Tabu reinventa África colonial

No cinema

28.06.13

"Tabu", de Miguel Gomes

Tabu, do por­tu­guês Miguel Gomes, é des­de já um dos fil­mes do ano, por sua ori­gi­na­li­da­de des­con­cer­tan­te, seu fres­cor, sua rara com­bi­na­ção de liber­da­de de ima­gi­na­ção e rigor de lin­gua­gem. Não foi à toa que essa copro­du­ção luso-fran­co-ger­ma­no-bra­si­lei­ra ganhou o prê­mio da crí­ti­ca inter­na­ci­o­nal no fes­ti­val de Berlim do ano pas­sa­do.

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Rodado num dis­cre­to pre­to e bran­co de bai­xo con­tras­te e gran­de pro­fun­di­da­de de cam­po, que dá a ver todos os mati­zes do cin­za, o fil­me se divi­de em duas par­tes bem dis­tin­tas. Na pri­mei­ra, na Lisboa atu­al, Pilar (Teresa Madruga), uma soli­tá­ria mili­tan­te cató­li­ca dos direi­tos huma­nos, ten­ta sal­var do desas­tre sua vizi­nha Aurora (Laura Soveral), uma velho­ta ama­lu­ca­da vici­a­da em jogo e em remé­di­os, sem­pre às tur­ras com a empre­ga­da cabo-ver­di­a­na (Isabel Cardoso). A atmos­fe­ra, o entre­cho e os per­so­na­gens um tan­to insó­li­tos lem­bram alguns melo­dra­mas irô­ni­cos de Almodóvar, como A flor do meu segre­do ou Abraços par­ti­dos.

Na segun­da par­te, ambi­en­ta­da em algum lugar da África pro­fun­da, ao pé de um cer­to Monte Tabu, con­ta-se a his­tó­ria pre­gres­sa de Aurora, filha de um rico plan­ta­dor de chá numa colô­nia lusi­ta­na no con­ti­nen­te. Essa segun­da meta­de é con­ta­da retros­pec­ti­va­men­te em off por Gian Luca Ventura (Henrique Espírito Santo/Carloto Cotta), velho ami­go e aman­te de Aurora (encar­na­da na juven­tu­de por Ana Moreira).

África de cine­ma

O arti­fí­cio da nar­ra­ção indi­re­ta, tin­gi­da pela memó­ria afe­ti­va, per­mi­te a Miguel Gomes cri­ar uma África “de cine­ma”, em que se mis­tu­ram mitos aven­tu­rei­ros român­ti­cos e ecos da domi­na­ção colo­ni­al euro­peia. Um tri­ân­gu­lo amo­ro­so trá­gi­co se desen­ro­la sobre um pano de fun­do de cro­co­di­los, safá­ris, nati­vos ser­vis, fru­tas tro­pi­cais, cren­ças feti­chis­tas e a obs­cu­ra ame­a­ça de revol­tas tri­bais.

"Tabu", de Miguel Gomes

O dis­tan­ci­a­men­to irô­ni­co do dire­tor se exer­ce de diver­sas manei­ras: no tom sere­no da reme­mo­ra­ção de Ventura, no fato de os jovens pro­ta­go­nis­tas do dra­ma afri­ca­no serem play­boys que andam de moto e mon­tam um gru­po de rock român­ti­co no meio da sel­va, mas prin­ci­pal­men­te por um enge­nho­so dis­po­si­ti­vo for­mal. Nas cenas relem­bra­das não se ouvem os diá­lo­gos, o que impli­ca um cer­to cli­ma de cine­ma mudo, mas ape­nas alguns ruí­dos, sele­ci­o­na­dos cui­da­do­sa­men­te: pas­sos no mata­gal, tri­na­dos de um ou outro pás­sa­ro, o ron­co de um motor, batu­ques nati­vos.

A inu­si­ta­da tex­tu­ra assim cri­a­da nos reme­te a um ter­re­no entre o real e o ima­gi­ná­rio. Uma poé­ti­ca, em suma, espe­ci­fi­ca­men­te cine­ma­to­grá­fi­ca, impos­sí­vel de ser expres­sa em qual­quer outra lin­gua­gem. Ao mes­mo tem­po, o con­jun­to de refe­rên­ci­as esti­mu­la a refle­xão sobre toda a ideia que temos da África, ali­men­ta­da por infor­ma­ções his­tó­ri­cas, docu­men­tá­ri­os etno­grá­fi­cos, fil­mes de aven­tu­ra, gibis, can­ções etc.

Cenografia inu­si­ta­da

A mise-en-scè­ne de Gomes nun­ca é banal, mes­mo no regis­tro mais dire­to da pri­mei­ra par­te. Sua obje­ti­vi­da­de nar­ra­ti­va é admi­rá­vel. Um exem­plo entre mui­tos: Pilar vai a um asi­lo fora da cida­de bus­car Ventura, a pedi­do da hos­pi­ta­li­za­da Aurora. No cami­nho de vol­ta a Lisboa, aten­de o celu­lar e ouve uma notí­cia em silên­cio. Corta para um car­ro fúne­bre. Nada pre­ci­sou ser dito ao espec­ta­dor.

Os acha­dos ceno­grá­fi­cos são mui­tos. Num shop­ping cen­ter lis­bo­e­ta, uma fal­sa mata tro­pi­cal, com tuca­no e tudo, ante­ci­pa a ambi­en­ta­ção afri­ca­na que virá em segui­da. Já na África, um maca­co arran­ca da pare­de os mapas pou­co cien­tí­fi­cos do con­ti­nen­te que o per­so­na­gem Mario (Manuel Mesquita) dese­nha, entre um ensaio e outro da sua Mario’s Band. A ban­da pro­pri­a­men­te dita pon­tua iro­ni­ca­men­te a tra­gé­dia dos pro­ta­go­nis­tas. Numa cena, toca Be my baby em espa­nhol numa fes­ta deca­den­te à bei­ra de uma pis­ci­na; em outra, seus músi­cos posam tre­pa­dos em uma árvo­re para a foto da capa de um dis­co.

"Tabu", de Miguel Gomes

O elen­co, afi­a­dís­si­mo, inclui o bra­si­lei­ro Ivo Müller, no papel do mari­do traí­do de Aurora. A vete­ra­na Laura Soveral, extra­or­di­ná­ria no papel da velha Aurora, atu­ou em diver­sos fil­mes de Manoel de Oliveira e no bra­si­lei­ro O judeu, de Jom Tob Azulay.

Tabu é ape­nas o ter­cei­ro lon­ga-metra­gem de Miguel Gomes. A jul­gar por ele e pelos dois ante­ri­o­res, A cara que mere­ces e Aquele que­ri­do mês de agos­to — todos exi­bi­dos na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo do ano pas­sa­do -, cabe espe­rar com ansi­e­da­de pelos novos tra­ba­lhos des­se dire­tor de 40 anos.

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