal se arre­pen­dem e entram em pâni­co.

Como não sou espe­ci­a­lis­ta em dan­ça e acei­tei não sei bem por quê par­ti­ci­par de um encon­tro públi­co com um coreó­gra­fo que mime­ti­za e des­con­tex­tu­a­li­za os ges­tos da vio­lên­cia para cri­ar uma dan­ça que é ao mes­mo tem­po ação polí­ti­ca, come­cei a pro­cu­rar tex­tos que tra­tas­sem dos ritu­ais mimé­ti­cos nas soci­e­da­des indí­ge­nas ani­mis­tas e aca­bei depa­ran­do com a céle­bre con­fe­rên­cia de Aby Warburg sobre “O Ritual da Serpente”.

O pâni­co de falar em públi­co está asso­ci­a­do à per­for­man­ce e à autoi­ma­gem, à dúvi­da quan­to à capa­ci­da­de de con­ven­ci­men­to, ou seja, à necessidade/responsabilidade de pro­var algu­ma coi­sa. Se isso já é um infer­no para quem se con­si­de­ra nor­mal (e é até segun­da ordem con­si­de­ra­do nor­mal por seus pares), ima­gi­ne um lou­co, inter­na­do numa clí­ni­ca para lou­cos, a quem é dada a opor­tu­ni­da­de de pro­var, por meio de uma con­fe­rên­cia, que está cura­do.

Fazia dois anos que o his­to­ri­a­dor da arte Aby Warburg (1866–1929), gran­de espe­ci­a­lis­ta do Renascimento, esta­va inter­na­do na clí­ni­ca Bellevue, em Kreuzlingen, na Suíça, quan­do pro­fe­riu sua con­fe­rên­cia, em 21 de abril de 1923. O sana­tó­rio Bellevue, diri­gi­do pelo dou­tor Ludwig Binswanger, cole­ga de Jung, cor­res­pon­den­te de Freud e futu­ro fun­da­dor da psi­co­lo­gia exis­ten­ci­al, era con­si­de­ra­do um reti­ro para os neu­ró­ti­cos e doen­tes men­tais da eli­te euro­peia.

Por ali, pas­sa­ram entre outros o dan­ça­ri­no Nijinsky, o artis­ta expres­si­o­nis­ta Ernst Ludwig Kirchner e a femi­nis­ta Bertha Pappenheim (que ficou conhe­ci­da como “Anna O.” no céle­bre caso de his­te­ria ana­li­sa­do por Freud).


O historiador da arte Aby Warburg (1866–1929)

Warburg, que vinha de uma das famí­li­as judi­as mais ricas da Alemanha, foi man­da­do para Belevue depois de ter ame­a­ça­do matar a mulher e os filhos a tiros e de pas­sar três anos inter­na­do numa clí­ni­ca de Hamburgo, sua cida­de natal. Diagnosticado como esqui­zo­frê­ni­co manía­co-depres­si­vo, o his­to­ri­a­dor da arte quis matar a famí­lia duran­te uma cri­se, para evi­tar que fos­sem per­se­gui­dos, tran­ca­fi­a­dos em pri­sões secre­tas, tor­tu­ra­dos e assas­si­na­dos, o que retros­pec­ti­va­men­te teria fei­to dele tam­bém um visi­o­ná­rio. Em Bellevue, Warburg asso­ci­a­va os gri­tos que ouvia nos cor­re­do­res aos de sua mulher sob tor­tu­ra. Acreditava que a famí­lia fos­se man­ti­da em segre­do na clí­ni­ca, à espe­ra de ser mas­sa­cra­da, e que a car­ne ser­vi­da no jan­tar era a de seus filhos.

A tera­pia recei­ta­da por Binswanger con­sis­tia em repou­so, ópio, aná­li­se e inten­so tra­ba­lho inte­lec­tu­al, capaz de trans­for­mar a angús­tia do paci­en­te em idei­as, numa cor­res­pon­dên­cia dire­ta com a pró­pria visão antro­po­ló­gi­ca de Warburg, para quem a cul­tu­ra con­sis­tia basi­ca­men­te em dar for­ma ao infor­me, atri­buin­do cau­sas e sen­ti­dos mági­cos, divi­nos ou natu­rais ao incom­pre­en­sí­vel. Para Warburg, havia um ele­men­to esqui­zoi­de na ori­gem de toda cul­tu­ra, ser­vin­do para a cri­a­ção de uma medi­a­ção sim­bó­li­ca entre as ame­a­ças obje­ti­vas da natu­re­za e o eu assom­bra­do pela mor­te. Mais que isso, have­ria um ele­men­to de ante­ci­pa­ção na cau­sa­li­da­de mági­ca das cul­tu­ras ditas “pri­mi­ti­vas”, que as soci­e­da­des tec­no­ló­gi­cas teri­am cala­do: “Ao ves­tir-se com a más­ca­ra do ani­mal duran­te a dan­ça da caça, o índio de cer­ta for­ma se apro­pria do ani­mal, por ante­ci­pa­ção à cap­tu­ra”.

