Equipe IMS

A senhora é afro-americana?

Christian Schwartz

26.06.17

Quem lê a história contada por Rachel Dolezal em sua autobiografia In Full Color se depara com um flagrante caso omisso no código de conduta otimista do multiculturalismo. A ex-ativista que se identifica como transnegra tocou em contradições sensíveis das políticas de inclusão ditas progressistas, segundo as quais haveria uma suposta receita universal para a coabitação pacífica da diferença. E, de forma inesperada, o caso Dolezal também ganha ressonância na complexa discussão racial brasileira.

Em nome da filha

Caco Ishak

31.05.17

Escrito em junho de 2016, o trecho abaixo é o prólogo do meu próximo romance, ainda sem nome definitivo, que tem como temas principais a alienação parental e a legalização das drogas. Como pano de fundo, a disputa pelo controle do narcotráfico dos anos 1970 até os dias de hoje, em especial na região amazônica, a corrupção nos Três Poderes e o estado policial rumo ao qual caminhamos.

Os grandes sóis violentos

José Geraldo Couto

27.04.17

“O sonho acabou; quem não dormiu no sleeping-bag nem sequer sonhou.” A frase da canção de Gilberto Gil talvez seja uma maneira de resumir em poucas palavras o espírito de No intenso agora. Qualquer descrição ou sinopse será empobrecedora e ilusória, inclusive esta: o documentário de João Moreira Salles, exibido no Rio e em São Paulo no festival É Tudo Verdade, organiza e discute imagens filmadas na China maoísta de 1966, na França de maio de 1968, na Tchecoslováquia da Primavera de Praga e no Brasil da ditadura militar.

Suspense ao sul

José Geraldo Couto

16.09.16

Por um feliz acaso, estão chegando aos cinemas praticamente ao mesmo tempo dois filmes de suspense de cineastas brasileiros da nova geração, Mate-me por favor O silêncio do céu. Por vias diferentes, eles arejam e revitalizam esse gênero tão pouco cultivado entre nós. A boa notícia é que ambos são ótimos.  

Estas águas, este país

Carla Rodrigues

07.09.16

Não há lugar melhor do que o MAC para uma exposição sobre as águas da Guanabara, suas vidas e suas mortes. Localizado diante da entrada da baía, entre as duas fortalezas que a protegeram nos séculos XVI e XVII – Santa Cruz, do lado de Niterói, e São João, do lado carioca –, é parte do cenário da baía assim como a baía faz parte do museu, com suas janelas envidraçadas exibindo toda exuberância do que se pode chamar de ponto fundador não apenas do Estado do Rio de Janeiro, mas do Brasil como Estado-nação, suas vidas, suas mortes.

Quem conta a guerra são as mulheres

Carla Rodrigues

26.07.16

Para fazer o luto é preciso falar do luto, o que no caso dos mortos pela polícia, como no caso dos jovens de Costa Barros, implica também denunciar a violência do Estado. Entre os anos 2001 e 2011, o Rio de Janeiro registrou cerca de dez mil mortes em confronto com a polícia fluminense, conforme levantamento da OAB/RJ, muito bem nomeado de “Desaparecidos da democracia”. Sabemos que na Argentina são as Mães da Praça de Maio as mulheres que contam a guerra das ditaduras militares contra seus filhos. Sabemos que no Brasil foram as mulheres que lutaram pela Lei da Anistia, a fim de trazer de volta ao país seus maridos e filhos.

Memórias do presente

José Geraldo Couto

01.07.16

José Geraldo Couto associa o documentário Futuro junho, de Maria Augusta Ramos, a uma ideia do pesquisador e professor de filosofia Marcos Nobre, publicada recentemente na Folha de S. Paulo: vivemos um momento de “normalização do caos”, a exemplo do que ocorreu em outras épocas da história do país, notadamente nos anos 1980. O filme estreia dia 7/7 no cinema do IMS-RJ.

Brasil, capital Paris

Carla Rodrigues

29.06.16

Carla Rodrigues comenta dois livros recém-lançados que, à primeira vista, em nada se parecem: A tortura como arma de guerra, da jornalista Leneide Duarte-Plon, e Gênero e trabalho no Brasil e na França, coletânea de artigos organizada pelas pesquisadoras Alice Abreu, Helena Hirata e Maria Rosa Lombardi. Ainda que discutam temas muito distintos. ambos os livros têm em comum o debate das difíceis e intrincadas relações do Brasil com a França, em relação a quem o país ocupa uma posição ambígua.

Boal e o “milagre brasileiro”

Equipe IMS

31.05.16

O Brasil não era politicamente menos dramático que hoje naquele 25/4/84 em que Fernanda Montenegro escreveu ao amigo Augusto Boal no exílio. Entre euforia com a expectativa da votação e decepção com a derrota da emenda das Diretas Já no Congresso, a carta termina com a perplexidade atemporal de todo brasileiro: “Não sabemos o que vai acontecer.” Nunca sabemos. Trinta e dois anos após a agonia daquela noite sem final feliz, a atriz leu cópia de sua carta original em vídeo produzido para a exposição Meus caros amigos – Augusto Boal – Cartas do exílio.

Ame-o ou deixe-o

Bernardo Carvalho

01.07.14

Participando de um festival literário na Bretanha, vi que, para os franceses, parece inadmissível um brasileiro não amar o Brasil, o que não deixa de ser uma forma de paternalismo. Um escritor, indignado comigo, associava o país a uma namorada. Pelo menos, foi divertidíssimo o diálogo entre o quadrinista autor de O árabe do futuro e o ex-correspondente do Libération no Oriente Médio.