Uber, primo do Airbnb, neto do Napster 

Colunistas

12.08.15

De pes­soa para pes­soa, tra­du­ção para o por­tu­guês da sigla P2P (per­son to per­son), é uma for­ma de rela­ção soci­al que se esta­be­le­ce hori­zon­tal­men­te e, para isso, se vale de algum tipo de (nova) tec­no­lo­gia para medi­ar esse encon­tro. Mediação é, pode-se resu­mir, a fun­ção da rede mun­di­al de com­pu­ta­do­res, dos seus ser­vi­do­res espa­lha­dos pelo mun­do com o dese­nho dos rizo­mas pen­sa­dos pelo filó­so­fo Gilles Deleuze, que ao mes­mo tem­po enten­deu o for­ma­to anár­qui­co da inter­net e sua poten­ci­a­li­da­de como ins­tru­men­to para a pas­sa­gem de uma soci­e­da­de dis­ci­pli­nar para uma soci­e­da­de de con­tro­le. Mediação é tam­bém aqui­lo que ganha valor de mer­ca­do e remu­ne­ra novos tipos de inter­me­diá­rio.

Nesse ambi­en­te em que vida on-line e off-line já são a mes­ma coi­sa, sis­te­mas são con­ce­bi­dos para se tor­na­rem trans­pa­ren­tes ao usuá­rio, para usar o jar­gão do mun­do dos pro­gra­ma­do­res. A trans­pa­rên­cia não é uma qua­li­da­de como outra qual­quer. Ao con­trá­rio, sobre ela repou­sa o fun­da­men­tal da inter­net. Proporcionar medi­a­ção em inte­ra­ções não hie­rár­qui­cas. É isso que o Uber – mas tam­bém o Airbnb, e mui­tos anos antes deles, o fale­ci­do Napster – faz.

Uma par­te do apli­ca­ti­vo Uber, o Uberx, é de fato dedi­ca­da a medi­ar o inte­res­se em loco­mo­ção entre pes­so­as. Se cadas­tra­da, todos os dias, quan­do saio para o tra­ba­lho, pode­ria com­par­ti­lhar o tra­je­to com vizi­nhos mais ou menos pró­xi­mos. Com isso, ganhar um dinhei­ro para pagar o com­bus­tí­vel e o esta­ci­o­na­men­to, sem­pre dei­xan­do 20% para o apli­ca­ti­vo que fez a medi­a­ção. São ama­do­res fazen­do um dinhei­ro extra via rede soci­al. Há mui­to tem­po, fun­ci­o­na em São Paulo o Unicaronas, uma rede soci­al para estu­dan­tes uni­ver­si­tá­ri­os com­par­ti­lha­rem tra­je­tos lon­gos, como sair da capi­tal e ir para a Unicamp. 

Tudo mui­to dife­ren­te do Uberblack, con­tra o qual os taxis­tas se insur­gi­ram por con­si­de­ra­rem con­cor­rên­cia. E é. Entre os requi­si­tos do Uberblack está ser por­ta­dor de uma car­tei­ra de moto­ris­ta pro­fis­si­o­nal, ter um car­ro mode­lo sedan qua­tro por­tas, pre­to, que ofe­re­ce água gela­da. Não raro – afi­nal, esta­mos no Rio de Janeiro – esse moto­ris­ta tão edu­ca­do e qua­li­fi­ca­do pro­põe paga­men­to da cor­ri­da por fora, em dinhei­ro, para aumen­tar sua mar­gem de lucro e ofe­re­cer um des­con­to ao cli­en­te.

A mes­ma lógi­ca de pes­soa para pes­soa vale para o Airbnb, site que colo­ca em con­ta­to quem pro­cu­ra e quem ofe­re­ce hos­pe­da­gem em resi­dên­ci­as. Há resis­tên­ci­as, seja da indús­tria hote­lei­ra, seja de con­do­mí­ni­os que con­si­de­ram uma for­ma ou pre­da­tó­ria ou irre­gu­lar de hos­pe­da­gem. Nem uma coi­sa, nem outra. Redes soci­ais de tro­ca de resi­dên­cia entre pes­so­as, ou redes soci­ais espe­cí­fi­cas para tro­ca de resi­dên­cia entre pro­fes­so­res uni­ver­si­tá­ri­os, e até o diver­ti­do Couchsurfing, algo como sur­fan­do pelos sofás, são exem­plos em que a tec­no­lo­gia faz a medi­a­ção entre pes­so­as e ganha dinhei­ro com isso (a taxa de remu­ne­ra­ção do Airbnb tam­bém é um per­cen­tu­al sobre o alu­guel). Fazem suces­so por eli­mi­na­rem algum tipo de ins­ti­tu­ci­o­na­li­da­de, seja a dos alu­guéis por con­tra­to, seja as for­ma­li­da­des e os pre­ços altos dos hotéis. São ambi­en­tes regu­la­dos, sem dúvi­da, mas a fun­ção é de medi­a­ção, não de sub­mis­são.

