Os bardos da hora

Colunistas

10.06.15

Os jiha­dis­tas não can­sam de me sur­pre­en­der. Leio, no Libération, que car­to­las da FIFA estão con­ven­ci­dos de que foi inves­ti­gan­do o dinhei­ro do Catar, sob sus­pei­ta de finan­ci­ar gru­pos jiha­dis­tas, que os ame­ri­ca­nos che­ga­ram às tor­pe­zas da orga­ni­za­ção espor­ti­va recal­ci­tran­te. Por vias tor­tas, o fun­da­men­ta­lis­mo islâ­mi­co teria sua par­te de res­pon­sa­bi­li­da­de na deba­cle espe­ta­cu­lar da FIFA. Viva os jiha­dis­tas! Leio tam­bém, na The New Yorker, que não é pos­sí­vel enten­der o movi­men­to jiha­dis­ta sem conhe­cer poe­sia e, mais espe­ci­fi­ca­men­te, a poe­sia ára­be clás­si­ca. Para quem ain­da não sabia, os jiha­dis­tas são os bar­dos da hora.

Frame de vídeo que mostra jihadistas entoando poesia árabe

Osama Bin Laden era um cam­peão do ver­so. Deixou poe­mas de sua lavra, cele­bran­do, entre outros fei­tos, o 11 de setem­bro. Sua cor­res­pon­dên­cia reve­la que, além de inci­tar ações ter­ro­ris­tas con­tra o Ocidente, o líder supre­mo da Al Qaeda tam­bém se inte­res­sa­va por métri­ca e pela “ciên­cia da pro­só­dia clás­si­ca”.

É impos­sí­vel enten­der o jiha­dis­mo – seus obje­ti­vos, a atra­ção que ele exer­ce sobre novos recru­tas e sua dura­bi­li­da­de – sem exa­mi­nar sua cul­tu­ra. Essa cul­tu­ra encon­tra sua expres­são numa vari­e­da­de de for­mas, incluin­do hinos e víde­os docu­men­tá­ri­os, mas a poe­sia é o seu cora­ção”, escre­vem Robyn Creswell e Bernard Haykel na The New Yorker.

Por que os jiha­dis­tas escre­vem poe­sia? O arti­go expli­ca o lugar que a poe­sia ocu­pa no mun­do ára­be des­de antes do Corão, quan­do tro­va­do­res de tri­bos nôma­des can­ta­vam amo­res per­di­dos e lamen­ta­vam a mor­te dos com­pa­nhei­ros caí­dos em com­ba­te, até a atu­al extra­va­gân­cia de um con­cur­so tele­vi­si­vo que, ins­pi­ra­do no pro­gra­ma American Idol, é trans­mi­ti­do para mais de 70 milhões de espec­ta­do­res ao redor do mun­do. Poeta de Milhões, de onde saiu até um dos hinos da Primavera Árabe, se orgu­lha de pre­mi­ar o ven­ce­dor com mais de um milhão de dóla­res.

No mun­do ára­be, a poe­sia atri­bui auto­ri­da­de. O Estado Islâmico, por exem­plo, já tem a sua poe­ta lau­re­a­da. Ahlam al-Nasr é uma jovem mili­tan­te síria, defen­so­ra incen­diá­ria do EI, auto­ra de um ensaio em que jus­ti­fi­ca a deci­são de quei­mar vivo o pilo­to jor­da­ni­a­no Moaz al-Kasasbeh e de um livro de poe­mas (A cha­ma da ver­da­de) que os jiha­dis­tas reci­tam em víde­os na inter­net, como se ento­as­sem hinos ou can­ções fol­cló­ri­cas (mas sem músi­ca, que é proi­bi­da), duran­te momen­tos de con­fra­ter­ni­za­ção, quan­do não estão dego­lan­do ou quei­man­do reféns vivos.

A tra­di­ção da poe­sia clás­si­ca que o jiha­dis­mo pro­fes­sa é rela­ti­va­men­te sim­ples e rígi­da em suas for­mas, o que não impe­de que den­tro des­ses limi­tes haja a pos­si­bi­li­da­de de um cer­to vir­tu­o­sis­mo téc­ni­co e per­for­má­ti­co. Em geral, os poe­mas obe­de­cem a uma úni­ca rima e a uma das vari­a­ções da métri­ca canô­ni­ca, o que os tor­na popu­la­res e mais fáceis de deco­rar. É uma poe­sia inequí­vo­ca e de fácil com­pre­en­são, mais comu­ni­tá­ria do que soli­tá­ria, ide­al para a mili­tân­cia, o pro­se­li­tis­mo e a pro­pa­gan­da.

