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Rio-São Paulo

Colunistas

27.08.14

A par­tir des­te momen­to, pedi­mos aos pas­sa­gei­ros que des­li­guem seus apa­re­lhos ele­trô­ni­cos, mes­mo aque­les que pos­su­am modo avião, afi­ve­lem seus cin­tos de segu­ran­ça e man­te­nham os encos­tos de suas pol­tro­nas na posi­ção ver­ti­cal.”

Ao som de músi­ca alta, mode­los esvo­a­çan­tes cor­rem pelo cam­po, nas telas atrás do encos­to de cada pol­tro­na, ven­den­do a nova cole­ção de uma gri­fe femi­ni­na que exal­ta a nos­tal­gia de um ide­al de vida hip­pie, quan­do flo­res na cabe­ça, ves­ti­di­nhos bran­cos e pés des­cal­ços nada tinham a ver com o comér­cio de rou­pas.

A (nome da com­pa­nhia aérea) dis­põe de um moder­no ser­vi­ço de entre­te­ni­men­to com telas tou­ch scre­en para o seu con­for­to a bor­do. Nossos comis­sá­ri­os esta­rão dis­po­ni­bi­li­zan­do gra­tui­ta­men­te fones de ouvi­dos para os pas­sa­gei­ros inte­res­sa­dos.”

No mes­mo volu­me de som, a pro­pa­gan­da de um empre­en­di­men­to imo­bi­liá­rio com títu­lo de nobre­za se sobre­põe à da gri­fe femi­ni­na, enquan­to nas telas tou­ch scre­en atrás das pol­tro­nas des­fi­lam não mais mode­los com flo­res na cabe­ça mas ima­gens dos ter­re­nos de até 5 mil metros qua­dra­dos do lote­a­men­to de luxo à bei­ra de uma repre­sa, com hípi­ca, iate clu­be e qua­dras de tênis.

Um pas­sa­gei­ro cha­ma a aero­mo­ça e per­gun­ta se seria pos­sí­vel abai­xar um pou­co o som, para que ele pos­sa ler (o que vem ten­tan­do fazer com difi­cul­da­de des­de que entrou no avião). Como se pro­fe­ris­se uma lição de civis­mo a uma excres­cên­cia indi­vi­du­a­lis­ta, a aero­mo­ça res­pon­de: “O senhor não é o úni­co den­tro des­ta aero­na­ve. Outros pas­sa­gei­ros podem estar inte­res­sa­dos nas infor­ma­ções que temos para dar. Pode não pare­cer, mas esta­mos numa demo­cra­cia”. O pas­sa­gei­ro retru­ca: “Desculpe, mas paguei a pas­sa­gem. E, se dis­tri­buí­ram fones de ouvi­do, que ouça só quem qui­ser”. A aero­mo­ça, irri­ta­da e ago­ra como se tives­se sido ofen­di­da pes­so­al­men­te, ape­la: “Por enquan­to, ain­da esta­mos trans­mi­tin­do as ins­tru­ções de segu­ran­ça, que todos os pas­sa­gei­ros devem ouvir. São as regras da com­pa­nhia e da Anac”.

Uma cole­ga pas­sa por ela e per­gun­ta qual é o pro­ble­ma. A aero­mo­ça res­pon­de: “O pas­sa­gei­ro está inco­mo­da­do com as nor­mas de segu­ran­ça. Diz que está que­ren­do ler”. A outra levan­ta os olhos para o céu, em bus­ca do auxí­lio divi­no (já que sua paci­ên­cia está por um fio), e segue para o fun­do do avião.

Terminada a publi­ci­da­de do empre­en­di­men­to imo­bi­liá­rio, o comis­sá­rio reto­ma as “ins­tru­ções de segu­ran­ça”: “Para des­fru­tar de um mun­do de dis­tra­ções e jogos, bas­ta tocar a tela tou­ch scre­en. Nosso voo con­ta ain­da com o patro­cí­nio dos bom­bons (mar­ca de cho­co­la­te). Hoje, esta­re­mos sor­te­an­do três cai­xas dos bom­bons (mar­ca de cho­co­la­te), com uma vari­e­da­de de cho­co­la­tes amar­go e ao lei­te. No bol­so da pol­tro­na à sua fren­te, os senho­res pode­rão encon­trar tam­bém uma lis­ta dos pro­du­tos de bele­za (mar­ca de cos­mé­ti­cos). Até o final do nos­so voo, tam­bém esta­re­mos sor­te­an­do uma néces­sai­re com alguns dos melho­res pro­du­tos (mar­ca de cos­mé­ti­cos), como o gel de banho e o cre­me hidra­tan­te que dei­xa suas mãos maci­as e sedo­sas. Dentro de ins­tan­tes, esta­re­mos ser­vin­do nos­so lan­che, hoje com san­duí­che de quei­jo bran­co, pei­to de peru e pão sem glú­ten da (mar­ca de pães). Além da ver­são sem glú­ten, os pães (mar­ca de pães) dis­po­ni­bi­li­zam uma vari­e­da­de de opções para você e sua famí­lia nos melho­res super­mer­ca­dos das cida­des que com­põem a nos­sa rede de des­ti­nos em todo o Brasil. Consulte os deta­lhes em nos­sa revis­ta de bor­do. O quei­jo light (mar­ca de lati­cí­ni­os) usa­do em nos­sos san­duí­ches é pró­prio para uma die­ta equi­li­bra­da e natu­ral, com lac­to­se redu­zi­da. Como sobre­me­sa, vamos estar ser­vin­do bar­ras de cere­ais (mar­ca de bar­ra de cere­al) nos sabo­res pudim de lei­te ou goi­a­ba­da. Os pro­du­tos (mar­ca de bar­ra de cere­al) dão a ener­gia que você pre­ci­sa para enfren­tar os desa­fi­os do dia a dia.”

