Questão de classe

Colunistas

08.04.15

Downton Abbey, a série que retra­ta a vida da aris­to­cra­cia ingle­sa no iní­cio do sécu­lo pas­sa­do, aca­ba de estre­ar na TV Cultura, e sua entra­da na tele­vi­são bra­si­lei­ra tem mui­to a ensi­nar sobre uma das ques­tões que atra­ves­sa a desi­gual­da­de bra­si­lei­ra: a divi­são em clas­ses. Downton Abbey con­ta a his­tó­ria de uma famí­lia aris­to­crá­ti­ca em len­ta deca­dên­cia, con­fron­ta­da por um lado com a ascen­são da clas­se média, por outro com o iní­cio da des­na­tu­ra­li­za­ção da posi­ção dos cri­a­dos, estes por sua vez tam­bém orga­ni­za­dos em um rigo­ro­so sis­te­ma hie­rár­qui­co (mor­do­mos, gover­nan­tas, damas de com­pa­nhia, cozi­nhei­ras, assis­ten­tes de cozi­nha, vale­tes).

A atriz Maggie Smith na série Downton Abbey

Nesse con­tex­to, há inú­me­ros dra­mas, mor­tes, nas­ci­men­tos, casa­men­tos, e tudo mais que pode acon­te­cer na vida de uma famí­lia ao lon­go dos anos.  Esta é a carac­te­rís­ti­ca, diga­mos, nove­les­ca da série, na qual cha­mam a aten­ção dois aspec­tos. O pri­mei­ro pare­ce explí­ci­to e inten­ci­o­nal: mos­trar o pro­ces­so de trans­for­ma­ção da aris­to­cra­cia, então ame­a­ça­da de per­der seus pri­vi­lé­gi­os, seja pela esca­la­da econô­mi­ca e cul­tu­ral da clas­se média, seja por que a clas­se tra­ba­lha­do­ra já não está mais dis­pos­ta a se man­ter sub­mis­sa.

Fatos his­tó­ri­cos, como o iní­cio da Primeira Guerra Mundial, ou enre­dos fic­tí­ci­os, como o casa­men­to de uma das filhas da famí­lia aris­to­cra­ta com o moto­ris­ta irlan­dês, dão con­ta de retra­tar o que pare­ce estar em jogo – a luta de clas­ses. Praticamente como no Brasil do sécu­lo XXI. Aqui, no entan­to, o deba­te sobre a luta de clas­ses tem sido sis­te­ma­ti­ca­men­te atra­ves­sa­do por dois outros deba­tes – o com­ba­te ao racis­mo e a desi­gual­da­de de gêne­ro – como se fos­se neces­sá­rio ou mes­mo pos­sí­vel cri­ar algum tipo de hie­rar­quia entre desi­gual­da­des.

No Brasil de 2015, como na Inglaterra de 1910, o que entra em colap­so quan­do se reco­nhe­ce a cen­tra­li­da­de da luta de clas­ses é a pró­pria ideia de que há um lugar des­ti­na­do a cada um, lugar este deter­mi­na­do por con­di­ções econô­mi­cas, cul­tu­rais ou soci­ais. Se me pro­po­nho a apro­xi­mar a con­ser­va­do­ra Inglaterra do iní­cio do sécu­lo XX do Brasil tam­bém con­ser­va­dor do iní­cio do sécu­lo XXI, é por achar que uma de nos­sas pio­res tra­gé­di­as é ain­da acre­di­tar na ideia de que exis­tem luga­res fixos. Sobre essa cren­ça, se cons­ti­tui o racis­mo con­tra alu­nos negros nas uni­ver­si­da­des, mas tam­bém se fun­da­men­tam os dis­cur­sos de que só negros podem lutar con­tra o racis­mo. Sobre essa cren­ça, man­tém-se a hie­rar­quia de gêne­ro, a hete­ros­se­xu­a­li­da­de com­pul­só­ria e a homo­fo­bia, mas tam­bém fun­da­men­tam-se dis­cur­sos de que só mulhe­res e homos­se­xu­ais podem lutar con­tra a dis­cri­mi­na­ção de gêne­ro. Sobre essa cren­ça, natu­ra­li­za-se a rela­ção entre pobre­za e vida pre­cá­ria.