No cen­tro da polí­ti­ca jiha­dis­ta está a rejei­ção do Estado-nação”, diz o arti­go da The New Yorker. A poe­sia, como expres­são des­sa polí­ti­ca, miti­fi­ca o que havia antes das fron­tei­ras naci­o­nais impos­tas pelo Ocidente. É a pure­za do mito con­tra a cor­rup­ção da his­tó­ria. A guer­ra san­ta ser­ve a uma fan­ta­sia medi­e­val, a uto­pia do cali­fa­do. E o ana­cro­nis­mo das for­mas clás­si­cas, reche­a­das de ter­mos rebus­ca­dos e bar­ro­cos, arti­cu­la a reto­ma­da de uma tra­di­ção ide­a­li­za­da. A ele­gia é uma das for­mas mais cele­bra­das des­sa tra­di­ção. O mar­tí­rio é a cons­tru­ção de uma his­tó­ria comum, can­ta­da em gru­po.

Se a sim­pli­ci­da­de das for­mas não é for­tui­ta, tam­pou­co um títu­lo infla­ma­do como A cha­ma da ver­da­de. Os poe­mas can­tam a jihad como ver­da­de impe­ra­ti­va e não mais como relí­quia do pas­sa­do ou ter­mo a ser rein­ter­pre­ta­do por auto­ri­da­des reli­gi­o­sas den­tro de um con­tex­to his­tó­ri­co. O fun­da­men­ta­lis­mo exor­ta a lei­tu­ra ao pé da letra, em pri­mei­ro grau, sem inter­pre­ta­ções, como se o sen­ti­do fos­se um só e esti­ves­se dado a pri­o­ri, tan­to no Corão como nos poe­mas.

O jiha­dis­mo não rejei­ta ape­nas a ideia de nação impos­ta como heran­ça colo­ni­al por ingle­ses e fran­ce­ses ao Oriente Médio, com con­sequên­ci­as ain­da hoje desas­tro­sas; ele rejei­ta tudo o que na moder­ni­da­de oci­den­tal defi­ne a gran­de poe­sia, a come­çar pela polis­se­mia, pela ambi­gui­da­de, pela iro­nia e pelo humor. O sen­ti­do mili­tan­te pre­ci­sa ser mani­fes­to, uní­vo­co e lite­ral. A mili­tân­cia subs­ti­tui a dúvi­da pela pala­vra de ordem e o céti­co pelo cren­te. Um dos ver­sos cita­dos no arti­go diz: “Acabou a era de sub­mis­são ao des­cren­te”.

Aqui, a ideia de rup­tu­ra, do novo, fun­da­men­tal para a poe­sia moder­na no Ocidente, seria uma here­sia se não fos­se incon­ce­bí­vel. A “revo­lu­ção” não pas­sa de um rea­jus­te de con­tas, de uma lei­tu­ra lite­ral dos tex­tos, de uma sacra­li­za­ção da pala­vra escri­ta como ver­da­de, sem o ris­co de duplos sen­ti­dos e sem a ame­a­ça da inte­li­gên­cia.

Ao se ser­vir da poe­sia como ins­tru­men­to dou­tri­ná­rio e de pro­pa­gan­da, o jiha­dis­mo aca­ba nos dan­do mais uma lição: ele expli­ci­ta, por opo­si­ção, o valor pro­fun­da­men­te polí­ti­co da poe­sia que o sen­so comum con­si­de­ra­da inó­cua, aque­la “que não ser­ve para nada”, a poe­sia que se lê sozi­nho e que cele­bra a dúvi­da, a ambi­gui­da­de, a rup­tu­ra e a pos­si­bi­li­da­de de inter­pre­ta­ção (a inte­li­gên­cia) do lei­tor. Primeiro, por­que ela tra­ta de um mun­do real (e não de uma fan­ta­sia míti­ca) e depois, por­que, ao can­tar sin­gu­la­ri­da­des e sub­je­ti­vi­da­des, não pre­ten­de impor regras, nem limi­tes nem fron­tei­ras a nin­guém. 

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