Onde está Waly?

Literatura

09.06.14

Parece con­sen­so que gran­de par­te da for­ça da poe­sia de Waly Salomão vinha de sua pre­sen­ça, ou seja, do poe­ma cola­do à voz e ao cor­po, ao ges­to per­for­má­ti­co, enfim. Antônio Risério, na ore­lha do Armarinho de miu­de­zas, publi­ca­do em 1993, clas­si­fi­cou Waly como um “hap­pe­ning ambu­lan­te”. Daí seu ine­vi­tá­vel inte­res­se em músi­ca, por exem­plo, mais espe­ci­fi­ca­men­te na escri­ta de can­ções, ter­re­no em que alcan­çou cer­ta noto­ri­e­da­de. Se pen­sar­mos em peças como Mel e Vapor bara­to, esta últi­ma com­pos­ta em par­ce­ria com Jards Macalé, ape­nas para citar os exem­plos mais óbvi­os, logo é pos­sí­vel con­cluir que a can­ção foi um lugar fér­til para a sua poe­sia, embo­ra Waly não fos­se músi­co. Seja como for, creio que seu pas­seio pela can­ção este­ja liga­do a este aspec­to mai­or de sua lite­ra­tu­ra: poe­ma e cor­po não devem se sepa­rar. A pági­na então deve ser “ama­da enquan­to car­ne”, em uma “espé­cie per-ver­sa de foda”, con­for­me suge­re um poe­ma do Gigolô de bibelôs, de 1983, clas­si­fi­ca­do por Paulo Leminski como “um livro de exa­ge­ros”.

No exce­len­te docu­men­tá­rio de Carlos Nader sobre Waly Salomão, Pan-Cinema per­ma­nen­te, fil­ma­do duran­te mais ou menos 15 anos e fina­li­za­do ape­nas em 2007, qua­tro anos após a mor­te do poe­ta, temos uma pro­va ain­da mais con­tun­den­te dis­so. Uma das dis­cus­sões cen­trais do fil­me con­sis­te na manei­ra como Waly enxer­ga­va a vida como um gran­de pal­co, segun­do o depoi­men­to de Antonio Cicero, ami­go e um dos prin­ci­pais inter­lo­cu­to­res do poe­ta bai­a­no. O con­trá­rio tam­bém seria ver­da­dei­ro, quer dizer, a arte tor­na-se um lugar de tes­te para a pró­pria vida – e a série de poe­mas inti­tu­la­da “Na esfe­ra da pro­du­ção de si mes­mo”, tam­bém do Gigolô, não dei­xa de ser um tes­te­mu­nho elo­quen­te dis­so, quan­do afir­ma e repe­te de modo qua­se inces­san­te: “Tenho fome de me tor­nar em tudo que não sou”. Voltando ao docu­men­tá­rio, Nader comen­ta tam­bém sobre a difi­cul­da­de de fil­mar Waly em situ­a­ção espon­tâ­nea, che­gan­do ao pon­to de pedir que o poe­ta fin­ja que está dor­min­do, pois só assim teria – supos­ta­men­te, cla­ro – uma cena menos mon­ta­da.

De fato, Nader é bas­tan­te sen­sí­vel na suges­tão de ima­gens e cenas que cap­tam aspec­tos deter­mi­nan­tes da obra e da vida de Waly. O fil­me abre, por exem­plo, com a vitri­ne de uma loja de ele­tro­do­més­ti­cos reple­ta de apa­re­lhos tele­vi­si­vos, enquan­to os pro­du­tos são anun­ci­a­dos por um locu­tor. Depois, em um tru­que, uma des­sas tele­vi­sões pas­sa a trans­mi­tir a curi­o­sa entre­vis­ta de Waly em um pro­gra­ma na Síria, país onde nas­ceu seu pai – o poe­ta é fru­to do encon­tro entre um sírio e uma ser­ta­ne­ja. Quer dizer, a tele­vi­são como metá­fo­ra inau­gu­ral de Pan-Cinema per­ma­nen­te não dei­xa de ser uma afir­ma­ção de que, como dizia o pró­prio poe­ta, a poe­sia não tem lugar (nobre) para acon­te­cer. No entan­to, tal­vez a cena mais mar­can­te do fil­me seja a ida de Waly à linha demar­ca­tó­ria que sepa­ra os dois hemis­fé­ri­os, no Equador. Ainda no avião, vol­ta­do para a câme­ra, o poe­ta afir­ma que quem está falan­do é “um bor­der­li­ne, alguém fron­tei­ri­ço, que não sabe onde ter­mi­na a luci­dez e come­ça a lou­cu­ra”. Eis aí, em pou­cas pala­vras, o pri­mei­ro pro­gra­ma poé­ti­co de Waly.