Em Downton Abbey, a orga­ni­za­ção soci­al a par­tir de luga­res vem da ideia de que a tra­di­ção jus­ti­fi­ca e natu­ra­li­za o lugar que cabe a cada um no mun­do soci­al. No Brasil, a con­vic­ção de que a vida em soci­e­da­de pode ser orga­ni­za­da a par­tir de luga­res pré-fixa­dos per­mi­te a natu­ra­li­za­ção do assas­si­na­to do meni­no Eduardo Jesus Ferreira, 10 anos de ida­de, mor­to com uma bala na cabe­ça na por­ta de casa. Na prá­ti­ca, natu­ra­li­za-se toda mor­te em fave­la, como se ali fos­se “lugar” de ser assas­si­na­do, ain­da que cri­an­ça, ain­da que víti­ma da vio­lên­cia de esta­do. Nos últi­mos dez anos, o Estado do Rio de Janeiro con­cen­trou 60% des­se tipo de cri­me no país, e 50 cri­an­ças como Eduardo foram mor­tas pela polí­cia. Portanto, a jul­gar pelas esta­tís­ti­cas, lugar e cor da pele tor­nam-se des­ti­no.

Vidas que valem a pena ser pre­ser­va­das ocu­pam luga­res sim­bó­li­cos dife­ren­tes das que não têm valor soci­al. No noti­ciá­rio, na manei­ra como a soci­e­da­de sofre o luto por essa per­da, na for­ma como os gover­nan­tes rea­gem, nos dis­cur­sos ofi­ci­ais e nas diver­sas repre­sen­ta­ções do ritu­al de mor­te, há vidas que pare­cem valer mais que outras, jogan­do por ter­ra outra ideia tida como natu­ral, a do valor abso­lu­to da vida. Este é o segun­do aspec­to que me cha­ma a aten­ção em Downton Abbey: depois do trau­ma da Primeira Guerra Mundial, o valor da vida se modi­fi­ca para todas as clas­ses, e con­for­me as trans­for­ma­ções soci­ais avan­çam, homens e mulhe­res rea­gi­rão às mudan­ças de modo dis­tin­to. Para os homens em posi­ção de poder – seja o patri­ar­ca da famí­lia, seja seu mor­do­mo –, os luga­res bem defi­ni­dos são uma for­ma de man­ter as a vida orde­na­da sob seus coman­dos. Para homens subal­ter­nos e mulhe­res – aris­to­cra­tas ou cri­a­das, são todas subal­ter­nas, ain­da que em graus mui­tos dife­ren­tes de sub­mis­são –, a pos­si­bi­li­da­de do fim de uma orga­ni­za­ção topo­ló­gi­ca é a pers­pec­ti­va de liber­da­de em rela­ção a rotei­ros de vida deter­mi­na­dos.

Se o deba­te sobre a ques­tão de clas­se me pare­ce inten­ci­o­nal, no que diz res­pei­to às dife­ren­ças sexu­ais, Downton Abbey é mais vol­ta­da para temas morais, sobre­tu­do o casa­men­to, já que a esco­lha de par­cei­ros amo­ro­sos ain­da está pau­ta­da por inte­res­ses soci­ais e econô­mi­cos ori­en­ta­dos a man­ter o patrimô­nio no mes­mo lugar de sem­pre (as mulhe­res aris­to­cra­tas são lite­ral­men­te moe­da de tro­ca). É de for­ma qua­se sub­ja­cen­te que se pode per­ce­ber, na ter­cei­ra tem­po­ra­da, uma trans­for­ma­ção das posi­ções assu­mi­das pelas mulhe­res. Da tia Violet, a gran­de dama ingle­sa inte­res­sa­da em man­ter as apa­rên­ci­as – magis­tral­men­te inter­pre­ta­da pela atriz Maggie Smith –, à cri­a­da demi­ti­da por se apai­xo­nar pelo patrão, todas as mulhe­res de Abbey se mos­tram dis­pos­tas a mudar. Em par­te por­que a série ide­a­li­za essas mulhe­res como um gru­po que teria pou­co a per­der nos seus res­pec­ti­vos luga­res, des­ti­tuí­dos ape­nas de valor soci­al. Não há vio­lên­ci­as explí­ci­tas, por exem­plo, o que per­mi­te a repre­sen­ta­ção das mulhe­res ingle­sas como ele­gan­tes e inqui­e­tas senho­ras. No entan­to, quan­do, como no Brasil, os luga­res pas­sam a repre­sen­tar um ris­co de vida, inter­ro­gá-los tor­na-se uma tare­fa éti­ca que a mor­te do meni­no Eduardo impõe.

, ,