Vinte e sete anos antes de sua con­fe­rên­cia em Bellevue, Warburg tinha visi­ta­do os hopis e os zunis no ter­ri­tó­rio dos Pueblos, no sudo­es­te dos Estados Unidos, e a esco­lha do tema da con­fe­rên­cia não foi casu­al. No ritu­al da ser­pen­te, os índi­os da região dan­ça­vam com uma cobra vene­no­sa viva na boca. Eles mor­di­am a cobra e a man­ti­nham pre­sa entre os lábi­os duran­te a dan­ça, evi­tan­do que ela os mor­des­se. Todo o ritu­al fun­ci­o­na­va por ana­lo­gia. A for­ma da ser­pen­te, em zigue­za­gue, era asso­ci­a­da aos rai­os da tem­pes­ta­de. A dan­ça tinha por obje­ti­vo fazer cho­ver. Os hopis for­ça­vam a par­ti­ci­pa­ção e a inter­ven­ção das ser­pen­tes. Não as mata­vam, não recor­ri­am ao sacri­fí­cio. A ser­pen­te incor­po­ra­da ao ritu­al se tor­na­va um sím­bo­lo vivo. Ela repre­sen­ta­va um peri­go natu­ral, pal­pá­vel, que o homem podia mani­pu­lar e imo­bi­li­zar, no lugar dos rai­os da tem­pes­ta­de, impre­vi­sí­veis, incom­pre­en­sí­veis e incon­tro­lá­veis.

Culminando com a con­fe­rên­cia de 1923, os esfor­ços tera­pêu­ti­cos con­ce­bi­dos por Binswanger garan­ti­ram a alta do paci­en­te. Mas além de pro­var que domi­na­va suas facul­da­des men­tais, a Warburg inte­res­sa­va atri­buir um sen­ti­do cul­tu­ral à lou­cu­ra. Ao mos­trar as cor­res­pon­dên­ci­as entre esses ritu­ais ani­mis­tas e o paga­nis­mo ori­gi­ná­rio da cul­tu­ra euro­peia, assim como as res­so­nân­ci­as des­se paga­nis­mo no Renascimento, ele pre­ten­dia res­ga­tar a rela­ção míti­ca com a natu­re­za como um elo per­di­do da cul­tu­ra euro­peia, que o jus­ti­fi­ca­va na sua pró­pria lou­cu­ra: “Ao cará­ter incom­pre­en­sí­vel dos fenô­me­nos natu­rais, o índio con­tra­põe sua von­ta­de de com­pre­en­der, trans­for­man­do-se pes­so­al­men­te, tor­nan­do-se ele mes­mo essa cau­sa das coi­sas”. Estava falan­do de uma rela­ção com o mun­do, mani­fes­ta no pen­sa­men­to mági­co e na esqui­zo­fre­nia, que a era da téc­ni­ca havia silen­ci­a­do, como logo se veria, com as pio­res con­sequên­ci­as.

Ao rela­ci­o­nar o pen­sa­men­to mági­co dos índi­os ame­ri­ca­nos com a ori­gem pagã da Antiguidade euro­peia, Warburg se iden­ti­fi­ca­va com esse homem, ao mes­mo tem­po antí­po­da e ante­pas­sa­do dos seus con­tem­po­râ­ne­os euro­peus “que a tec­no­lo­gia tor­nou sere­nos”. Discretamente, esta­va dizen­do que a lou­cu­ra tem um fun­ci­o­na­men­to sim­bó­li­co, aná­lo­go ao cará­ter esqui­zoi­de das cul­tu­ras híbri­das, como a dos índi­os do sudo­es­te dos Estados Unidos, onde coe­xis­tem civi­li­za­ção lógi­ca e cau­sa­li­da­de mági­ca. Confrontava o índio do ter­ri­tó­rio dos Pueblos ao euro­peu da era da téc­ni­ca, “que espe­ra o acon­te­ci­men­to como uma neces­si­da­de orgâ­ni­ca ou mecâ­ni­ca”, mas cuja sere­ni­da­de nem por isso lhe per­mi­te pre­ver ou evi­tar o pior.

A ser­pen­te é, no final das con­tas, um sím­bo­lo inter­na­ci­o­nal que res­pon­de à ques­tão: de onde vêm toda des­trui­ção, toda mor­te e todo sofri­men­to do mun­do? (…) Ao subs­ti­tuir a cau­sa­li­da­de mito­ló­gi­ca, a cau­sa­li­da­de tec­no­ló­gi­ca supri­me o temor que o homem pri­mi­ti­vo sen­tia. Mas não pode­mos afir­mar que, ao liber­tá-lo da visão mito­ló­gi­ca, ela o aju­de real­men­te a resol­ver os enig­mas da exis­tên­cia.” À sere­ni­da­de de seus con­tem­po­râ­ne­os dian­te do cará­ter “impen­sá­vel” da his­tó­ria que esta­va por vir, Warburg con­tra­pu­nha a lou­cu­ra, trans­for­man­do-se pes­so­al­men­te, como o dan­ça­ri­no das soci­e­da­des ani­mis­tas, em ante­ci­pa­ção.

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