Catástrofe pedagógica

Séries

09.07.14

Tudo bem: o nocau­te de ontem doeu, ain­da dói e con­ti­nu­a­rá doen­do por um bom tem­po. O tra­ba­lho des­se luto não tem dia nem hora para ter­mi­nar. Mas, mes­mo antes que se dis­si­pe total­men­te a névoa do espan­to e da ver­go­nha, é pos­sí­vel come­çar a pen­sar e ten­tar acre­di­tar numa mudan­ça radi­cal do fute­bol bra­si­lei­ro. Usar a catás­tro­fe de for­ma peda­gó­gi­ca, pro­du­ti­va, trans­for­ma­do­ra.

A manei­ra mais efi­caz de bar­rar uma refun­da­ção sane­a­do­ra do nos­so fute­bol é apon­tar o dedo para algum bode expi­a­tó­rio: “cul­pa do Felipão”, “cul­pa da Dilma”, “cul­pa do Zúñiga”, “cul­pa do Mick Jagger”. Extirpa-se o cul­pa­do e vol­ta­mos a ser os melho­res do mun­do. Evidentemente, não é assim que fun­ci­o­na.

Para come­çar a enten­der as razões do fra­cas­so bra­si­lei­ro tal­vez seja útil obser­var, por con­tras­te, as razões do suces­so ale­mão.

Revolução silen­ci­o­sa ale­mã

Quando a Alemanha per­deu a final da Copa de 2002 para o Brasil, os diri­gen­tes espor­ti­vos do país deci­di­ram ini­ci­ar um pro­ces­so de reno­va­ção e pre­pa­ra­ção de lon­go pra­zo para vol­tar a con­quis­tar um títu­lo, algo que não acon­te­cia des­de 1990. O ex-arti­lhei­ro Jürgen Klinsmann assu­miu como trei­na­dor e cha­mou como dire­tor téc­ni­co da sele­ção o tam­bém ex-atle­ta Oliver Bierhoff, que segue até hoje no pos­to.

Pois bem: a Alemanha per­deu em casa a Copa de 2006 (ficou em ter­cei­ro) e não hou­ve tra­gé­dia. Klinsmann saiu, mas dei­xou no lugar seu assis­ten­te, Joachin Löw, que obte­ve tam­bém a ter­cei­ra colo­ca­ção na Copa de 2010, na África do Sul, e con­ti­nu­ou no car­go.

De 2006 até hoje, sob o coman­do de Klinsmann/Löw/Bierhoff, a sele­ção ale­mã viveu um pro­ces­so con­tí­nuo de aber­tu­ra para os natu­ra­li­za­dos e filhos de imi­gran­tes, bene­fi­ci­an­do-se do sur­gi­men­to de uma talen­to­sa gera­ção de atle­tas. Manteve o mes­mo elen­co-base e a mes­ma filo­so­fia de jogo – tro­ca de pas­ses, des­lo­ca­men­to per­ma­nen­te, inver­são de posi­ções entre joga­do­res poli­va­len­tes – des­de a Eurocopa de 2008 (na qual foi vice) até hoje.

No Brasil, no mes­mo perío­do (e pra­ti­ca­men­te des­de sem­pre), as coi­sas se deram de modo radi­cal­men­te dis­tin­to. Com o fias­co na Copa de 2006, atri­buí­do pela mídia e pelo tor­ce­dor comum ao exces­so de estre­lis­mo e de dis­per­são do “quar­te­to mági­co” (Ronaldo, Ronaldinho, Kaká, Adriano), pas­sou a vigo­rar uma filo­so­fia aus­te­ra e mili­ta­ris­ta, encar­na­da na dupla Dunga-Jorginho. Futebol boni­to pas­sou a ser vis­to como fres­cu­ra. A ideia do jogo como guer­ra, da “pátria em chu­tei­ras”, pas­sou a vigo­rar com mais for­ça do que nun­ca. Concentração e cara feia eram mais valo­ri­za­dos do que o talen­to e a com­pe­tên­cia téc­ni­ca.

Sebastianismo e pen­sa­men­to mági­co

Com o fra­cas­so de Dunga e sua equi­pe na África do Sul e, depois, a pas­sa­gem anó­di­na de Mano Menezes pelo coman­do da sele­ção, a CBF recor­reu a um tra­ço nun­ca assaz estu­da­do do ima­gi­ná­rio popu­lar: o sebas­ti­a­nis­mo. Quem foi o últi­mo trei­na­dor a con­quis­tar um títu­lo mun­di­al para nós? Luiz Felipe Scolari. Então está resol­vi­do: como o redi­vi­vo rei Don Sebastião, Felipão vol­ta­ria das bru­mas do pas­sa­do para nos con­du­zir à gló­ria.

