Saudosa cabocla

Correspondência

19.12.11

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Grande Guru,

Logo se vê que somos homens de famí­lia… A mãe, a filha…

O fas­cí­nio dos euro­peus e de nós seus des­cen­den­tes pelas par­tes gla­bras vem de há mui­to. Está regis­tra­do até na car­ta de Pero Vaz de Caminha a El Rei. “Ali anda­vam entre eles três ou qua­tro moças, bem moças e bem gen­tis, com cabe­los mui­to pre­tos, com­pri­dos pelas espá­du­as, e suas ver­go­nhas tão altas, tão cer­ra­di­nhas e tão lim­pas das cabe­lei­ras que, de as mui­to bem olhar­mos, não tínha­mos nenhu­ma ver­go­nha”, babou o gajo, depois de meses no mar e mui­tos anos enter­ran­do-se entre bas­tas cabe­lei­ras lusas.

Se exis­tem advo­ga­dos de por­ta de cadeia, cer­ta­men­te exis­tem psi­ca­na­lis­tas de por­ta de Inconsciente, como quer o Marcelo Madureira, e nis­so eu sou auto­di­da­ta. Ao relem­brar o des­co­bri­men­to do Brasil, lem­bro-me do meu pró­prio des­co­bri­men­to, o do sexo. Na ver­da­de, eu não sabia o que era nem para que ser­via, mas intuía que gos­ta­ria. Ou seja, como os por­tu­gue­ses, que per­se­gui­am o cami­nho para as outras Índias, dian­te do Brasil. Fui cri­an­ça sob a dita­du­ra (sem tro­ca­di­lho, por favor) e não havia essa vas­ta expo­si­ção de car­nes em revis­tas, sites, TV e cine­ma. Em cer­tos canais por assi­na­tu­ra, depois de meia-noi­te libe­ra geral e rola saca­na­gem light, light só por ser suges­ti­va, não explí­ci­ta — apa­re­ce qua­se tudo o que tem para apa­re­cer nas donas. Ah, seu fos­se guri hoje em dia…

No final dos anos 60 para os anos 70, porém, não havia mui­tos luga­res onde um guri curi­o­so pudes­se con­tem­plar a intei­re­za da figu­ra femi­ni­na. Eu era vici­a­do em ban­ca de jor­nal e des­co­bri que havia uma exce­ção nes­sa bur­ca soci­al: pos­tais com fotos de índi­as, pos­tais que eu cole­ci­o­na­va num álbum de capa ver­de (onde terá ido parar?), embo­ra, à épo­ca, nem ligas­se direi­to o nome à pes­soa. A ficha só foi cair há pou­cos anos, numa ses­são de auto­a­ná­li­se de por­ta de Inconsciente. Nos pos­tais, eu podia con­tem­plar as jovens índi­as pela­do­nas e ain­da afe­tar um pre­co­ce inte­res­se antro­po­ló­gi­co. Uma tia umban­dis­ta acha­va, toli­nha, que o meu inte­res­se pelas fotos do Xingu se devia à exis­tên­cia de um cabo­clo sau­do­so de sua malo­ca den­tro de mim. Nem eu nem ela ima­gi­ná­va­mos que o que eu que­ria era estar den­tro de uma cabo­cla.

Creio que minha pre­fe­rên­cia por more­nas e não por lou­ras tam­bém tenha nas­ci­do na obser­va­ção daque­las moças bem moças, com cabe­los mui­to pre­tos, com­pri­dos pelas espá­du­as. Bárbara Evans é lou­ra, cer­to. Se ape­nas está lou­ra, sua nudez esca­nho­a­da não for­ne­ce evi­dên­cia. Mas lá está sua ver­go­nha, tão alta, tão cer­ra­di­nha, tão lim­pa de cabe­lei­ra… Logo, Bárbara se tor­na cabo­cla hono­rá­ria e mexe com os meus ins­tin­tos mais pri­mi­ti­vos (essa con­tri­bui­ção o Bob “Mato nos pei­to” Jefferson deu à lín­gua pátria, temos de admi­tir). Entendo, pois, a situ­a­ção-limi­te vivi­da por você no seu escri­tó­rio com a mãe da moça, a Monique. Fosse eu a com­ple­tar 50 anos, e a per­na na pol­tro­na do meu escri­tó­rio fos­se a da Bárbara, acho que não teria tido a sua têm­pe­ra, ó guru: rece­be­ria car­tão ver­me­lho, tapa na cara e divór­cio por jus­ta cau­sa.

Todo esse nos­so papo me lem­bra uma das mui­tas fra­ses geni­ais do Millôr, fra­se que cito de memó­ria: tara­do é um homem que age igual a qual­quer outro, mas é pego no ato.

Bem, me des­pe­ço aqui, meu ami­go. Agora que nos­sas con­ver­sas vol­tam para as tre­vas, a gen­te pode vol­tar a pegar pesa­do.

Abração,

Arthur

* Na ima­gem da home que ilus­tra este post: mulhe­res na cerimô­nia do Yamaricumã, c. 1975, Parque Indígena do Xingu-MT (foto de Maureen Bisilliat/acervo IMS)

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