Acredito, por­tan­to, que Poesia total (Companhia das Letras, 2014), reu­nião de todos os livros de Waly Salomão, deve ser­vir tam­bém para colo­car essas ques­tões à pro­va: em que medi­da a lite­ra­tu­ra de Waly, sobre­tu­do a lei­tu­ra que faze­mos dela, pode tomar outros rumos com a ausên­cia de seu prin­ci­pal ator? Como seus poe­mas se com­por­tam ago­ra, orga­ni­za­dos em livro, pere­nes, imó­veis? Qual será o impac­to de sua obra (pois é dis­so que se tra­ta ago­ra, de uma obra) na vida de uma nova gera­ção de lei­to­res? Finalmente, como ler uma poe­sia total que sem­pre rei­vin­di­cou um lugar fora da zona da pági­na, isto é, a incom­ple­tu­de? Depois de Pescados vivos, publi­ca­do em 2004, alguns meses após a mor­te de Waly, qua­se não tínha­mos notí­cia de seus livros, e ago­ra de repen­te eles che­gam assim, che­gan­do: em edi­ção ver­de, rosa e ala­ran­ja­da e mais de 500 pági­nas, como se Poesia total fos­se o pró­prio poe­ta entran­do aos gri­tos em um ver­nis­sa­ge.

De qual­quer modo, diga­mos que mes­mo o regis­tro escri­to da poe­sia de Waly (isto é, o livro que temos em mãos) man­tém for­te cará­ter per­for­má­ti­co, extra­va­gan­te e ver­bor­rá­gi­co, como se os poe­mas qui­ses­sem sal­tar para fora da pági­na, gri­tar ou agir com (e con­tra) o lei­tor: “Aviso: / Para ser lido alto. Para ser lido/ bem alta voz para ser lido para/ den­tro. Para ser um incêndio/ LUZ FOGO CALOR”, diz um de seus inú­me­ros tex­tos sobre o assun­to. Daí tam­bém tan­tos ver­sos e poe­mas intei­ros escri­tos em cai­xa alta, alguns em negri­to, dimen­sões tipo­grá­fi­cas vari­a­das, foto­gra­fi­as de manus­cri­tos, enfim, uma explo­ra­ção até então inu­su­al de recur­sos ima­gé­ti­cos, mais visí­veis no Gigolô, e que pou­co a pou­co vai sen­do mais bem mode­la­da. No pla­no semân­ti­co, temos as inú­me­ras repe­ti­ções, de ver­sos e de pala­vras, ênfa­ses, excla­ma­ções, como se o poe­ta insis­tis­se em sua ideia, por um lado, ou como se repe­tis­se o mes­mo enun­ci­a­do até o limi­te do seu esva­zi­a­men­to, o que às vezes pode soar can­sa­ti­vo. Quanto a isso, no entan­to, Waly pare­ce bas­tan­te cla­ro e tam­bém radi­cal em sua pro­po­si­ção: o lei­tor pre­ci­sa fazer da lei­tu­ra, de fato, uma expe­ri­ên­cia, quer dizer, ter olho de mís­sil, e não de fós­sil, usan­do um jogo de pala­vras fei­to por ele pró­prio.

O títu­lo do livro, que traz a ideia de tota­li­da­de, além de se refe­rir à reu­nião de todos os tra­ba­lhos do poe­ta (embo­ra haja alguns cor­tes tam­bém, como na par­te do Armarinho de miu­de­zas, por exem­plo, que traz uma nota edi­to­ri­al infor­man­do que ape­nas os “tex­tos em ver­so” foram repro­du­zi­dos, o que é pro­ble­má­ti­co), faz pen­sar tam­bém em um segun­do pro­gra­ma poé­ti­co de Waly: a apro­pri­a­ção de tudo ou qua­se tudo que lhe caiu nas mãos. À sua manei­ra, o poe­ta rea­li­za uma espé­cie de sobre­po­si­ção ou flu­xo des­vai­ra­do de mate­ri­ais e heran­ças total­men­te dis­tin­tas, quer dizer, não exa­ta­men­te uma sín­te­se. Se por um lado a poe­sia de Waly incor­po­ra as novi­da­des da poe­sia con­cre­ta, atra­vés de usos não tra­di­ci­o­nais do espa­ço da pági­na e das tipo­gra­fi­as, o poe­ta não é insen­sí­vel ao liris­mo naci­o­nal, aliás mui­to pelo con­trá­rio, e tam­pou­co igno­rou a tra­di­ção oral nor­des­ti­na – não é ale­a­tó­rio, por­tan­to, que um de seus livros, de 1996, se cha­me jus­ta­men­te Algaravias. José Miguel Wisnik diz que seu “tea­tro ins­tan­ta­neís­ta é um arras­tão que põe tudo à vol­ta em ato, reba­ten­do tons que podem estar entre Mallarmé e a Mangueira”. Por sua vez, Davi Arrigucci Jr. con­clui um peque­no tex­to sobre o poe­ta fazen­do a seguin­te per­gun­ta: “Waly, te per­ce­bi onde não esta­vas?”. Eis aí, afi­nal, o lugar mais pro­vá­vel de encon­trá-lo.

Victor da Rosa é crí­ti­co lite­rá­rio e dou­to­ran­do em Literatura pela UFSC.

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