De uma manei­ra geral, sou mui­to crí­ti­ca com quem é por demais oti­mis­ta com a inter­net. Não, a rede não é como você usa, por que isso supõe um livre-arbí­trio do usuá­rio que não exis­te; não, a rede não é neu­tra, é um ambi­en­te poli­ti­ca­men­te con­tro­la­do; não, a rede não é espa­ço de eco­no­mia cri­a­ti­va, por­que por trás des­tes negó­ci­os estão gran­des cor­po­ra­ções que migra­ram sua fon­te de lucro da velha para a nova eco­no­mia.

Mas ao mes­mo tem­po em que man­te­nho um pé fir­me nes­se viés crí­ti­co, tam­bém acho pos­sí­vel e mes­mo neces­sá­rio afir­mar que sim, se há algo de dife­ren­te nes­tes negó­ci­os: o for­ma­to. Estamos de vol­ta ao rizo­ma de Deleuze e Felix Guattari, tipo de plan­ta aquá­ti­ca sem cau­le, em que qual­quer pon­to pode se ligar a qual­quer pon­to, um tipo de sis­te­ma que colo­ca em rela­ção sig­nos e não sig­nos, não se dei­xa redu­zir nem ao uno nem ao múl­ti­plo, não tem come­ço nem fim, e é fei­to de “dire­ções move­di­ças”. A ima­gem do rizo­ma é usa­da por mui­tos auto­res para carac­te­ri­zar a expe­ri­ên­cia de mul­ti­pli­ci­da­de da rede, que se des­mon­ta e se remon­ta em con­fi­gu­ra­ções con­tin­gen­tes e pro­vi­só­ri­as, expres­são de um mun­do cuja pre­ten­são de fun­da­men­to se des­man­chou no ar.

De pes­soa para pes­soa, o Napster – cuja tro­ca de arqui­vos entre pes­so­as era gra­tui­ta – obri­gou a pode­ro­sa indús­tria fono­grá­fi­ca a se rein­ven­tar, e com a plas­ti­ci­da­de do capi­ta­lis­mo, a con­se­guir ganhar dinhei­ro com músi­ca digi­tal. De pes­soa para pes­soa, há quem viva em Manhattan e só con­si­ga pagar o alu­guel no fim do mês por alu­gar um quar­to em flu­xo cons­tan­te via Airbnb. Assim como há quem seja apo­sen­ta­do em Copacabana e ofe­re­ça um quar­to para alu­gar só para ter opor­tu­ni­da­de de “conhe­cer gen­te” (rápi­da pes­qui­sa no site de alu­guéis con­fir­ma que essa sim­pa­tia remu­ne­ra­da é a mai­or moti­va­ção decla­ra­da dos pro­pri­e­tá­ri­os).

De pes­soa para pes­soa, o Uber não faria o baru­lho que faz. Não há nenhu­ma dúvi­da de que a bri­ga com os taxis­tas no Rio de Janeiro é polí­ti­ca, envol­ve pre­fei­tos, ex-pre­fei­tos e uma quan­ti­da­de enor­me de votos. De pes­soa para pes­soa, ao Facebook – ape­sar dos milhões de dóla­res e do con­tro­le total do Mark Zuckerberg – se atri­bui a for­ça de mobi­li­za­ção da Primavera Árabe, das mani­fes­ta­ções na Europa, dos pro­tes­tos bra­si­lei­ros. De pes­soa para pes­soa, con­tor­nan­do ins­ti­tu­ci­o­na­li­da­des cadu­cas, a rede vai medi­an­do – e ao mes­mo tem­po con­tro­lan­do – as for­mas de vida con­tem­po­râ­ne­as.

 

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Rio, papel e lápis, a expo­si­ção de dese­nhos e o livro cor­res­pon­den­te do car­tu­nis­ta Cássio Loredano, é uma obra-pri­ma entre as inú­me­ras home­na­gens aos 450 anos do Rio de Janeiro. Pelos seus 62 dese­nhos, o cari­o­ca se dá con­ta daqui­lo que todos os gover­nos pare­cem fazer ques­tão de igno­rar. Vivemos numa cida­de his­tó­ri­ca, cujo encan­to natu­ral se mis­tu­ra e se con­fun­de com a rique­za cul­tu­ral dos tra­ços arqui­tetô­ni­cos tão bem repre­sen­ta­dos no tra­ba­lho de Loredano. Seu olhar para pré­di­os, igre­jas, monu­men­tos e pra­ças é capaz de eli­mi­nar toda a feiu­ra e o mau gos­to que a eles sobre­veio com o tem­po e res­ga­tar a bele­za de uma cida­de que, infe­liz­men­te, cada vez mais exis­te só no papel.

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