Pi, o filme líquido de Ang Lee

No cinema

21.12.12

As aven­tu­ras de Pi é uma fábu­la sem moral, ou antes, uma fábu­la cuja moral é sim­ples­men­te a neces­si­da­de que temos de acre­di­tar na fic­ção como meio de enfren­tar a dure­za e a opa­ci­da­de do real. Contra essa dure­za e essa opa­ci­da­de, Ang Lee fez um fil­me líqui­do e trans­lú­ci­do. Seu ele­men­to é a água, sua mar­ca visu­al é a trans­pa­rên­cia. Até suas noi­tes são lumi­no­sas e níti­das.

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Qualquer sinop­se do fil­me dirá que se tra­ta da insó­li­ta via­gem de um náu­fra­go ado­les­cen­te, Pi Patel (Suraj Sharma), com um tigre de Bengala num bote sal­va-vidas. Mas o nau­frá­gio do navio que os dei­xou à deri­va no mar só ocor­re por vol­ta dos 40 minu­tos de jogo cor­ri­do. Antes dis­so, temos o rela­to flo­re­a­do da infân­cia e ado­les­cên­cia de Pi na Índia, onde seu pai tinha um zoo­ló­gi­co. E vamos com­bi­nar: aguen­ta­mos toda aque­le exo­tis­mo de alma­na­que, a filo­so­fia bara­ta e a músi­ca xaro­po­sa só para poder ver as espe­ta­cu­la­res cenas no mar.

Abolição das fron­tei­ras lógi­cas

E não per­de­mos por espe­rar. As ima­gens aquá­ti­cas são arre­ba­ta­do­ras, e pou­co impor­ta que tenham sido cri­a­das digi­tal­men­te — como, de res­to, qua­se toda a movi­men­ta­ção do tigre e dos outros ani­mais. O 3-D, no caso, ser­ve para real­çar a irre­a­li­da­de des­se mun­do marí­ti­mo atem­po­ral e sem pon­tos geo­grá­fi­cos de refe­rên­cia. Em nume­ro­sas pas­sa­gens, refle­xos e trans­pa­rên­ci­as fazem com que céu e mar se con­fun­dam, numa comu­nhão cós­mi­ca, se não meta­fí­si­ca. Cinema tam­bém é isso: abo­li­ção das fron­tei­ras lógi­cas, mara­vi­lha pura e sim­ples.

O alí­vio, para quem viu o trai­ler ou leu os tex­tos de divul­ga­ção, é cons­ta­tar que não, o rapaz e o tigre não ficam ami­gui­nhos, ao esti­lo Disney/Spielberg. A rela­ção entre eles é mui­to mais de guer­ra ou jogo do que de afe­to. A cena em que Pi uri­na no bote para mar­car ter­ri­tó­rio e rece­be de vol­ta um pode­ro­so jato de uri­na é emble­má­ti­ca des­sa rela­ção. Não por aca­so, o ins­tru­men­to de poder é o meio líqui­do.

Ang Lee é um cine­as­ta que divi­de opi­niões. Para os admi­ra­do­res, é um dire­tor ver­sá­til, que não se sobre­põe vai­do­sa­men­te aos tra­ba­lhos que pro­duz. Por isso é capaz de se dar bem tan­to na comé­dia moder­na de cos­tu­mes (Banquete de casa­men­to) como na adap­ta­ção de um roman­ce oito­cen­tis­ta (Razão e sen­si­bi­li­da­de), na sub­ver­são do ethos más­cu­lo do faro­es­te (O segre­do de Brokeback Mountain) ou na esti­li­za­ção das artes mar­ci­ais ori­en­tais (O tigre e o dra­gão). Uma espé­cie de Stephen Frears sino-ame­ri­ca­no, em suma. Para os detra­to­res, essa hete­ro­ge­nei­da­de seria sin­to­ma de fal­ta de mar­ca auto­ral, o que rele­ga­ria Lee, na melhor das hipó­te­ses, à cate­go­ria dos bons arte­sãos.

Dívida com Scliar

Qualquer que seja o vere­dic­to, o que impor­ta são os fil­mes. E As aven­tu­ras de Pi é um que mere­ce ser vis­to, até pelo sau­dá­vel ques­ti­o­na­men­to, nos minu­tos finais, da con­fi­a­bi­li­da­de do nar­ra­dor, o que traz a pos­si­bi­li­da­de de uma relei­tu­ra retros­pec­ti­va. É uma boa alter­na­ti­va para quem qui­ser se diver­tir com a famí­lia no cine­ma nes­ta épo­ca de féri­as sem se sen­tir ensur­de­ci­do e idi­o­ti­za­do pela estri­dên­cia dos block­bus­ters infan­to-juve­nis.

Uma últi­ma pala­vra sobre Pi. O fil­me se base­ou no roman­ce Life of Pi, do espa­nhol Yann Martel, que por sua vez con­fes­sou ter-se ins­pi­ra­do no livro Max e os feli­nos, de Moacyr Scliar (1937–2011), em que um judeu ale­mão, fugin­do no nazis­mo, sofre um nau­frá­gio e aca­ba atra­ves­san­do o Atlântico num bote jun­to com um jaguar. É uma pena que o escri­tor gaú­cho não tenha sobre­vi­vi­do para pre­sen­ci­ar o êxi­to mun­di­al des­se exu­be­ran­te des­do­bra­men­to de sua peque­na fábu­la.

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