Quer dizer: enquan­to a Alemanha apos­tou no pla­ne­ja­men­to e na pre­pa­ra­ção inten­si­va, o Brasil apos­tou no pen­sa­men­to mági­co, na mani­pu­la­ção dos sen­ti­men­tos mais pri­má­ri­os dos tor­ce­do­res. Até quan­do vai durar essa cren­ça de que a mera cami­sa ama­re­la mete medo no adver­sá­rio, de que entrar em cam­po com a mão no ombro do com­pa­nhei­ro da fren­te, como uma filei­ra de pri­si­o­nei­ros, e gri­tar o hino com lágri­mas nos olhos faz o time jogar melhor?

Mas tal­vez haja uma cama­da ain­da mais pro­fun­da de pro­ble­mas abai­xo des­sas tra­pa­lha­das de super­fí­cie. No perío­do de que esta­mos falan­do hou­ve uma dra­má­ti­ca escas­sez de cra­ques nos gra­ma­dos bra­si­lei­ros, sobre­tu­do os de meio de cam­po, res­pon­sá­veis pela orga­ni­za­ção e cri­a­ção de joga­das. Nos melho­res tem­pos do fute­bol bra­si­lei­ro, sem­pre foi esse o nos­so pon­to mais for­te. O que foi fei­to des­sa estir­pe que teve Didi, Gérson, Ademir da Guia, Rivellino, Falcão?

Proibido pen­sar

Em algum momen­to pare­ce que nos­sos trei­na­do­res e diri­gen­tes caí­ram na falá­cia de que o fute­bol moder­no não pre­ci­sa pen­sar. Pelo con­trá­rio: pen­sar atra­pa­lha. Bastam pre­pa­ro físi­co e dis­po­si­ção.

Há razões estru­tu­rais para essa escas­sez. Uma delas é a saí­da pre­co­ce de nos­sos joga­do­res mais talen­to­sos, ven­di­dos para clu­bes da Europa e da Ásia quan­do ain­da estão em for­ma­ção. Rompe-se assim a cadeia de apren­di­za­do cole­ti­vo que deu ao lon­go das déca­das con­sis­tên­cia ao esti­lo bra­si­lei­ro de jogar fute­bol, que encan­tou o mun­do e hoje pare­ce cada vez mais dis­tan­te. Alguns exem­plos con­cre­tos: no Santos, Zito pas­sou o bas­tão a Clodoaldo; no Botafogo, Didi o pas­sou a Gérson.

Os jovens talen­tos que per­ma­ne­cem no país são logo mol­da­dos, des­de as cate­go­ri­as de base, ao fute­bol-bru­cu­tu de cor­re­ria e “pega­da” que tem tor­na­do nos­sos jogos tão fei­os e desin­te­res­san­tes. Formam-se zaguei­ros vigo­ro­sos, volan­tes de con­ten­ção, ata­can­tes velo­zes. Mas os mei­as de cri­a­ção são des­pre­za­dos como coi­sa do pas­sa­do, resquí­ci­os de um fute­bol român­ti­co que já não exis­te. É fato que, no mun­do todo, são cada vez mais raros os Pirlos e os Zidanes. Mas esta­mos na van­guar­da da des­trui­ção des­sa cate­go­ria de artis­tas.

Desperdício de talen­tos

Para agra­var o pro­ble­ma, no nos­so caso, os pou­cos mei­as extra­or­di­ná­ri­os sur­gi­dos nas últi­mas déca­das no Brasil foram, por um moti­vo ou por outro, des­per­di­ça­dos em ter­mos de sele­ção bra­si­lei­ra. Refiro-me a Djalminha nos anos 90, Alex na pri­mei­ra déca­da do sécu­lo 21, a Paulo Henrique Ganso ago­ra. É cer­to que eles não foram ape­nas víti­mas des­sa exclu­são, mas con­tri­buí­ram para ela de manei­ras diver­sas: rebel­dia sem cau­sa, apa­tia, timi­dez. Mas o fato é que a paci­ên­cia com eles, por par­te dos trei­na­do­res da sele­ção, sem­pre foi mui­to menor do que com outros atle­tas de mui­to menos qua­li­da­de e mais “com­pro­me­ti­men­to” (leia-se, mais sub­mis­sos ao paternalismo/autoritarismo rei­nan­te).

Enfim, para encer­rar esse arra­zo­a­do que já vai lon­go e que ficou mais téc­ni­co do que eu espe­ra­va, eu diria que o desas­tre de ontem no Mineirão é a opor­tu­ni­da­de que temos para ama­du­re­cer na mar­ra, para fazer com que nos­sa sele­ção dei­xe de ser uma “famí­lia” com­pos­ta por atle­tas infan­ti­li­za­dos em tor­no de um pai calo­ro­so e cas­tra­dor e se tor­ne aqui­lo que deve ser: uma for­te equi­pe de fute­bol.

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