O som de uma nova pro­pa­gan­da de jeans, sem­pre aos bra­dos, toma a cabi­ne do avião, ago­ra com mode­los femi­ni­nos tocan­do gui­tar­ra e bate­ria em ban­das de rock, nas telas tou­ch scre­en.

Para acom­pa­nhar seu lan­che, esta­re­mos ser­vin­do refri­ge­ran­tes (mar­cas de refri­ge­ran­tes) e sucos (mar­ca de suco) de laran­ja e mara­cu­já diet. O suco (mar­ca de suco) patro­ci­na o pro­je­to (nome do pro­je­to), que vem des­co­brin­do e for­man­do jovens atle­tas em comu­ni­da­des caren­tes por todo o Brasil. Nós, da (com­pa­nhia aérea), tam­bém acre­di­ta­mos num país melhor e por isso pedi­mos que os pas­sa­gei­ros con­tri­bu­am com o que pude­rem para a cam­pa­nha (nome da cam­pa­nha) de auxí­lio às cri­an­ças defi­ci­en­tes. Os enve­lo­pes para as con­tri­bui­ções podem ser encon­tra­dos no bol­so da pol­tro­na à sua fren­te. Basta colo­car sua con­tri­bui­ção no enve­lo­pe e entre­gá-lo fecha­do, na saí­da, a um dos nos­sos comis­sá­ri­os.”

Como não é pos­sí­vel ler, o pas­sa­gei­ro fecha o livro e os olhos, mas o que lhe vem à cabe­ça são só as ima­gens de um ído­lo da cul­tu­ra popu­lar ex-vege­ta­ri­a­no ven­den­do car­ne de boi e de pro­pa­gan­das de resorts na sel­va amazô­ni­ca, que se alter­nam num rit­mo fre­né­ti­co, como um pesa­de­lo. Quando ele abre os olhos, o lan­che já foi ser­vi­do e o sor­teio já come­çou: “Os sor­te­a­dos dos bom­bons (mar­ca de cho­co­la­te) são as cadei­ras 4B, 21D e 12F! O sor­te­a­do da néces­sai­re (mar­ca de cos­mé­ti­cos) é a cadei­ra 15A”. Ouve-se uma excla­ma­ção de feli­ci­da­de vin­do da cadei­ra 15A, segui­da de con­gra­tu­la­ções. “A (nome da com­pa­nhia aérea) se orgu­lha de ser a trans­por­ta­do­ra ofi­ci­al do (cam­pe­o­na­to espor­ti­vo). A (nome da com­pa­nhia aérea) sabe que voar é uma esco­lha e lhes agra­de­ce por terem esco­lhi­do a (nome da com­pa­nhia aérea). Estamos ini­ci­an­do nos­so pro­ce­di­men­to de des­ci­da para o aero­por­to de Congonhas, em São Paulo. A par­tir des­te momen­to, pedi­mos aos pas­sa­gei­ros que des­li­guem seus apa­re­lhos ele­trô­ni­cos e retor­nem o encos­to de suas pol­tro­nas à posi­ção ver­ti­cal. Por razões de segu­ran­ça, man­te­nham os cin­tos afi­ve­la­dos até o com­ple­to esta­ci­o­na­men­to da aero­na­ve etc.”

O avi­so refe­ren­te ao cin­to de segu­ran­ça con­ti­nua ace­so e a aero­na­ve ain­da não parou com­ple­ta­men­te, mas os pas­sa­gei­ros já estão em pé, se espre­men­do para ver quem sai pri­mei­ro do avião, ao som de xilo­fo­nes, sinos, gri­los, asso­bi­os, marim­bas e tri­na­dos dos celu­la­res. O pas­sa­gei­ro se lem­bra de uma anti­ga pro­pa­gan­da anti­co­mu­nis­ta, na qual o comu­nis­mo era repre­sen­ta­do por um mun­do onde tudo era igual e cin­za (e tris­tís­si­mo), por­que nada tinha nome, ao con­trá­rio do mun­do capi­ta­lis­ta, onde tudo era colo­ri­do e feliz, gra­ças às dife­ren­tes mar­cas. Por ser uma excres­cên­cia de egoís­mo e indi­vi­du­a­lis­mo, em vez de entre­gar o enve­lo­pe com sua con­tri­bui­ção às cri­an­ças defi­ci­en­tes, ele ain­da pen­sa em recla­mar com a aero­mo­ça na por­ta do avião. Mas o bom sen­so fala mais alto e o pas­sa­gei­ro sai cala­do.

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